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O valor da crítica e o perigo do elogio

Podemos tirar preciosas lições de tudo na vida para o nosso aperfeiçoamento e para a glória de Deus.  

Redação (10/04/2022 08:41, Gaudium Press) Quem não gosta de receber elogios? Eles estão entre as coisas mais agradáveis de se ouvir, e entre as mais perigosas também. Um elogio por uma tarefa bem feita, um projeto bem sucedido, uma ideia original que tivemos é sempre muito bom, nos faz sentir valorizados e reconhecidos. Mas, de valorizados e reconhecidos a vaidosos e convencidos basta apenas um passo.

Há pessoas que nos elogiam porque, verdadeiramente, reconhecem o nosso valor; outras o fazem porque gostam de nós ou porque não querem nos desapontar. E há também os que nos elogiam apenas para nos bajular, quase sempre esperando receber algo em troca, ainda que indiretamente.

Como receber os elogios

A grande dificuldade é saber quando um elogio é sincero e quando ele é vazio, inconsequente e até mentiroso. Quando sinceros, os elogios podem nos tornar pessoas mais satisfeitas, porém, não nos tornam pessoas melhores. Afinal, o que é elogiado, geralmente, é algo que está acontecendo ou que já aconteceu e não contempla as nossas possibilidades sobre aquilo que ainda está por fazer.

Um dos aspectos mais sombrios do elogio é quando ele ressalta qualidades que sabemos que não temos, ou temos, mas ainda em grau muito baixo para merecer reconhecimento. E há também aquele elogio que não merecemos, que se refere a algo que não fizemos, ou não fizemos sozinhos, ou ainda a uma ideia que parece absolutamente original, mas não é nossa, é de autoria de outra pessoa. Nesses casos, será que sempre temos a necessária humildade e coragem para proclamar que não somos os autores legítimos, os responsáveis por aquele feito? Uma questão de consciência…

Nada nos impede de nos alegrarmos e usufruirmos da satisfação proporcionada por um elogio adequado à realidade dos fatos, mas, essa satisfação precisa ser rápida e pontual. Se pararmos nela, podemos dar lugar à soberba e perder o nosso propósito. Corremos o risco de nos tornarmos dependentes do reconhecimento alheio e passar a fazer qualquer coisa para obtê-lo, entrando em crise quando ele não vem.

Com efeito, é muito comum vermos isso no meio artístico, onde, infelizmente, após o fim de um período de sucesso, muitos não sabem como agir e acabam enveredando por caminhos sombrios que podem culminar na morte autoimposta.

Uma atitude fundamental, para não nos perdermos diante dos aplausos e das lisonjas que recebemos, é cultivar a humildade. Ela nos adverte que tudo o que somos, temos ou fazemos é fruto da graça. Portanto, nada vem de nós, nem mesmo – ou principalmente – os nossos talentos. Cabe a nós desenvolvê-los e fazer bom uso deles, porém, eles nos foram dados pela misericórdia divina e, como aprendemos com Jó, da mesma forma que foram dados podem ser tirados: “Nu saí do ventre de minha mãe, nu voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou: bendito seja o nome do Senhor.”

Não podemos nos esquecer da fala de Jesus: “Por que me chamas bom? Só Deus é bom.” Se Ele, o Filho Unigênito do Pai, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade fez essa referência, por que nós, tão pequenos, vamos nos considerar fenômenos e alimentar uma grandiosidade que não temos?

Portanto, os elogios devem ser como um precioso licor, do qual tomamos um pequeníssimo cálice, apreciando o seu agradável sabor. Beber a garrafa toda, além de nos deixar embriagados, destruirá o sabor melífluo da imponderável bebida.

O que fazer com as críticas?

Dentro dessas considerações, não podemos nos esquecer que, tão importante quanto o elogio, ou até mais que ele, é a crítica, cuja mera pronúncia já nos causa repulsa. Ninguém gosta de ser criticado e, se ficamos agradecidos e nos tornamos simpáticos àqueles que nos galardoam com as boas palavras, desenvolvemos verdadeira aversão e ojeriza àqueles que ousam nos criticar. Mas, não deveria ser assim.

Da mesma forma que não devemos nos deixar levar pelos elogios, também não podemos deixar que as críticas nos amedrontem e destruam o que somos e o que construímos, contudo, não devemos ignorá-las. Primeiro, precisamos reconhecer quem nos critica: pessoas que, com ou sem motivo, não gostam de nós; pessoas que têm inveja de nós e pessoas que estão sempre de mal com a vida e a tudo criticam, por hábito.

Muito mais do que os elogios, as críticas que nos são dirigidas podem e devem servir de estímulos. É claro que há críticas infundadas, sobretudo aquelas oriundas da inveja e dos que criticam pelo vício de criticar. Mas, quando a crítica vem de um adversário ou de um detrator contumaz, devemos considerar que aquela pessoa que, aparentemente, nos odeia, presta atenção a nós e ao que fazemos e, muitas vezes, nos critica por não se sentir capaz de fazer o que fazemos, como fazemos, então, mesmo que apresentemos um resultado quase perfeito, ela sempre encontrará um mas, um senão, um pelo no ovo.

Devemos perder tempo com isso? Não. Deixar que isso nos tire o sono e a paz? Não. Porém, devemos avaliar com imparcialidade, porque, muitas vezes, são nossos detratores, adversários e até mesmo nossos inimigos que nos apontam aquilo que devemos melhorar, aperfeiçoar. Se temos consciência de que o que fazemos é correto, é bom e está sendo bem feito, devemos aprimorar ainda mais. É como se encerássemos e lustrássemos o chão de um grande salão. Ficamos felizes e satisfeitos com o resultado de nosso esforço e encantados com tamanho brilho. Mas, aparece uma pessoa do contra e vê uma pequena penugem de uma ave que entrou pela janela e parou em um cantinho no fundo do salão ou um pelo de um animal que repousou no chão lustroso. Isso significa um demérito ao nosso trabalho? De forma nenhuma, mas, nos indica a necessidade de fechar as vidraças logo após terminar de encerar o salão, para evitar que a brisa traga qualquer elemento que possa se depositar naquele bem cuidado chão.

A inveja

Quantas pessoas, quantas obras e quantos grupos não são duramente criticados por aqueles que não conseguem ser como eles e se incomodam com a índole, com o bom desempenho e o sucesso de suas ações ou empreendimentos?

Recentemente, participando de um retiro espiritual com os Arautos do Evangelho, ouvi do sacerdote que pregou o retiro uma fábula sobre a serpente que persegue um vagalume para o devorar.  O pequeno inseto voa e faz tudo para fugir do astuto inimigo. Por fim, quando se vê encurralado e já cansado demais para fugir, antes de ser devorado, pergunta ao asqueroso réptil que o perseguia:

– Por que você quer me devorar? Acaso faço parte da sua cadeia alimentar?

­– Não.

– Eu lhe fiz algum mal?

– Não.

– Então, porque você quer me devorar?

– Por que eu não suporto o seu brilho!

Muitas vezes, passamos por isso, mas, nem sempre somos tão habilidosos e corajosos como o pequeno vagalume e, com medo de enfrentar as serpentes que nos ameaçam, acabamos por acreditar que o problema é nosso, quando não é.

Se agimos bem, fazemos tudo da forma correta e o inimigo quer nos aniquilar apenas por não suportar o nosso brilho, devemos procurar diminuir a intensidade da própria luz, não deixando de ser bons e de agir bem, mas procurando fazê-lo de forma mais discreta, afinal, a quem nos interessa que veja a nossa luz senão Deus?

Como nos ensinou Nosso Senhor, não devemos acender a luz e colocá-la embaixo do alqueire, mas num local que ilumine aos demais, no entanto, se não tomarmos cuidado, podemos nos transformar em holofotes e, em vez de alumiar, acabamos ofuscando os que estão ao redor. E isso não é bom.

Advogado do diabo

       Advogado do diabo. Embora o nome seja feio, esse personagem, extinto no pontificado de São João Paulo II, teve grande importância nos processos de canonização. Competia a ele, cujo título oficial era promotor fidei (promotor da fé), estudar e apresentar todos os argumentos possíveis contra a canonização de um candidato aos altares, de modo a apontar quaisquer falhas de caráter, deficiências nas provas de santidade, inconsistências em alegados milagres etc. O objetivo desse trabalho era evitar que alguém fosse canonizado precipitadamente e sem o necessário embasamento numa vida solidamente demonstrável de santidade.

Seja qual for o título que lhe dermos, ter alguém que aponte as nossas falhas, embora doloroso e incômodo, nos torna moralmente melhores e pode fazer mais por nós do que muitos elogios superficiais daqueles que nos apoiam.

Se a crítica tiver fundamento, ela nos aperfeiçoa e nos ajuda a desempenhar melhor o nosso papel. E, se for injusta e infundada, ela nos alerta para os perigos que corremos o tempo todo no mundo e nos oferece oportunidades preciosas de mostrar quem realmente somos, a que viemos e a maneira reta com que desempenhamos a nossa missão.

Às vezes, o inimigo é cruel e deixa um rastro irreparável de destruição, como Vladimir Putin em sua invasão da Ucrânia, que tem dado espaço para que as piores atrocidades sejam cometidas.

Mas, se avaliarmos a situação sob outro prisma, devemos considerar que, nem se Volodymyr Zelensky vivesse 200 anos, seus fãs e apoiadores conseguiriam fazer dele um personagem mundialmente reconhecido e admirado, como Putin fez. De ex-ator que protagonizou espetáculos de gosto duvidoso, ele se transformou num herói de guerra, com mais atitude e coragem que muitos generais. Um pequeno Davi que enfrentou um Golias da modernidade e, ainda que a Ucrânia perca a guerra, nada será capaz de apagar o brilho desse vagalume que, ironicamente, a serpente do Kremlin acendeu.

Enfim, de tudo na vida, até do que é ruim e nos faz sofrer, podemos tirar preciosas lições para o nosso aperfeiçoamento e para a glória de Deus, que dá forças aos fracos e liberta os cativos.

Por Afonso Pessoa

 

 

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