Gaudium news > O Rei do meio-dia

O Rei do meio-dia

Morto Felipe II, nunca mais a Cristandade viu monarca tão católico e tão submisso à Providência na hora do sofrimento.

Redação (14/09/2021 09:29, Gaudium Press) A 13 de setembro de 1598, quando os primeiros raios de sol baixavam sobre as brancas encostas do Guadarrama[1], a alma de um misterioso homem deixava esta terra e adentrava na eternidade. “Se algum príncipe encarnou a total confusão entre a ordem religiosa e a ordem política, marcando uma à outra os seus princípios, mas fornecendo-lhes ao mesmo tempo os meios de ação, foi realmente esse rei misterioso, nimbado de glória, mas também duramente marcado por alguns reveses, que a Espanha viu reinar sobre ela durante a segunda metade do século em que se realizaram os seus mais altos destinos”.[2]

Felipe II (1527-1598), o Rei prudente, senhor da metade do mundo no século XVI, foi, a seu modo, o “rei Sol” para aquela Espanha alquebrada pelas guerras, mas luminosa em sua arte e seu catolicismo.

Queda do César: nascer do sol

É de se perguntar como de uma mãe autenticamente portuguesa e de um pai imperiosamente germânico surgiria um homem franzino, delgado, um tanto tímido e indeciso. O príncipe Felipe reunia em si o sangue das casas de maior nobreza da Europa, notadamente pelo da ilustre dinastia dos Habsburgos; o tempo demonstraria como este fraco filho de Carlos V seria um digno continuador de sua linhagem.

Lá pelo ano de 1527, os estados cristãos viviam um momento de tensão; além de intermináveis conflitos fratricidas que acabavam com as nações cristãs, as tropas do césar alemão ousaram invadir os próprios domínios pontifícios.

O Papa Clemente VII sentia-se impotente diante daquele imenso exército que pilhava Roma. É nesta atmosfera de caos e incerteza que vem ao mundo, em Valladolid, o herdeiro do Império Espanhol. Muitos quiseram ver nisso não apenas um mau augúrio…

Ainda criança, Felipe perde a mãe inesperadamente; seu pai, Carlos V, sempre ausente pelas guerras e incursões no estrangeiro, não teve outra solução senão confiar a educação do príncipe a servos e tutores.

Seria um erro supor que o jovem recebera uma educação sombria — dominado por inquisidores fanáticos, ministros draconianos e sanguinários; as próprias atitudes do príncipe desmentem este quadro sinistro no qual o pretendem inserir; sempre ativo, vivo e até aventureiro nos anos de seu pré-reinado, era um grande apreciador das artes, sobretudo da música e da literatura.

Um dilema, entretanto, surgiu na alma do jovem príncipe no primeiro período de sua vida. Acostumado a ser traído ou mesmo enganado, Carlos nutriu em Felipe um profundo sentimento de desconfiança dos demais; isto realmente era fatal.

Não obstante, “até seus últimos anos, Felipe cultivou uma espécie de simplicidade infantil, (…) inclinado por natureza a confiar em demasia”.[3] Talvez nesta dicotomia de vontade esteja a gênese da indecisão que tanto o atormentaria mais tarde…

Rei católico

Aos 16 anos, Felipe já se via à frente da imensa potência para a qual seu pai o nomeara regente; Carlos V foi aos poucos se desvinculando daquele gigantesco domínio em favor dos seus mais próximos. Coube então a Felipe II a Espanha, Milão, Nápoles, os Países Baixos e todos os domínios do Novo Mundo.

Como se isso não bastasse, por sua união matrimonial com a Rainha da Inglaterra, era ademais soberano das ilhas britânicas; era realmente “dono” do mundo! Mas estava nos desígnios de Deus que este Rei Católico, mas orgulhoso, fosse privado das mais justas recompensas por sua Fé e dedicação à Igreja.

Tendo falecido a rainha inglesa, Felipe perdia qualquer pretensão sobre a ilha; o calvinismo nos Países Baixos espanhóis, fomentado por protestantes ingleses, tomou em armas para desvencilhar-se da coroa hispânica; o próprio Vigário de Cristo parecia-lhe por vezes contrário, e o perigo da pirataria mais uma vez infestava as costas peninsulares. Neste clímax catastrófico as qualidades e o gênio de Felipe II começam a desabrochar.

A preço de penosos trabalhos logra reconstituir a hegemonia daquele imenso império em ruínas: perseguiu ferozmente as heresias em seu reino, sabendo que o primeiro lugar era da religião; construiu numerosas igrejas e mosteiros, à frente dos quais o famoso San Lorenzo del Escorial; deu livre curso às ordem religiosas, e enviou-lhes em quantidade às Américas, e um sem-fim de outras obras.

O próprio Papa Pio V não poupou elogios à piedade e valor que eram naturais no monarca espanhol.

Passado o meio-dia…

Fatos como estes puseram em realce a figura do Rei Católico como máximo exemplo e defensor da Cristandade; entretanto, à maneira de um rio que dá largas voltas antes de adentrar nas águas do mar, Felipe muitas vezes distanciou-se da causa à qual tão valorosamente serviu. Valer-se de tesouros da Igreja e querer governá-la excessivamente é apenas um exemplo da conduta desviada de Felipe II.

Quando seus atos já despertavam clamor e indignação de seus súditos, ao voltar um dia a seu palácio em Madrid, encontrou em seu gabinete uma carta selada sobre a mesa. “Recordai, senhor, que o rei Saul foi ungido e, sem embargo, rechaçado.” É o único que se conhece desta misteriosa missiva; assinava: Teresa de Jesus.

A célebre mística carmelita — como contaria uma religiosa posteriormente — fora vinculada à ação e missão do monarca a tal ponto que, estando em ação de graças após a comunhão, mais de uma vez ouviu o próprio Cristo suplicar-lhe:

“Filha, quero que [ele] se salve. Rezai por ele; Deus o quer. Esta pessoa passou por grandes provas, e outras maiores ainda o esperam.[4]

Com frequência incitava suas religiosas a rezarem por certo senhor do mundo, pois ele teria de sofrer a traição de seus súditos e a morte de seus mais próximos; profecias cumpridas à risca…

Certamente as palavras da santa “abulense” gravaram-se a fogo naquela pobre alma tão amada por Cristo.[5] Teresa foi, sem dúvida, o sustentáculo da perseverança de Felipe neste difícil período após o meio-dia.

provas maiores ainda o esperam

Após orgulhosos — e duros… — anos de reinado, a Providência cobrou deste monarca ainda mais por suas faltas.

Traição, fracasso, morte… Seria longo enunciar as desgraças que se precipitaram sobre Felipe II nos últimos anos de sua vida. Para cúmulo de miséria, uma asquerosa doença impedia-o de sair de seu leito e até mesmo de trocar as roupas; horríveis chagas não lhe deixavam uma porção de carne sã, e aquele rei que havia triunfado sobre meio mundo estava literalmente apodrecendo…

Felipe II morreu após inenarráveis sofrimentos, acrescidos pela pena de ver seu império deixado nas mãos de uma filha estéril e de um menino inexperiente.

Deus coroava com o sofrimento essa fraca, mas fiel alma, detentora de uma grande missão em relação à sua Igreja.

Morto Felipe II, nunca mais se viu um soberano tão católico, tão consciente de seu dever, mas também tão submisso à Providência em aceitar o sofrimento.[6]

Por André Luiz Kleina


[1] Serra espanhola aonde se encontra o palácio-mosteiro do Escorial, construído por Felipe II.

[2] ROPS, Daniel. A Igreja da Renascença e da Reforma: a Reforma Católica. Trad. Emérico da Gama. São Paulo: Quadrante, 1999, p.167.

[3] WALSH, William Thomas. Felipe II. Trad. Belén Moya. Madrid: Espasa-Calpe, 1943, p.70.

[4] Cf. WALSH, William Thomas. Felipe II. Trad. Belén Moya. Madrid: Espasa-Calpe, 1943, p.537-538.

[5] Teresa manteria uma pródiga correspondência com o rei Felipe até o final de sua vida.

[6] Cf. SCHNEIDER, Reinhold. Filipe II. Trad. Álvaro Franco. Porto Alegre: Globo, 1935.

Deixe seu comentário

Notícias Relacionadas