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O que Napoleão nos ensinou ao ser exilado?

Que responsabilidade imensa carrega aquele que vê claramente as consequências e, mesmo assim, não as leva a sério?  Na verdade, o rumo de toda a História pode mudar pela decisão de um homem.

Foto: Wikipedia

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Redação (25/05/2026 15:31, Gaudium Press) 3 de maio de 1814. A Europa, enfim, via-se livre de um dos maiores obstáculos que a oprimia por mais de dez anos: Napoleão abdicava do trono. Obstáculo?! Sim. O próprio Napoleão o reconhecera a 4 de abril, ao declarar que “era o único obstáculo para o restabelecimento da paz na Europa”.[1]

Ao longo dos anos de dominação napoleônica na França e no Velho Continente, um ódio enorme se acumulara contra o Imperador. Os franceses estavam cansados dele. E os povos vizinhos, conquistados à força das baionetas, com que palavras o qualificavam? É melhor nem o dizer… Basta lembrar que incontáveis mães da França o chamavam de Ogro corso, “um monstro que procurava devorar gerações inteiras, para saciar seu louco desejo de guerrear”.[2]

O exílio

Diante desse clima, não tardou para que Napoleão fosse expulso de sua nação, e das demais, sendo obrigado a partir para o exílio. Assim, a 20 de abril, o Corso anunciou que estava pronto. Saiu do palácio, dirigiu um último discurso aos soldados de sua velha guarda e entrou na carruagem.

“Mal Napoleão deixara os militares, deparou-se com uma multidão hostil. Depois dos soluços de sua velha guarda, vieram as vaias e as imprecações! Enquanto a carruagem atravessava a Provence, só se ouviam os gritos de um povo liberto das cadeias: ‘Abaixo o tirano! Patife! Aventureiro!’ Nas aldeias onde trocavam os cavalos, as mulheres, enfurecidas, acotovelam-se à portinhola para insultá-lo. Pedras voavam contra a carruagem”.[3]

Quando chegaram a uma pequena localidade, Orgon, a carruagem ficou impossibilitada de sair da praça, pois o povo havia cercado o veículo. Napoleão olhou pela janela e horrorizou-se: um manequim, feito à sua imagem, manchado de sangue e enforcado, trazia um cartaz com o nome: “Bonaparte”.[4] Um dos acompanhantes saiu da carruagem e conseguiu abrir caminho para o exilado. Sem embargo, abalado, Napoleão pediu licença para seguir à frente, e se apresentar com outra identidade nos próximos vilarejos, a fim de evitar novos pesadelos.

Três horas após ter deixado os comissários, deteve-se num alojamento a alguns quilômetros de Aix. Na fachada, lia-se o nome ‘La Calade’. Entrou na sala comum, apresentou-se como um oficial inglês da escolta de Napoleão e ordenou que fosse preparado um jantar para o antigo Imperador. A empregada respondeu que lhe desagradaria muito cozinhar para ele e, afastando-se, começou a afiar uma faca. Quando terminou, pediu que Napoleão tocasse a ponta.

– Está bem afiada, não é? Se alguém quiser usá-la para esfaquear o Imperador, empresto com prazer.

– Odeia com toda sua alma o Imperador. O que ele lhe fez?

– O que me fez? Ah! Esse monstro é a causa da morte de meu filho, de meu sobrinho e de tantos outros jovens.[5]

Uma hora mais tarde, quando chegaram seus acompanhantes, encontraram “o ex-soberano do mundo submerso em profundas reflexões, com a cabeça apoiada entre as mãos”.[6]

Continuaram a viagem até o porto de Fréjus, onde embarcaram na fragata inglesa Undaunted, que havia sido reservada para a travessia. A âncora foi levantada e as velas começaram a empurrar a embarcação. O Imperador ficou na popa, vendo lentamente a costa da França afastar-se no horizonte.

Na Ilha de Elba

Pouco tempo depois, no dia 3 de maio de 1814, Napoleão avistou, no meio do mar Tirreno, uma ilha que aos poucos dominava o horizonte: era a ilha de Elba. Seria seu novo e estreito domínio. Conformar-se-ia ele com este novo “império”, ele que não se saciara com a metade da Europa?

Mal desembarcou, “Napoleão recusou, para espanto dos camponeses, os banquetes que lhe queriam oferecer, e imediatamente partiu a cavalo para inspecionar as fortificações de seu novo reino. A partir do dia seguinte, as ordens começaram a chover sobre a ilha adormecida: que se instalassem mais 2 baterias em Pianosa; era preciso aumentar o molhe, reparar todos os caminhos. Os insulares assistiam, surpresos, ao desembarque de 400 granadeiros. Seu novo soberano não tardou a formar uma legião estrangeira e uma espécie de guarda nacional. Em pouco tempo, Napoleão acha-se, de novo, à frente de mil homens e, logo, de uma flotilha”.[7]

Paris não ficava muito longe, e uma pergunta o assaltava a todo momento: o que dirão? “As notícias que lia, duas vezes por semana, nos jornais e as que lhe levavam seus visitantes faziam-no entrever outras possibilidades para o futuro”.[8] Por enquanto, a França não estava inteiramente a favor do novo regime. Ele acreditava, assim, que o exército ainda lhe era fiel e que, com ele, poderia retomar o poder. Elba era próxima da França, e não seria difícil regressar sem ser reconhecido. Traçou, então, seu plano de reconquista do trono: “Conto – explicou aos seus – com a estupefação e com a irreflexão, com o arrebatamento dos espíritos diante de uma empresa audaciosa e inesperada”.[9] Ele tentou e venceu. Por poucos dias retomou o cetro. Bem poucos dias – apenas cem –, mas suficientes para ensinar às futuras gerações.

Uma lição

De fato, uma decisão radical – como a sugerida pelo velho diplomata francês Talleyrand, que “aconselhara enviar o homem perigoso para as ilhas dos Açores, a 500 milhas da costa”[10] – poderia ter afastado o perigo de uma vez por todas. Mas a moleza e a mediocridade prevaleceram nas horas decisivas.

Há decisões que não podem ser tomadas pela metade. Quem não leva suas resoluções até as últimas consequências nunca acerta. E muitos dos desastres que presenciamos hoje não nascem, precisamente, do acúmulo secular de dizer “meio não” ao mal e “meio sim” ao bem?

Por Juan E. Torres


[1] LUDWIG, Emilio. Napoleão. Trad. Mario de Sá. 3. ed. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1935, p.311.

[2] WEISS, Juan Bautista. Historia Universal. 5. ed. Barcelona: La Educación, 1933, v.22, p.645.

[3] LUDWIG. Op. cit., p.314.

[4] Cf. CASTELOT, André. Napoleón Bonaparte: el ciudadano, el emperador. Trad. Marcela Solá. Buenos Aires: El Ateneo, 2012,p.521.

[5] Cf. Ibid., p.522-523.

[6] Cf. CASTELOT. Op. cit., p.522-523.

[7] LUDWIG. Op. cit., p.315-316.

[8] Ibid., p.320.

[9] Ibid., p.324.

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