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O que falta aos padecimentos de Cristo?

Para que as coisas se componham no mundo em caos, está faltando um “complemento” à obra da Redenção: que se acolha o dom de Deus.

Redação (05/04/2021 13:22, Gaudium Press) Certamente, a grande maioria dos católicos praticantes saberá de cor a oração do Credo que é recitada nas Missas dominicais. Mas conhecerão profundamente o sentido dessas verdades e as professam com fervor? Entre parênteses, a expressão “católico praticante” é uma redundância; não se pode pretender chamar-se católico e viver à margem da religião.

Acontece com muitos dos que empreendem a iniciação cristã (Batismo, Confirmação e Eucaristia), que não vão além da preparação sumária necessária para receber o sacramento pela primeira vez, descuidando assim o cultivo da Fé. Agora, a militância católica exige formação e crescimento, tanto em conhecimento como em virtude. Naturalmente, será solicitado à criança certa quantidade de aprendizado e comportamento; para uma pessoa já madura, um maior fluxo de formação e aperfeiçoamento.

Ao dizer “formação”, não se pense em estudos especializados ou eruditos, trata-se de dar atenção ao instinto cristão que naturalmente anseia pela verdade ao sopro da graça. Criaturas racionais com destino eterno… nem sempre somos racionais. O homem contemporâneo negligencia as preocupações religiosas, e o dinamismo de seu interesse vai para as questões econômicas, políticas, lúdicas, ambientais, quando não, apenas particulares ou, direta e descaradamente egoístas, dando as costas para o bem comum.

Amar e conhecer andam de mãos dadas

Concretamente, em relação ao mistério eucarístico, há um grande desconhecimento e muitos lusco-fuscos que tiram dos fiéis a apetência pelo Sacramento, minando assim sua vida espiritual. A relutância em conhecer e amar vai enfraquecendo a Fé, e se é verdade que não se ama o que não se conhece, não é menos verdade que ninguém quer saber algo que não desperte interesse ou curiosidade. Amar e conhecer andam de mãos dadas.

Uma amostra dessa negligência tivemos há alguns anos com uma notícia pavorosa: segundo uma pesquisa digna de crédito, 69% dos católicos norte-americanos acreditavam que o pão e o vinho eram apenas símbolos após a consagração na Missa, e não o Corpo e Sangue do Senhor! Não estamos perante uma amostra isolada, mas de um sintoma: esta realidade é o cume de uma vasta cordilheira que engloba o tema eucarístico e todo o corpo doutrinal do cristianismo.

É preciso, então, despertar o interesse pelas coisas da Fé para que tenham consequências na vida diária. Caso contrário, os costumes, as instituições e as leis pagãs que vão se impondo -algumas delas aberrantes- destruirão os restos da civilização cristã que ainda sobrevivem.

Promessa da imortalidade da Igreja

É verdade que a Igreja tem a promessa da imortalidade, as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Mas não se disse que um país ou uma área de civilização perdurará eternamente. Quantos impérios e culturas se eclipsaram e desapareceram ao longo da história! A Virgem em Fátima chegou a dizer que, se não houvesse emenda de vida, “várias nações seriam aniquiladas”.

Hoje, dramas de vários tipos nos afligem. Chega-se a pensar na total impotência do homem para restabelecer a ordem, e que só uma intervenção de Deus poderá nos salvar. No entanto, isso é muito simplista e confortável, é uma verdade empobrecida, carente de um matiz imenso: que cabe aos mortais dar a sua contribuição ao projeto divino e não ser indolentes e neutros.

“Completo na minha carne o que falta nos sofrimentos de Cristo, a favor de seu corpo, que é a Igreja” (Colossenses 1, 24), escreveu São Paulo aos Colossenses. Como os padecimentos de Cristo não foram suficientes? Sim, o foram em relação à Sua Pessoa, Ele padeceu por inteiro nos mostrando o caminho a seguir que passa pela cruz. Esse mesmo caminho devemos, nós cristãos, percorrer.

A Santa Missa é, pois, a mais bela expressão externa em honra de Deus, uma vez que é por Ele mesmo oferecido enquanto Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

O valor da Santa Missa

Fomos salvos por Cristo, mas não de forma impositiva e automática, a salvação deve ser aceita, os homens devem cumprir seus deveres e carregar a própria cruz. Esse é também o sentido de outro ensinamento paulino, desta vez para os hebreus: “Toda desobediência e transgressão incorreria em justa sanção. Como podemos escapar se descuidamos de uma tão sublime salvação?” (Heb. 2, 2-3).

Voltemos agora para outra verdade, esta muito consoladora. Enquanto a Santa Missa for celebrada no mundo -atenção: ainda que seja apenas uma única Missa em algum canto ignorado da terra- todo bem pode ser esperado para a humanidade. Sacrifício reparador, Presença salvífica e Alimento vivificante, a Eucaristia é a permanência da Redenção no tempo, é Deus que oferecendo-se para salvar-nos, é claro que contando com a nossa resposta dada ao impulso da força prodigiosa que emana, precisamente da Missa.

A Santíssima Virgem é a intercessora segura para chegar ao Senhor, presente nos altares onde se oferece. Um cântico eucarístico proclama: Caro Christi, caro Maria (a carne de Cristo é a carne de Maria). Filha predileta do Pai, Mãe admirável do Filho e Esposa fiel do Espírito Santo, ela está profundamente entranhada no poder, no querer e no obrar divino.

Como completar o que falta na Paixão de Cristo?

“Sabendo Jesus que era chegada sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado aos seus que estavam no mundo, os amou até o extremo” (Jo 13, 1). Em seu testamento, Jesus nos deixou duas preciosidades: seu Corpo no Cenáculo e Sua Mãe na Cruz. O que mais poderíamos querer de maior e de melhor? Então, diante das crises que nos preocupam, nem tristeza, nem otimismo mas um realismo responsável e animoso, pois Deus renovou a antiga e eterna aliança com seus filhos, sendo-a com Seu Sangue no Calvário e, à véspera, instituindo a Sagrada Eucaristia na última ceia.

Para que as coisas se componham no mundo em caos, está faltando esse “complemento” à obra da Redenção: que se acolha o dom de Deus. Como completar “o que falta na Paixão de Cristo”? Basicamente, valorizando os tesouros da Fé – entre os maiores estão a Eucaristia e Maria – e emendando nossas vidas. Dito de outra forma, trata-se de ser “praticantes”.

Mairiporã, Abril de 2021

Por Padre Rafael Ibarguren EP – Assistente Eclesiástico das Obras Eucarísticas da Igreja.

Traduzido por Emílio Portugal Coutinho.

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