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O que é surdez espiritual?

Infelizmente, a surdez espiritual é muito mais generalizada hoje em dia do que em outras épocas históricas. Inclusive entre os próprios batizados.  

Sudez espiritual

Redação (09/11/2020 10:38, Gaudium Press) Um incontável número de almas tem os ouvidos endurecidos à palavra de Deus, quer seja por falta de formação, quer pela pobreza da oração. Quantos são os ateus práticos que nunca rezam!

As correrias do dia a dia, as preocupações com as coisas materiais, o egoísmo e nosso imediatismo não nos deixam entrar em contato com Deus, fazendo-nos esquecer dos autênticos valores desta vida — os tesouros que acumulamos para a eternidade — e de que já nesta Terra podemos, de alguma forma, prelibar o convívio paradisíaco para o qual Ele nos convida.

Deus fala conosco a todo momento

Deus entra em contato conosco o tempo inteiro, pois Ele jamais abandona sua criatura e tem verdadeiro empenho em dirigir-Se a ela dos mais diversos modos. Por um lado, através da criação: tudo o que existe nos fala de Deus. Até mesmo seres na aparência insignificantes, como uma formiguinha fazendo um enorme esforço para carregar uma folha, nos provam a existência do Deus que tirou do nada as criaturas e as sustenta a cada instante.

Por outro lado, Nosso Senhor subiu aos Céus, mas nos deixou uma Igreja visível mediante a qual nos transmite a sua Palavra. Será pela doutrina pontifícia, por sermões magníficos, pela consideração da Providência Divina percorrendo as páginas das Sagradas Escrituras, ou pelo ambiente de certas igrejas belíssimas, onde é impossível não se estabelecer uma ligação entre a pessoa e Deus… Enfim, quantos Santos, quantos escritos, quantas artes, quantas outras maravilhas não possui a Santa Igreja para fazer chegar até nós a voz de Deus!

Às vezes são fatos e acontecimentos concretos que revelam a presença do Altíssimo. Por exemplo, alguém anda mal e recebe uma punição! É Deus manifestando quanto ama aquela criatura. Por quê? Porque está dito na Escritura: “O Senhor castiga aquele a quem ama” (Pr 3, 12). Para um pode ser ainda uma provação que redunda em benefício; outro é perseguido por sua virtude, mas, em certo momento, triunfa, porque o bem jamais deixa de prevalecer. Ou então, a morte repentina de um conhecido nos faz lembrar estarmos, sempre, a um passo da eternidade…

No entanto, não é só pelos meios externos — de si quão valiosos! — que Deus Se comunica conosco. Ele nos fala também em nosso interior, em diversas circunstâncias, com graças atuais em quantidade, através de discretos sopros e moções íntimas. Inclusive, por mais endurecido que possa ser um pecador, Deus nunca cessa de aguilhoar-lhe a consciência, a fim de ele se dar conta de seus desvios.

Por que ficamos surdos?

Ora, a vida espiritual consiste na reciprocidade para com esta constante voz de Deus chamando-nos: é preciso não só ouvi-la, como corresponder a ela. Porque se é falta de educação não retribuir o cumprimento de alguém com quem nos cruzamos, sobretudo esta atitude é impensável perante Deus.

Devemos ter a postura de Samuel ao escutar o apelo do Senhor: levantou-se de imediato, e disse: Præsto sum — Estou pronto! (cf. I Sm 3, 5).

Por que acontece, então, de ficarmos surdos, se Deus fala com tanta vivacidade e através de tantos meios? A causa principal deste mal é abrir o coração para vozes estranhas, alheias a Deus e que não conduzem a Ele. A impureza, a avidez por dinheiro, o gozo da vida e as concessões feitas ao pecado tornam duro o ouvido espiritual, bem como encardida e entorpecida a alma.

Barbarizado pelo ruído de seus sentidos, perde o homem a audição do Espírito Santo e se torna inteiramente refratário à voz de Deus. Esta nada mais significa para ele, não o impressiona nem lhe toca o fundo da alma.

O surdo espiritual é tão incapaz de compreender os assuntos da Fé, quanto um cão o é em relação aos raciocínios da inteligência humana. O próprio Nosso Senhor Se queixa várias vezes — comprovamos isso ao longo dos Evangelhos — a respeito do povo que ouve, e não entende. Por isso, Ele intimava aqueles que assistiam à sua pregação: “Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça!” (Mc 4, 9).

O perigo de cair na surdez parcial

Todavia, existe também a surdez parcial. Ao ouvirmos certos temas espirituais vibramos e até nos emocionamos… mas, em parte. Eis que a linguagem usada pelo mundo, com todos seus atrativos, nos seduz e, por vezes, em lugar de combatermos tais solicitações, as aceitamos. Então, os ouvidos carregados por estes rumores não mais percebem aquela voz divina austera, contudo muito suave e deleitante, desde que saibamos apreciá-la.

Com efeito, como é possível escutar a voz de Deus enquanto estamos com a atenção posta no bulício da internet, das redes sociais e de tantas outras coisas? Como manter-se numa perspectiva que faça crescer a própria fé, se nossos atos são completamente desprovidos de qualquer significado sobrenatural, pois vivemos como ateus práticos? Como ter o pensamento tomado pela grandeza e beleza de Deus quando temos nossa mente presa àquilo que é imoral?

Dois objetivos opostos não cabem na mesma ação do homem: é Deus ou satanás, é o Céu ou o inferno. Isto nos leva a concluir que o mundo, em geral, é muito mais surdo do que, a princípio, imaginaríamos.

Quem hoje em dia fala de Deus? Quem O conserva no centro de suas preocupações? Quantos rezam seriamente? Ora, se não há oração, não há conversa com Deus; se não há conversa com Deus, só há surdez.

Supérfluo é dizer que tal enfermidade traz como consequência o mutismo, ao qual bem podemos dar como significado sobrenatural o esquecimento de glorificar a Deus. O surdo não tem Deus nos lábios e não eleva sua consideração ao Criador; sua conversação é vulgar, orientada para as bagatelas e… com facilidade gosta de falar de si mesmo. É mudo porque, ao entrar em diálogo com o demônio, tornou sua língua inábil para discorrer sobre as verdades da Fé.

O remédio: aproximar-se d’Ele

A estas alturas nos perguntamos: “Qual é o remédio para isto?”. Só o poder de Deus há de sanar quem chega ao estado de surdez e de mutismo espiritual. No meio do tumulto do mundo, das atrações da sensibilidade e das ilusões do demônio, é impossível para um surdo dar-se conta de sua situação espiritual.

Por tal motivo, cumpre tirá-lo das ocupações moralmente perigosas, separá-lo dos maus relacionamentos, levá-lo a desapegar-se de tudo o que o afasta de Deus.

Ou seja, a primeira condição para a cura é unir-se a Deus e apartar-se do mundo. Para perseverar em meio à decadência moral da sociedade atual, é indispensável nunca abandonar a mão estendida por Cristo. Devemos procurá-Lo, pois Jesus nos toca através dos Sacramentos. Qual não será o efeito da Eucaristia — que é Ele em substância —, se a tomarmos com fé e abertura de alma!

Se nosso amor a Jesus por meio de Maria for pleníssimo a ponto de substituir nosso egoísmo, saberemos discernir, em meio à zoeira e às aflições do mundo moderno, a voz da graça.

Mons João Scognamiglio Clá Dias, EP

Texto extraído, com adaptações, da Revista Arautos do Evangelho. n. 165. Setembro 2015.

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