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O que é pior do que matar alguém?

Estudiosos da Psiquiatria e Psicologia Forense, analisando o modus operandi de assassinos em série, psicopatas, chegaram à conclusão de que essas pessoas são incapazes de sentir empatia, de se condoer com o sofrimento do outro e sentem prazer em causar filigranas de dor.

Redação (10/08/2022 15:08, Gaudium Press) Quase todas as semanas, os noticiários nos “presenteiam” com um crime bárbaro. O mais recente aconteceu no último final de semana, quando um policial matou, com um tiro na cabeça, um lutador de jiu-jítsu, após discussão num show em São Paulo.

São brigas no trânsito que resultam em morte, atiradores que invadem escolas e igrejas e fazem dezenas de vítimas, homens que matam as esposas, companheiras, namoradas, geralmente, por motivos banais. Alguns chegam a matar os próprios filhos. Mata-se para roubar um celular. Mata-se quando, num roubo, a vítima não tem nada de valor para oferecer ao ladrão. Mata-se simplesmente porque se sente vontade de matar.

Desde a história bíblica de Abel e Caim, o homicídio ainda se nos afigura como a pior coisa que um ser humano pode fazer a outro, mas será isso mesmo?

Na semana passada, ao passar por uma rua da cidade onde moro, deparei-me com uma senhora chorando copiosamente, na calçada de uma casa, em meio a galhos de uma árvore no chão. Não tenho o hábito de me meter em assuntos alheios, porém, o estado da mulher chamava a atenção, soluçando alto, e eu me aproximei para oferecer ajuda.

Foi difícil ela conseguir se acalmar e me falar o que estava acontecendo. Aparentemente, ela não estava ferida e nem correndo risco, entretanto, quando ela narrou o ocorrido, não tive como não sentir empatia e compreender a sua situação.

Ela me contou que mora na casa do fundo e a sogra mora na frente. A casa que ela e o esposo construíram no fundo é maior e mais bonita que a casa da frente e, naquele momento, ela estava fazendo melhorias na casa, coisa que a sogra não admitia. Então, para mostrar o descontentamento, procurou atingi-la de várias formas, e uma delas foi cortando a árvore.

Matando aos poucos

Eu não disse nada, apenas a ouvi. Há momentos em que o melhor que podemos dar a alguém são os nossos ouvidos e o nosso silêncio. Depois de desabafar, ela conseguiu se acalmar um pouco e me perguntou se eu a estava achando louca por chorar daquele jeito apenas por causa de uma árvore cortada, mas nem me deu tempo para responder.

– Não é apenas a árvore, moço. É a tortura e a crueldade dessa mulher, ela está me matando aos poucos. Eu só não fui ainda embora daqui porque o meu marido é um homem muito bom, nós somos católicos, somos pessoas de fé, e eu não vou deixar a maldade dela destruir a minha família.

Então, mais calma, ela conseguiu me contar que gostava muito daquela árvore e que, alguns dias antes, havia tirado várias fotos e elogiado a beleza e o perfume das flores. Disse que sempre estava cheio de borboletas, abelhas e outros insetos sugando o néctar e que até o gatinho da sogra gostava de raspar as unhas no tronco e de se alojar sobre os galhos, fazendo voar os passarinhos que também se abrigavam ali.

– Assim, porque eu elogiei a árvore, porque ela sabia que eu gostava, ela pagou um pedinte que passava pela rua para fazer o serviço e ainda teve a frieza de pedir o meu alicate de poda e o meu serrote emprestados, dizendo que ia podar a árvore. Quando o rapaz terminou, cinicamente ela me chamou, devolveu as ferramentas e disse que tinha resolvido o problema. A princípio, não entendi. Mas ela me perguntou, sorrindo, se eu não ia ver como ficou. Quando cheguei ao portão, a árvore estava no chão, deixaram menos de 20 cm de tronco e ela ainda disse que o rapaz não tinha ferramenta para arrancar, mas que ela ia providenciar isso. Jogaram os galhos e o tronco na caçamba da minha obra! O máximo que consegui fazer foi retirar os galhos da caçamba, jogá-los aqui no chão e chorar, como o senhor está vendo.

Dei-lhe um olhar compreensivo e ela concluiu:

– Não é apenas o corte da árvore, moço, é a minha alma que ela vem cortando há anos, pouco a pouco, com lâmina afiada, desde que mudei para cá. Seria melhor que ela me desse um tiro, porque ela me mata um pouco a cada dia, e eu não tenho saída. O senhor pode não entender, as pessoas podem não entender, só eu e ela sabemos o que significou o corte dessa árvore.

Pessoas tóxicas ou sem Deus?

Eu apenas disse para ela entregar as suas mágoas a Deus e pedir que Nossa Senhora a confortasse e a ajudasse a perdoar, e me afastei, pensando em muitas coisas. Lembrei-me de já ter passado naquela rua e até de ter visto uma velhinha miúda varrendo a calçada coberta das flores amarelas que caíam da árvore. Então me lembrei de algo que a minha mãe dizia e que, na época, eu nem entendia direito. Ela costumava dizer:

Cuidado com os velhos, meu filho. A velhice não santifica ninguém. Gente que não presta quando nova, continua não prestando depois de velha, às vezes, fica até pior”.

Então, volto para o assunto com o qual iniciei este artigo, os homicídios. O que faz uma pessoa acreditar que tem o direito de tirar a vida da outra e executar tal ato? Muitas vezes, um assassinato é cometido no calor de uma briga, a pessoa age por impulso e só depois se dá conta do mal terrível que fez.

No entanto, outras vezes, o homicídio é premeditado, a pessoa calcula tudo friamente, prepara-se para executar aquele ato, arma emboscadas para atrair a vítima. Pode ser alguém que queira matar um desafeto, se vingar de alguma situação, ou pode ser apenas uma morte por encomenda. Aquele que quer matar e não tem os meios e a coragem para fazê-lo contrata alguém que tem esta profissão, um matador de aluguel. O que é pior, nem dá para precisar.

Tomando a história da mulher chocada com o corte da árvore, e tantas outras parecidas com essa, fico tentando entender os meandros da alma humana e a capacidade que certas pessoas têm de maltratar, torturar, impingir sofrimento. Estudiosos da Psiquiatria e Psicologia Forense, analisando o modus operandi de assassinos em série, psicopatas, chegaram à conclusão de que essas pessoas são incapazes de sentir empatia, de se condoer com o sofrimento do outro e sentem prazer em causar filigranas de dor. São pessoas que não se contentam em matar, elas o fazem com requintes de crueldade.

 A Psicologia chama aos que sentem prazer em fazer sofrer de pessoas tóxicas, eu prefiro chamá-los de pessoas sem Deus. Somos humanos, falhos, marcados pelo pecado original, e sabemos que a arte da convivência nem sempre é fácil. É difícil vivermos sem magoarmos e sem sermos magoados, e a solução para isso é ser humilde para pedir perdão e ter grandeza de alma para perdoar.

Perdoar, quantas vezes?

Quando me despedi da mulher que chorava a árvore destruída, além de aconselhar que ela tivesse fé em Deus e em Nossa Senhora, eu lhe disse também para perdoar. Ela suspirou e me respondeu:

– Se o senhor soubesse quantas vezes eu já perdoei! Talvez seja por isso que ela me trata assim. Ela não me respeita, porque sabe que eu sempre perdoo. Mas, chega um dia que o coração da gente se cansa de perdoar…

Ela tem razão e Jesus sabia disso melhor que ninguém, por isso, Ele disse a São Pedro que perdoasse não sete vezes, mas setenta vezes sete vezes, porque Ele sabia que um coração que perdoa, perdoará sempre. E sabia também que a maldade é que não se cansa de fazer o mal, por isso, a palavra final é sempre a palavra do perdão.

Senti pela árvore bonita, dei meu telefone à mulher e pedi para ela me mandar uma foto da árvore. Ela mandou várias, partilho duas aqui com vocês. Senti também pela mulher, mas, pela entonação da sua voz, por sua tristeza sem revolta e pela fé em Deus que ela demonstrou possuir, eu acredito que ela se recuperará e que um dia o seu coração amanhecerá descansado e ela voltará a perdoar.

Contudo, o que realmente me dói é a situação daquela que cortou a árvore, que puxou o gatilho, que cravou a lâmina da faca no corpo de alguém. O que eu mais lamento é que o mal seja tão persistente e nos dê tantos motivos para chorar e lamentar.

Um dia, isso mudará. Nossa Senhora prepara o seu Reino, com filigranas de amor e, neste vindouro e breve Reino de Maria, Nosso Senhor Jesus Cristo irá reinar, e as árvores não serão mais objetos de vingança, as pessoas não matarão umas às outras e a Terra, finalmente, será o lugar perfeito para se viver, enquanto caminhamos para chegar ao Céu.

Por Afonso Pessoa

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