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O perigo das aparências

Deus não faz nada imperfeito na natureza, e até mesmo as contradições do tucano nos ensinam uma lição profunda sobre a humildade e o perigo das aparências.

Foto: Wikipedia

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Redação (30/08/2026 12:02, Gaudium Press) De tempos em tempos, a natureza nos presenteia com espetáculos que desafiam a nossa imaginação. O tucano é, sem dúvida, um dos pássaros mais belos e inconfundíveis que conhecemos. Com sua imponente casaca preta, os olhos marcantes e aquele bico monumental de tons vivos em vermelho, laranja e amarelo — cujas cores se repetem sutilmente perto das penas do rabo —, ele sempre foi visto com admiração. Na vida corrida da cidade grande, era um pássaro raro de se ver. Mas, desde que me mudei para esta nova vida no campo, eles passaram a frequentar o nosso horizonte e, recentemente, dois deles decidiram se hospedar no abacateiro do nosso quintal.

Estão tão à vontade no pomar que já não se limitam aos galhos. Quando um abacate cai, descem para comer no chão, encontrando no fruto graúdo o alimento ideal para o seu porte. No começo, confesso, a vontade de fotografar era grande, mas o nosso movimento de aproximação os afastava com aquele voo barulhento e pesado. Decidimos, então, fazer um pacto: guardar a sua imagem apenas em nossos olhos, combinando que ninguém pegaria a câmera para não os afugentar. Mantemos distância respeitosa e os observamos com reserva, ora no alto do abacateiro, ora caminhando pelo solo. Não demorou para que ganhassem nomes amistosos: foram batizados de Arcanjo e Miguel.

A sombra por trás do glamour

Contudo, a visão romântica que eu nutria sobre os tucanos sofreu um baque quando um vizinho nos revelou uma face insuspeita do animal. O tucano, explicou ele, tem a fama de ser um predador impiedoso: destrói ninhos alheios para devorar ovos e filhotes, tendo o hábito de atacar casinhas de joão-de-barro e abrigos de aves menores. Eu nunca imaginara que aquele pássaro de aparência tão nobre carregasse a pecha de “mau-caráter” na dinâmica da fauna.

Fiquei a matutar sobre o porquê de tal comportamento. Para o tucano, a carne fácil dos filhotes representa uma presa nutritiva e acessível para ser deglutida por aquele bico descomunal. Porque o bico do tucano, embora deslumbrante e chamando a atenção pela beleza, é também a sua maior condenação.

Esse aparato que atrai a admiração dos homens — e talvez a inveja secreta de outros animais, constituindo o seu “glamour” é, ao mesmo tempo, a sua tortura. Um bico daquele tamanho torna a alimentação cotidiana um tormento: se a fruta for pequena demais, ele tem imensa dificuldade para segurá-la; se o alimento estiver em um recanto estreito, falta-lhe precisão. Pensei sobre quanta fome não passa um tucano! Certamente a Providência Divina dotou a espécie de resistência orgânica para compensar tal fardo, mas a verdade é que o seu maior ornamento é também o seu maior obstáculo.

A solidão dos notáveis

Olhando para Arcanjo e Miguel, comecei a pensar em quanta gente caminha por este mundo vestida de “tucano”. São pessoas dotadas de grandes qualidades, talentos vistosos ou personalidades marcantes que chamam a atenção de longe — um verdadeiro “bico colorido” social. No entanto, essa mesma evidência avantajada acaba por dificultar as suas ações mais simples, atrapalhando o manuseio das belezas miúdas da vida e o acesso ao alimento espiritual do dia a dia.

Mais do que isso: o tucano é um pássaro visivelmente solitário. Enquanto várias outras espécies de aves andam em bandos, compartilham o espaço e se harmonizam no terreiro, o tucano está sempre à margem, isolado, cercado por sua própria grandiosidade chamativa que afasta os outros animais. Por sorte, os nossos vizinhos Arcanjo e Miguel encontraram, pelo menos, a companhia um do outro.

Lições do pomar

Quantas vezes nós mesmos nos envaidecemos daquilo que nos expõe, buscando o aplauso fácil, a visibilidade excessiva e o destaque que nos afasta do conviver simples com os nossos semelhantes? Tornamo-nos alvos fáceis, exibidos em demasia, incapazes de desfrutar do que realmente nutre a alma.

Deus não faz nada imperfeito na natureza, e até mesmo as contradições do tucano nos ensinam uma lição profunda sobre a humildade e o perigo das aparências. Olhando para o alto daquele abacateiro, percebo que a verdadeira felicidade não reside em carregar grandes troféus visíveis, mas em saber encontrar, na simplicidade e na companhia dos que nos compreendem, o verdadeiro sustento para a caminhada, um sustento que começa em Deus e a Ele nos dirige.

Por Afonso Pessoa

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