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O nariz de Rembrandt e Voltaire com sua língua de diabo

Os narizes também têm coisas a dizer. E o nariz que se tornou protagonista deste quadro nos ensina algumas verdades a respeito de muitas mentiras.

Foto: Wikipedia

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Redação (21/06/2026 15:47, Gaudium Press) O quadro que você tem diante dos olhos é obra do célebre artista Rembrandt van Rijn. E o personagem que ele eternizou nessa tela é o celebérrimo artista Rembrandt van Rijn.

Caro leitor, você está diante de um autorretrato. Um autorretrato que quase diríamos ser um alto-relevo, pois o pintor conseguiu imprimir profundidade e relevo nessa tela plana.

Mas a elevação que mais salta aos olhos – que quase nos assalta os olhos – é esse nariz que parece sair da moldura.

O nariz de Rembrandt

Não sabemos que considerações tecia Rembrandt em torno de seu apêndice nasal. A única informação confirmada que temos a respeito é que ele certamente o considerava colossal; algo como uma nova torre de Babel, ou como a trombeta do apocalipse.

Aliás, se nos aventurarmos a estudar os demais autorretratos deste homem – que formam uma respeitável pinacoteca –, encontraremos este nariz em todas as suas fases de formação geológica com um eterno particular: ele é sempre enorme.

Os críticos de arte, com bastante senso de realismo, costumam honrar esta península facial de Rembrandt com os versos dirigidos ao melodramático nariz de Cirano de Bergerac:

“Cavalheiro: Isto é gancho ao derradeiro gosto?

Pendurai-lhe um chapéu, que ficará bem posto!

Empolado: Que vento, exceto algum pampeiro,

Poderá, ó nariz, te constipar inteiro?”[1]

Convenhamos, porém, que, cabide ou não, este nariz é fruto do talento artístico de Rembrandt. A técnica que ele usa não é de todo inusitada – veremos mais à frente que é empregada até demais em nossos dias –, mas o ponto é que talvez nenhum outro pintor a tenha posto em prática tão eloquentemente.

Esta é a técnica denominada de empastamento. O artista, desejando ressaltar algum objeto e dar-lhe volume ou luminosidade, cria na tela uma espessa camada de tintas. Ele então lança uma nova demão por cima de uma crosta de tinta seca e, ainda uma vez cobre a zona com outro estrato e, depois, mais um e um mais.

Repetindo e repetindo, o pincelista constrói essa sacada que o leitor está vendo no quadro e faz com que o nariz de Rembrandt pareça sair da moldura.

Enfim, dissemos algures que esta prática da pintura continua em vigor na nossa sociedade. A questão é que ela se esconde agora em outras partes que não nos retratos e autorretratos.

Voltaire: devemos mentir como o diabo

Esta estratégia do empastamento volta sempre à carga com cada repetição.

A repetição… talvez não haja algo tão furiosamente poderoso como a repetição.

Repito: nada há de tão altivo, de tão impositivo, de tão efetivo como a repetição.

Se considerarmos nossa mente como uma tela, cada repetição é nova pincelada sobre outras camadas de tinta seca; cada repetição aumenta em algo a muralha de uma convicção, de um medo ou de um preconceito.

Por isso é que neste artigo estamos abusando da repetição: para que o leitor sinta o potencial confrangedor desse método. O próprio Napoleão repetia que a melhor arma da retórica é a repetição.

Porque uma repetição jamais se repete. A segunda martelada empurra o prego um pouco mais para o fundo. Uma má ação praticada dez vezes é um vício. A reincidência de sílabas chama-se gaguejar. A novidade reiterada torna-se tradição. O boato republicado entra para a História como verdade.

E aqui chegamos a um ponto importante. É possível vestir a mentira de “veracidade”, colocando, recolocando e voltando a recolocar sobre ela os andrajos da repetição.

A falsidade cresce assim, se fortifica e, dentro em pouco, está pronta para duelar com a realidade.

Este era o método de Voltaire, segundo o descreveu a seus comparsas:

“Deve-se mentir como o diabo, não timidamente, não por um tempo, mas ousadamente e sempre. […] Menti, meus amigos, menti; um dia eu vos recompensarei”.[2]

Mentindo e mentindo, alguma coisa fica.

E a partir desta alguma coisa, se faz a tempestade.

Pois bem, esta arma enche muitos e variados arsenais. E o mais estranho é que a maioria deles se volta contra a Igreja.

Provo-o com alguns refrões que, de tão repetidos, talvez já enjoem o leitor.

Alguns narizes que se tornaram torres

Insistiu-se ontem, repete-se hoje e reincidir-se-á amanhã no tema das Cruzadas. Não vamos entrar no mérito da questão. Restringimo-nos apenas a recordar que a lenga-lenga dirigida contra esse século e meio de Cruzada nunca fala do milênio e meio de Jihad…

Outro caso. Deblatera-se com afinco contra a Inquisição espanhola que teria executado muitos milhares de pessoas – no máximo uns 4000 condenados, dos mais de 10.000 casos julgados em vinte anos[3] –, mas esquece-se de uma Revolução Francesa que levou 600.000 franceses à morte em cinco anos;[4] e também não se lembra que o comunismo matou no mundo mais de 94.000.000 de pessoas.[5]

Menciono ainda um outro “nariz de Rembrandt”. Escandalizam-se com a pedofilia de certos eclesiásticos, pretensamente numerosos. Jamais se menciona que a arrasadora maioria dos crimes nessa matéria é praticado pelos próprios parentes da criança e pessoas próximas. O envolvimento de membros de clero é de uma porcentagem irrisória. Mas quem repete este porém?

Passo agora a um fato fresco – ainda não secou a quinquagésima quarta camada de tinta nessa “península nasal”. É o caso Kamloops no Canadá. A mídia bombardeou milímetro a milímetro a mente canadense, e o país acreditou que uma escola católica abrigava restos de 215 crianças indígenas em fossas comuns. Insultaram a Igreja, caluniaram os cristãos, exigiram vingança. Por fim, decidiram procurar as benditas fossas comuns e – surpresa! – nada foi encontrado. Tudo acabou, por fim, ao cabo de uns bons anos, com umas desculpas incolores por parte de alguns setores da imprensa.[6] Já reparar a boa-fama da eterna caluniada, da Igreja, não pareceu necessário… Seria bem-educado, decente, honrado. Mas não exijamos tanta coisa gentil da mídia.

E assim, durante milênios, muitos Voltaires construíram, mentindo e repetindo com suas línguas de diabo, incontáveis torres contra a Igreja; sobre elas colocaram toda a sua artilharia e descarregaram contra a Esposa Mística de Cristo.

Despencaram as torres, apodreceram as línguas e, invicta, a Igreja prosseguiu, pisando-as, o seu caminho multimilenar.

Por Calisto Soares


[1] ROSTAND, Edmond. Cirano de Bergerac. Trad. Carlos Porto Carreiro. 7.ed. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti, [s.d.], p.56: “Cavalier: ‘Quoi, l’ami, ce croc est à la mode? / Pour pendre son chapeau, c’est vraiment très commode!’ / Emphatique: ‘Aucun vent ne peut, nez magistral, / T’enrhumer tout entier, excepté le mistral!’”

[2] Carta de Voltaire a Thiriot, de 21 de outubro de 1736. Texto original: “Le mensonge n’est un vice que quand il fait mal. C’est une très grande vertu quand il fait du bien. Soyez donc plus vertueux que jamais. Il faut mentir comme un diable, non pas timidement, non pas pour un temps, mais hardiment et toujours. (…) Mentez, mes amis, mentez, je vous le rendrai un jour”.

[3] Cf. LLORCA, Bernardino. La Inquisición em España. 3.ed. Barcelona: Labor, 1954, p.80-86.

[4] Cf. LAGNIAU, Jean. Combien de morts? In: Historia, n.409 bis, 1981, p.121.

[5] Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Revolução e Contra-Revolução. 9. ed. São Paulo: Arautos do Evangelho, 2024, p.250.

[6] Cf. Cuidado com as afirmações de certos meios de comunicação contra a Igreja | Gaudium Press

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