O fundamento do amor ao próximo
Se o amor natural é capaz de renunciar à própria vida, o que dizer daquele que decorre do próprio Deus?

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Redação (24/10/2026 15:21, Gaudium Press) A resposta dada por Jesus à pergunta capciosa do fariseu, narrada no Evangelho deste 30º Domingo do Tempo Comum, resume toda a doutrina contida na Lei e nos profetas em apenas dois mandamentos: o amor a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.
A fonte de todo bem
Entre esses dois amores, que na realidade são um só, há uma relação de mútua sustentação. Com efeito, se é verdade que apenas ama realmente a Deus — a quem não vemos — aquele que é capaz de amar o irmão a quem vê,[1] também é verdadeiro que o amor autêntico ao próximo é aquele que provém do amor a Deus, que é a fonte e a plenitude de todo o bem.
Por essa razão, o amor ao próximo só atinge o seu ápice quando está fundamentado no amor a Deus, de modo a se tornar capaz de suportar sofrimentos duríssimos, superando os limites da mera natureza humana.
Os extremos do amor natural
Conta-se que, há pouco tempo, numa grande metrópole, vários veículos estavam parados diante de um semáforo vermelho. Qual não foi a surpresa de todos ao verem um homem encapuzado dirigir-se a um dos carros, bater no vidro do motorista ostentando uma pistola. A senhora que se encontrava ao volante não abaixou o vidro nem abriu a porta do carro, apesar dos gritos e das agitadas insistências do assaltante. Por fim, o bandido conseguiu abrir a porta, puxou a mulher violentamente para fora e deu partida no automóvel. A mulher, porém, lançou-se na frente do veículo, obrigando o ladrão a atropelá-la caso avançasse. É evidente que todos os circunstantes, assistindo à cena mais ou menos escondidos, se perguntavam acerca da sanidade mental da vítima… Furioso, indignado e inseguro, o bandido desistiu do roubo, saiu do carro e berrou no ouvido da senhora — sua louca! —, fugindo em seguida. Após recompor suas vestes, diante da turba curiosa que se aproximava, a mulher dirigiu-se à porta de trás, inclinou-se e tirou do assento de bebê o seu pequenino filho recém-nascido, beijando-o na fronte e arrancando aplausos e lágrimas dos circunstantes.
Se o amor natural de uma mãe por seu filho a dispõe a renunciar à própria vida, o que dizer do amor ao próximo que decorre da fonte do amor, que é o próprio Deus?
A duração do amor ao próximo
Por incrível que pareça, é mais fácil manifestar o amor correndo risco de vida, ainda que em um único lance, do que manifestá-lo ao longo de uma existência pervadida pelas vicissitudes normais da vida. Quantos são os casais desgastados por um convívio sem caridade? Quão difícil é suportar um defeito de alguém com quem terei de conviver por muito tempo? Quão fácil é despejar uma enxurrada de palavras ácidas, em vez de me conter e ter paciência?
É na lida diária que se manifesta qual é o fundamento do nosso amor aos outros: Deus ou nós mesmos.
O amor fundamentado em si próprio, ou seja, no deleite pessoal que alguém me proporciona, dura enquanto perdura a fruição desse deleite. Já o amor alicerçado em Deus durará enquanto permanecer unido ao próprio Deus.
Essa qualidade de amor é de ordem sobrenatural e está tão acima das potências humanas que só é possível mediante o auxílio da graça divina. Assim, o perfeito amor ao próximo resulta da atuação do poder de Deus em nós.
Peçamos, pois, ao Sagrado Coração de Jesus que nos conceda imitar o seu exemplo de amor. Ele que, antes de se fazer vítima pelos pecadores – carregando sobre os ombros o peso de nossos crimes e sofrendo em sua carne o preço de nosso resgate – sempre foi uma fornalha ardente de amor ao Pai.
Por Rodrigo Siqueira
[1] Cf. 1Jo 4,20.





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