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O dom da Fé e o capricho humano

A Eucaristia é algo tão maravilhoso, original e inimaginável que, se não tivesse sido revelada e instituída pelo próprio Jesus Cristo, se diria que pertence a um mundo de sonhos  e de fábulas.

Redação (30/10/2020 13:00, Gaudium Press) Com razão se chama a Eucaristia de “Mistério da Fé”. Ela propicia uma oportunidade esplêndida de praticar a Fé com mérito, já que, neste sacramento, os sentidos naturais nos dão uma notícia precisamente oposta ao que se trata: só pão e vinho, “frutos da terra e do trabalho do homem”, como reza a oração da apresentação dos dons no ofertório da Missa.

Um hino eucarístico composto por Santo Tomás de Aquino nos instrui sobre isso: “Visus, tactus, gustus in te fállitur, Sed audítu solo tuto créditur. Credo, quidquid dixit Dei Fílius: Nil hoc verbo Veritátis vérius”; “A visão, o tato e o paladar não te alcançam, eu acredito firmemente pelo que ouvi. Creio pelo que disse o Filho de Deus: nada é mais certo do que esta Palavra de Verdade”.

Não teria sido melhor que Nosso Senhor se manifestasse sem véus?

Alguém poderia perguntar se não teria sido melhor que Nosso Senhor se manifestasse sem véus, ao invés de se esconder na modalidade eucarística: não seria mais atraente e mais fecundo em benefícios se se apresentasse tal qual é? Porque, entre ver um pequeno disco branco de pão como é a hóstia, e poder contemplá-lo em toda a sua beleza e majestade, a segunda opção parece muito melhor!

Mas o que à primeira vista parece uma observação razoável, não é mais do que um sofisma decorrente de um imenso equívoco e de uma falta de cultura religiosa. Em primeiro lugar, porque se Deus fez as coisas da maneira que fez -e, em concreto, se instituiu a Eucaristia da maneira que conhecemos- deve ter sido o melhor, pois Ele é divinamente sábio e providente.

Por que Jesus se ‘esconde’ na Eucaristia?

Então, como explicar que Ele se “esconda”, que se dissimule tanto neste mistério? Há três razões brilhantes pelas quais será proveitoso meditar:

1) Agora estamos temporariamente em uma terra de exílio e, pela misericórdia de Deus, o veremos definitivamente face a face no Céu. Neste tempo de prova, devemos merecer a recompensa. “Tomé, acreditastes porque vistes. Felizes aqueles que crêem sem ter visto” (Jo 20,29). É preciso acreditar sem ver na terra, para merecer ver na eternidade. Haveria grande mérito em aceitar Sua presença real se o víssemos como o viu o apóstolo no Cenáculo?

2) Outra razão pela qual Ele se oculta no Sacramento sob as espécies de pão e vinho é porque Ele está ali como alimento espiritual. Poderíamos recebê-lo como alimento se Jesus se oferecesse da mesma forma corporal com que o puderam ver seus conterrâneos há dois mil anos? A partir dessa aparência, seria fisicamente impossível comungar. Ao invés disso, pode-se comer seu corpo e beber seu sangue a partir da hóstia e do vinho consagrados. Ao assumir a forma exterior de pão, vemos quão verdadeira é a sentença divina: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; Quem comer este pão viverá para sempre. E o pão que darei é a minha carne pela vida do mundo” (Jo 6,51).

3) Por fim, a Divina Presença não se faz evidente aos nossos sentidos corporais tal como ela é, porque jamais poderíamos ver Deus como Ele é sem morrer. Na Bíblia está enunciada esta verdade grandiosa e terrível. Deus disse a Moisés: “Mas a minha face não a podes ver, porque ninguém pode vê-la e permanecer vivo” (Ex 33, 20). E na Transfiguração no Monte Tabor, o Senhor ainda não havia sido glorificado, e, ainda assim sua revelação foi limitada e fugaz. Também, nas aparições que o Senhor se dignou fazer a certos santos -por exemplo, a São Francisco de Assis no século XIII ou a Santa Faustina Kowalska no século XX- Ele mostrou apenas um pálido reflexo de seu esplendor. Neste exílio, o homem não pode desfrutar da plena bem-aventurança. Outra coisa será quando os corpos ressuscitarem purificados e gloriosos: aí sim o veremos “tal como é” (1Jo 3, 2).

Assim, se vê como Deus tem disposto as coisas da melhor maneira para o nosso bem: Para que possamos reviver e tornar meritória nossa Fé, para que possamos alimentar a vida da alma com o Pão do Céu, e isso, respeitando nossa débil condição mortal que caminhe em direção à bem-aventurança sem fim.

Realizar atos de Fé na Eucaristia

É altamente aconselhável fazer atos de Fé na Eucaristia em qualquer lugar ou circunstância em que se esteja, já que sempre se pode voltar a atenção à esse adorável mistério e dizer -como foi ensinado aos pastorinhos de Fátima pelo Anjo de Portugal- “Meu Deus, eu creio, adoro, espero e te amo, e peço perdão por aqueles que não creem, não adoram, não esperam e não te amam”, uma oração admirável onde se entrelaçam a Fé, o amor, a súplica e a reparação.

A Eucaristia é algo tão maravilhoso, original e inimaginável que, se não tivesse sido revelada e instituída pelo próprio Jesus Cristo, se não fosse proposta como um dogma de Fé pela Igreja, e se sua veracidade não fosse demonstrada de tantas maneiras ao longo dos dois mil anos de vida cristã, se diria que pertence a um mundo de sonhos e de fábulas. Mas a verdade é que a realidade como se dá, é melhor do que qualquer ficção imaginada ou imaginável. Em todo caso, é muito mais interessante do que a triste incredulidade que padecem os que se dizem ateus, e a mesquinhez dos católicos que a ignoram ou subestimam.

Os ateus verdadeiros e sinceros não existem

Um parêntese. Os ateus verdadeiros e sinceros não existem. Esses supostos incrédulos muitas vezes idolatram algum “deus” fabricado sob medida, se não se adoram a si mesmos, “carregam seu ídolo de madeira e rezam a um deus que não pode salvar” (Is. 45, 20). Quanto ao “ateísmo prático” -vamos chamá-lo assim- de certos católicos, é uma contradição muito cômoda que vem -como nos ditos ateus- da carência de massa cinzenta… Toda a criação proclama ter um Divino Artífice!

Muitos fiéis enfrentam com dificuldade a privação da Comunhão Eucarística. As iniciativas para uma solução são raras, então, como solucionar privação da Eucaristia e ao mesmo tempo respeitar as regras relacionadas ao confinamento?

Os hospitais estão repletos e as igrejas fechadas ou vazias

Para concluir, uma palavra sobre a atual pandemia e sua parafernália de máscaras, confinamentos, toques de recolher, vacinas e essas informações e contra-informações tão preocupantes. Os hospitais estão repletos e as igrejas fechadas ou vazias, quando não, profanadas, queimadas.

O mundo persiste em não querer ver que a oração, a penitência e a adoração também são uma garantia de bem-estar temporal. Jesus não disse: “Buscai o reino de Deus e a sua justiça e tudo o mais lhe será dado por acréscimo”? (Mt 6, 33). Ao remédio sobrenatural e infalível, se prefere o que vem da China ou da Rússia.

Por Por Padre Rafael Ibarguren EP – Assistente Eclesiástico das Obras Eucarísticas da Igreja

Traduzido por Emílio Portugal Coutinho

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