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O Céu é dos que confiam!

Quando as tentações parecem não ter fim, as tribulações da vida ameaçam destruir-nos e nossas orações aparentemente não são ouvidas por Deus, é a hora da confiança na Providência.

Redação (31/07/2020 09:55, Gaudium Press) Singrando o embravecido Mar de Tiberíades coalhado de ondas encapeladas, os discípulos de Jesus lutavam por chegar a Cafarnaum em meio às brumas da noite. Experimentados pescadores, bons conhecedores daquelas águas, afanavam-se em realizar as manobras necessárias para não soçobrar na procela e arribar quanto antes a porto seguro. Subitamente, algo os deixa aterrados: o Divino Mestre lhes vem ao encontro, na escuridão, caminhando sobre as águas!

No início, entre gritos de pânico, acreditavam estar vendo um fantasma, mas logo perceberam ser o mesmo Jesus quem lhes fala: “Tranquilizai-vos, sou Eu. Não tenhais medo” (Mt 14, 27). Os Apóstolos já haviam sido testemunhas de muitos milagres, mas a visão daquela figura majestosa e serena avançando no meio da borrasca realçava ainda mais o divino poder d’Aquele que os chamara.

E Pedro começou a afundar…

São Pedro, sempre fogoso, suplicou permissão para ir ao encontro do Divino Mestre. Ele aquiesceu e o Príncipe dos Apóstolos começou a caminhar com desembaraço sobre as ondas violentas. Acreditava firmemente no poder do Mestre. Contudo, em determinado momento, olhou para si mesmo e para o mar… O temor natural venceu a confiança no sobrenatural. Pedro começou a afundar.

Gritou então com força pedindo que Jesus o salvasse. Talvez viesse à sua memória um dos Salmos aprendidos pelos judeus da época quando crianças: “Salvai-me, ó Deus, porque as águas me vão submergir” (Sl 68, 2). O Criador do mar aproximou-Se dele, estendeu-lhe a mão salvadora e lhe fez uma divina recriminação: “Homem de pouca fé, por que duvidaste?” (Mt 14, 31).

Quando ambos subiram na barca, o vento impetuoso cessou e o mar se acalmou. Tudo voltou à sua perfeita ordem. Aquelas poucas testemunhas de tão grandioso espetáculo e do absoluto poder de Nosso Senhor sobre as forças da natureza prostraram-se diante de Jesus e proclamaram sua filiação divina: “Tu és verdadeiramente o Filho de Deus” (Mt 14, 33).

Essa é também nossa própria história

O episódio acontecido com o Príncipe dos Apóstolos repete-se, de certo modo, na vida de cada um de nós. Sabemos, como Pedro, que Jesus Cristo é Deus, esperamos sua intervenção na História e rezamos, pedindo seu auxílio. Mas, como Pedro, muitas vezes também duvidamos… Falta-nos a virtude da confiança.

Por meio dessa virtude, o homem adquire a certeza de que Deus e sua Mãe Santíssima hão de ajudá-lo a vencer todas as dificuldades que encontre no seu caminho. Conduzido pela luz da razão e pela luz da fé, e levado a esperar contra todas as aparências e diante dos obstáculos mais impossíveis de vencer, não se perturba nem duvida. Pelo contrário, “nas circunstâncias mais terríveis se mantém calmo e em ordem, porque sabe que Nossa Senhora virá em seu socorro”.

Às vezes Deus parece nos ter abandonado

Certo gênero de pessoas esforça-se por atingir a virtude. Elas rezam muito, confessam-se com frequência, fazem bons propósitos, mas recaem nas faltas e tendem também a desanimar.

A consideração da nossa fraqueza deve, sem dúvida, ajudar-nos a praticar a virtude da humildade, mas permitir que ela cause desânimo seria o pior dos males. “Não havia Maria Madalena levado uma vida de erro? A graça, porém, transformou-a num instante. Sem transição, de pecadora, tornou-se uma grande Santa. Ora, a ação de Deus não se reduziu em alcance. O que fez por outros, poderá fazer também por nós. Não duvideis: a oração confiante e perseverante obterá a cura completa da vossa alma”.

Às vezes, Deus dá-nos a impressão de não querer mais falar conosco. A voz de Cristo não se faz ouvir em nosso interior e, pior ainda, parece que Ele também não quer mais ouvir-nos. Sentimo-nos abandonados.

Essa terrível prova exige um dos mais extraordinários atos de confiança que alguém possa fazer. A ela estão sujeitos tanto o justo quando o pecador. Tanto num quanto noutro caso, é necessário perseverar: “Nada, pois, vos desencoraje em vossa confiança! Ainda que vos encontreis no fundo do abismo, clamai ao Céu sem cessar. Deus acabará respondendo ao vosso chamado e operará a sua justiça em vós”.

Conhecer a hora de Deus está acima da capacidade dos homens. De uma coisa, contudo, podemos estar seguros: a certa altura de nossa existência, ouviremos a “voz de Cristo, voz misteriosa da graça” a ressoar no silêncio dos nossos corações, a sussurrar “no fundo de nossas consciências palavras de doçura e de paz”.

Os Santos souberam confiar

Especialmente intensa é a prova do abandono no caso dos Santos. Justamente por serem justos, eles se reconhecem devedores da Providência e, ao lhes advir alguma tribulação, atribuem às próprias lacunas o motivo de tal abandono. E respondem, entregando-se com um amor incondicional Àquele que os fere, sem esperar retribuição.

“Desde a sua juventude, São Francisco de Sales conheceu esse tipo de prova: temia não ser um dos predestinados ao Céu. Passou vários meses nesse estado de martírio interior, quando, enfim, uma oração heroica o libertou: o Santo prostrou-se perante um altar de Maria e suplicou à Virgem que lhe ensinasse a amar o seu Filho aqui na terra com uma caridade tão ardente quanto o seu medo de não poder amá-Lo pela eternidade”.

Todos os Santos enfrentaram dificuldades que deles exigiram luta e confiança, confiança e luta. Mas, nos momentos mais trágicos de sua vida, eles souberam olhar para o alto, aguardando o momento da intervenção de Nosso Senhor, e assim venceram as tempestades e chegaram ao porto da salvação. Seu coração estava inundado da certeza de que Deus e Nossa Senhora jamais os abandonariam.

Portanto, quando, ao navegarmos nas procelosas águas deste vale de lágrimas, entrarmos num turbilhão de provações, não nos deixemos conduzir pelo vento das incertezas. Devemos permanecer tranquilos porque, no fim, tudo se resolverá. Tranquilos, mas não indiferentes. É preciso rezar e pedir para obter, seguindo o conselho de Nosso Senhor: “Pedi e recebereis; batei e ser-vos-á aberto”.

Ponhamos com confiança os olhos no Salvador e em Maria Santíssima. Eles farão com que a tempestade se acalme e a nossa nave rume segura a bom porto.

Pe. Thiago de Oliveira Geraldo, EP

Texto extraído, com adaptações, da Revista Arautos do Evangelho, abril 2018, p. 19-23

 

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