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O Céu de Teresinha

O céu só será plenamente o Céu no dia em que não houver mais o inferno na alma de quem padece. Santa Teresinha não buscou o descanso eterno, mas a permissão divina para continuar o seu trabalho na Terra, resgatando as multidões sem luz.

Foto: Wikipedia

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Redação (19/06/2026 09:41, Gaudium Press) É próprio da miopia humana imaginar o Céu como uma redoma de cristal, um condomínio de luxo espiritual onde os “bons” — devidamente selecionados por nossa régua hipócrita — passarão a eternidade em um ócio dourado. Olhamos para a Jerusalém Celeste descrita por São João, com seus portões de pérola e ruas de ouro e pedras preciosas, e enxergamos um retiro de felicidade extrema, ignorando que o Amor, quando é verdadeiro e imortal, não conhece a palavra “descanso”.

O resumo da Lei e a hipocrisia do julgamento

Quando interpelado pelos doutores da Lei sobre qual seria o maior dos mandamentos, Nosso Senhor Jesus Cristo foi cirúrgico, resumindo as Tábuas de Moisés em apenas duas direções: o amor a Deus sobre todas as coisas e o amor ao próximo como a si mesmo (Mt 22, 37-39).

Nessa síntese perfeita, encerra-se toda a arquitetura da civilização. No entanto, vivemos uma espécie de “brincadeira espiritual” perigosa, tentando adivinhar quem “vai” e quem “não vai”, pressupondo, por óbvio, a nossa própria vaga garantida.

Julgamos os desonestos e os pecadores como se desejássemos o Céu apenas para nos livrarmos do mal que eles representam, esquecidos de que o sol de Deus nasce sobre justos e injustos (Mt 5, 45).

Esquecemos, sobretudo, que não estamos aqui a passeio e que, se Cristo é o grande médico que veio pensar as feridas e curar as almas, devemos ser os enfermeiros que o auxiliam.

Ele veio à Terra também para curar os enfermos e salvar os perdidos, por isso é muito triste observar uma secreta alegria que muitas pessoas mal disfarçam ao ver um pecador contumaz, e mostrar ares de quem diz: “Esse já está no inferno, diferente de mim, que dou o dízimo, vou à Missa, rezo o terço e, por essas coisas, tenho certeza de que mereço o Céu”.

Mas, não, isso é um engano. Nenhum de nós merece o Céu, por essa razão precisamos de um Salvador e, mesmo sendo justos e bons, nenhum de nós vai ao Céu por sorte, indicação ou merecimento. Quem vai ao Céu, só vai porque Ele veio ao mundo e morreu na cruz para nos salvar.

A pequena via da inquietude

Santa Teresinha do Menino Jesus, a jovem carmelita que muitos rotulam apenas como uma santinha “frágil e delicada”, possuía uma intensidade de alma avassaladora. Ela queria ser tudo: missionária, mártir, sacerdote.

No silêncio do claustro, compreendeu que suas potencialidades não seriam desligadas na morte e rejeitou a ideia errada que se faz de “descanso eterno” proferido nos funerais.

O que a impulsionava para o Céu não era a ociosidade, mas o pensamento de poder “acender o amor de Deus em uma multidão de almas que O louvarão eternamente”. Isso é uma tremenda demonstração de amor a Deus e também às suas criaturas.

Teresinha queria dar um abraço no Pai e pedir licença para voltar ao chão do mundo, resgatando os que caminham nas trevas.

“Quero passar o meu Céu fazendo o bem na terra”, dizia ela, mostrando que compreendeu que a salvação não é privilégio de uma elite seleta, mas um desejo divino de que todos se salvem (I Tim 2, 4).

E, para isso, não devemos apenas julgar as pessoas e nos afastar delas como quem teme tocar um leproso, mas evangelizá-las e tentar movê-las a deixar o pecado e a mudar de vida, sobretudo pela oração.

Foi o próprio Deus Encarnado quem ordenou: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15).

Entre a Cruz e a eternidade

Temos a pretensão de ler o íntimo do homem, quando apenas o Criador pode ver a verdade oculta em cada criatura.

Na Sinagoga, o publicano, batendo no peito com sinceridade, saiu justificado, enquanto o fariseu que ostentava suas virtudes permaneceu preso em seu próprio orgulho (Lc 18, 9-14).

Da mesma forma, o Bom Samaritano — a escória para os “puros” da época — foi quem verdadeiramente praticou o amor ao próximo durante sua viagem.

A salvação é um mistério que pode ocorrer no último suspiro, como foi com Dimas, o Bom Ladrão. De fato, entre a Cruz e a eternidade, um arrependimento sincero e o reconhecimento da divindade de Jesus apagaram uma vida inteira de pecados. Foi assim que nasceu o primeiro santo da Igreja; enquanto houver um suspiro de vida, existe a possibilidade de salvação.

O céu de Teresinha

Portanto, devemos almejar o Céu mais do que qualquer outra coisa, ir para lá deve estar no topo da lista de nossas prioridades, mas não devemos buscar um céu de exclusividade, apenas para nos livrarmos do incômodo da convivência com os maus.

O céu começa na maneira como olhamos para aquele que nos parece sem luz. Não somos nós que decidimos quem entra na Jerusalém Celeste. Nossa missão é apenas amar, e tentar ajudar o maior número possível de almas a almejarem e – efetivamente – conseguirem ir para o Céu, não para o gozo e a festa, mas para o perpétuo louvor a Deus.

Precisamos acreditar que o Céu está aberto para todos aqueles que, até o último átimo de tempo, permitirem ser resgatados pelo Amor que nunca descansa, e para aqueles que estiverem dispostos a estender a mão para resgatar os que vagam à beira do abismo. Este é o Céu de Teresinha.

Por Afonso Pessoa 

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