O amigo abandonado
Uma vez que Jesus beneficiou tantos desconhecidos, iria Ele abandonar um amigo?

Ressurreição de Lázaro, catedral de Autun, França Foto: Sergio Hollmann
Redação (21/03/2026 18:00, Gaudium Press) A liturgia deste 5º Domingo da Quaresma apresenta o ponto culminante de uma sequência de sinais relatados por São João que ressaltam a natureza divina de Nosso Senhor.
Provando ser Deus ao retirar Lázaro da mansão dos mortos, Jesus não velou, entretanto, os aspectos mais íntimos de sua humanidade quando as preciosas lágrimas que rolaram de sua face testemunharam o afeto e o carinho que sentia pelo finado.
Mas, se o que separava Jesus de Lázaro era o percurso de apenas uma jornada,[1] o que fez com que o Salvador permanecesse ainda por dois dias onde estava, em detrimento do socorro ao amigo agonizante?
O moribundo desolado
Esta indagação poderia ser facilmente respondida pelo risco de vida que Jesus corria dentro da jurisdição do sinédrio, visto que, no final do capítulo anterior (cf. Jo 10,39), o Discípulo Amado relata a tentativa de aprisionamento de Nosso Senhor, fator que O levou a retirar-se para o outro lado do Jordão. Apesar disso, se o filho do funcionário real que morava em Cafarnaum foi curado à distância (cf. 4,46-54), o que O impedia de fazer o mesmo com Lázaro?
Não seria descabido imaginar que o enfermo, sentindo a morte se aproximar e percebendo que o Mestre não vem, fosse assaltado por algum problema de consciência: a ausência de Jesus seria o castigo de algum pecado? Teria sido infiel? Por que ele, que dera ao Mestre mostras sinceras de adesão e que tantas vezes o acolhera em sua casa, via-se agora abandonado?
Bastava uma palavra d’Ele e tudo estaria resolvido! Então, qual a razão de tal conduta? Nosso Senhor teria esquecido ou negligenciado alguém tão amado?
A exigência de uma fé inabalável
A prova do abandono causa sofrimentos terríveis. E não é raro encontrar, ao longo da História, almas com vocações singulares que beberam desta taça amarga. O que dizer, por exemplo, de uma Santa Joana d’Arc que, tendo conquistado Orléans e após repetidos triunfos, caiu nas mãos dos inimigos, tendo por algozes aqueles em quem esperava ver pastores? Não havia ninguém ao lado dela, tanto nos julgamentos quanto na execução. Somente quando as chamas tocaram seu corpo é que a sensação do abandono cessou e foi-lhe atestado, numa visão mística, que as vozes celestiais não haviam mentido.
O que se exige nestas circunstâncias é uma fé alicerçada na seguinte convicção: tudo concorre para o bem dos que amam a Deus (cf. Rm 8,28). Logo, se Deus permite um sofrimento, é porque daí tirará um benefício maior.
E aqui se encaixa a segunda leitura em que o Apóstolo, na mesma epístola, faz alusão a dois modos de viver: segundo a carne ou segundo o espírito.
Os que se encontram no primeiro caso são incapazes de elevar sua inteligência a patamares superiores, e enxergam a vida a partir de um prisma materialista.
Já os que vivem segundo o espírito veem a realidade com os olhos da fé e sabem que, por mais que não se encontrem explicações para esta ou aquela dificuldade, há por detrás uma razão mais alta que, sendo por vezes inatingível pelo homem, nem por isso é menos verdadeira.
Os frutos da prova
Deus não é um carrasco. Quando Deus permite que alguém sinta a prova do abandono, não é por um desejo sádico de torturar, mas porque Ele deseja utilizar os méritos deste sofrimento para estabelecer um novo relacionamento de graças, seja com a pessoa provada, seja com uma família de almas ou mesmo com toda a Santa Igreja.
Retomando o caso da santa francesa, o que seu holocausto terá conquistado? Mesmo depois de morta, o impulso de sua ação promoveu a expulsão dos ingleses, prevenindo a França do cisma vindouro. Mas não só! Ela deixou consignado para a posteridade que em uma alma podem coexistir a candura de uma virgem com a fortaleza de um guerreiro, afirmando, com sua vida, que a inocência e a combatividade não são contraditórias.
E o que dizer de Lázaro?
Os detalhes narrados por São João não deixam dúvida sobre o fato da morte. Já havia quatro dias que o cadáver estava sepultado e os efeitos deletérios da putrefação corroboravam o óbito. Mas a morte de Lázaro estava vinculada a um desígnio altíssimo e serviria de instrumento para a manifestação pública e irrefutável da divindade de Jesus.
O Salvador não precisava recorrer a Deus para ressuscitar a Lázaro, assim como o fez o profeta Elias com o filho da viúva de Sarepta (cf. 1Rs 17,17-24). Bastou-Lhe dizer: “Lázaro, vem para fora!” — e, no momento em que o morto saiu da caverna, estava patente que, se apenas Deus tem o pleno poder sobre a vida, aquele homem era Deus!
O Verbo Encarnado experimentou a dor do abandono
Mas, ó dor!, quem poderia imaginar que Ele próprio, o Filho Bem-Amado, sentir-se-ia abandonado pelo Pai?
Chagado, humilhado, pregado no madeiro, o Verbo Encarnado quis atravessar as agruras do abandono para assim ensinar que na hora do brado lancinante “Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?”, a única atitude correta é proclamar: “Senhor, em tuas mãos entrego o meu espírito!”
A Mãe dolorosa não era alheia às dores do Filho. E de modo algum o seria em relação às dores dos filhos. Pedimos-Lhe, então, que Ela esteja ao nosso lado durante as semanas vindouras em que acompanharemos passo a passo os lances trágicos da Paixão, nos ensinando que, por mais que as aparências digam o contrário, Deus jamais abandona aqueles que O amam!
Por Rodrigo Siqueira
[1] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos: comentários aos Evangelhos dominicais. Città del Vaticano-São Paulo: LEV-Instituto Lumen Sapientiæ, 2013, v. 1, p. 236.





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