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O 3º Domingo da Páscoa e a restituição a Deus

A descrição do Evangelho do III Domingo da Páscoa apresenta a pesca milagrosa dos Apóstolos como uma prefigura da Igreja após a ressurreição dos mortos. Da mesma maneira como manteve-se intacta a rede, assim também após o juízo final, será incólume o supremo império da paz dos justos.

Redação (30/04/2022 17:47, Gaudium Press) Jesus é o Mestre. Ele ensina de maneira insuperável, aproveitando-se dos episódios do dia a dia para elevar as almas ao amoroso conhecimento das vias escolhidas para seus eleitos. Aqueles homens estavam habituados aos ofícios e mistérios do mar, e era a partir dessa realidade que o Senhor queria conduzi-los às mais altas paragens da santidade.

No milagre anterior (cf. Lc 5,1-7), Jesus ordenara o lançamento das redes sem determinar se à esquerda ou à direita, para significar a universalidade da missão da Igreja Militante, a qual deve atingir tanto os bons quanto os maus, até o momento da separação definitiva entre o joio e o trigo.

Os peixes foram recolhidos em tal abundância que chegaram a romper as redes, rompimento este, símbolo das heresias que surgiriam no futuro. As barcas quase se afundaram, representação dos riscos tremendos pelos quais, incólume, passaria a Igreja. Estas e outras figuras nos fazem compreender a situação da Igreja durante o curso da História.

Já a pesca do Evangelho de hoje, realizada depois da Ressurreição do Senhor, foi por Ele ordenada a fim de nos mostrar o estado da Igreja Triunfante após o Juízo Final.

A pesca milagrosa

“Jesus apareceu de novo aos discípulos, à beira do mar de Tiberíades. A aparição foi assim (mostrou-se deste modo)”. (Jo 21,1)

Jesus não mais convivia com os seus, como anteriormente fizera. Por isso o versículo começa com as palavras: “Depois disto”. Já estava em corpo glorioso e, conforme nos ensina São Tomás, Jesus poderia ser ou não visto, dependendo de sua vontade.[1] Os discípulos O veriam somente se Ele Se mostrasse. Esta é a razão teológica pela qual João narra: “Mostrou-Se deste modo”.

“Simão Pedro disse a eles: ‘Eu vou pescar’ Eles disseram: ‘Também vamos contigo’. Saíram e entraram na barca, mas não pescaram nada naquela noite”. (Jo 21,3)

A noite é o período mais propício para a pesca e, certamente, hábeis e experientes nesse ofício, intuíam um bom êxito naquele empreendimento proposto por Pedro. Bastou ele comunicar seu plano que todos os outros se congregaram naquela aventura, tanto mais que deveriam estar carentes de subsídios para seu dia a dia. Pedro, sempre entusiasmado e não menos impetuoso, paulatinamente se havia constituído em propulsor dos Apóstolos.

Deu-se a partida cheia de esperança. Entretanto, com o passar das horas, a constatação da ineficácia de seus esforços fazia-lhes crescer no coração a convicção de quanto dependiam de um auxílio divino.

“Já tinha amanhecido, e Jesus estava de pé na margem. Mas os discípulos não sabiam que era Jesus. Então Jesus disse: ‘Moços, tendes alguma coisa para comer?’ Responderam: ‘Não’. Jesus disse-lhes: ‘Lançai a rede à direita da barca e achareis’. Lançaram, pois, a rede e não conseguiram puxá-la para fora, por causa da quantidade de peixes”. (Jo 21,4-6)

Jesus nunca abandona os seus, mesmo quando nos esquecemos d’Ele. A ineficácia da pesca foi substituída por um portentoso milagre.

Ora, vemos nesta circunstância que Jesus orienta que a pesca seja feita do lado direito da barca. Por quê?

O supremo império da paz

Quem nos explica é o grande Santo Agostinho:

“Essa pesca se faz depois da Ressurreição do Senhor para nos indicar qual será o estado da Igreja após a nossa ressurreição. ‘Lançai a rede à direita da barca’ (Jo 21,6) disse o Senhor. Os que estão à direita não se confundirão com os outros. Não esquecestes como o Filho do Homem nos garantiu sua vinda no meio dos Anjos; as nações comparecerão diante d’Ele, e Ele as separará como o pastor separa as ovelhas dos cabritos, as ovelhas à direita, os cabritos à esquerda, e dirá depois às ovelhas: Vinde […] tomai posse do Reino; e aos cabritos: apartai-vos de mim, malditos, ide para o fogo eterno (cf. Mt 25,31-41). ‘Lançai a rede à direita’ significa, portanto, ‘vede-me ressuscitado’. Quero dar-vos uma imagem do que vai ser a Igreja na Ressurreição dos mortos. ‘Lançai à direita’ […]. Lançaram a rede à direita e mal podiam levantá-la, tal era o seu peso!”[2]

Simbólica também, sem dúvida alguma, é a afirmação contida no fim do versículo, ou seja, apesar do grande número e do porte dos peixes, a rede não se rompeu. Quase todos os autores procuram tornar clara essa passagem de São João. Santo Agostinho é o mais feliz em interpretá-la. Explica-nos ele a diferença entre as duas pescas, no tocante à integridade da rede. Na primeira, rompeu-se. Símbolo das heresias que surgiriam ao longo dos séculos; na descrita pelo Evangelho de hoje, a rede manteve-se intacta apesar do enorme peso. Esta é uma prefigura da Igreja após a ressurreição dos mortos, na qual haverá o supremo império da paz dos justos.

Cabe a nós agirmos como os Apóstolos. Eles estavam sem alimentar-se durante toda a noite, mas, antes mesmo de qualquer providência, entregam os frutos de seus esforços a Jesus. Este deve ser sempre o nosso procedimento: temos de restituir a Deus os nossos sucessos, sem nos preocuparmos conosco, pois Ele tomará a iniciativa de completar aquilo que Ele mesmo começou. Nossa entrega e esforços a Ele devem ser totais. O sustento e a energia, no-los dará Jesus.

Extraído com adaptações de:

CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos: comentários aos Evangelhos dominicais. Città del Vaticano – São Paulo: LEV-Instituto Lumen Sapientiæ, 2012, v. 5, p. 298-309.


[1] Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. q. 85.

[2] SANTO AGOSTINHO. Sermo CCLI, n. 2. In: Obras. Madrid: BAC, 2005, v. XXIV, p. 628.

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