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Nós temos uma alma?

Todo homem tem uma alma imortal; por mais que não a vemos, devemos crer em sua existência.

Redação (21/08/2020 08:05, Gaudium Press) Há alguns dias, folheava uma revista francesa do início do século passado e encontrei um artigo que alguns “espíritos fortes” classificariam como infantil, mas que apresenta um crença muito frequente de nossos dias. Comecei então a ler:

“Antes de mais nada, provai-me que eu tenho uma alma, disse-me desdenhosamente Otávio, um jovem de dezoito anos que chegava da cidade ,utilizando abotoaduras nos punhos, botões de ouro na camisa, um colarinho engomado e um par de óculos. Ele era um excelente menino, antes de sua partida, e, depois de uma ausência de seis meses, ei-lo com tais interrogações.

– Sim, Otávio, você tem uma alma, a menos que a tenha perdido em Paris, junto com seu intelecto, porque você está raciocinando como um ser desprovido de razão.

– Mas, senhor, vós tomais a coisa como brincadeira, quanto de fato ela é séria! Eu li muito desde que parti. A medicina fez imensos progressos. Nós não temos alma!

É certo que isso é verdadeiro, pois os sábios o creem.

– Meu pobre rapaz, onde você aprendeu medicina? E onde viu tais sábios?

Como eu amava Otávio, tomei a resolução de o desiludir, o que não foi difícil.

– A alma é um espírito, disse-lhe, ou seja, um ser real, um ser que dá vida ao corpo, mas que não tem em si mesmo as propriedades da matéria.

– Mas, senhor, a alma não se vê, e é o cérebro que pensa.

– A alma, em si mesma, não se vê, é verdade. Ela se vê no pensamento que ela comunica através da linguagem. Não é o cérebro que pensa, pois o pensamento nada tem de material.

Escute e verá a diferença.

A matéria é composta de partes, localizadas uma ao lado das outras. Nos teus óculos, a lente da direita é distinta da lente da esquerda. Em um de seus pensamentos há uma direita, uma esquerda, um alto e um baixo? A ideia do sol é mais alta que a ideia de uma flor? Não. Riria de você se dissesse que uma de suas ideias tem três centímetros de espessura.

A matéria se divide, mas ninguém separa uma ideia em duas partes. A matéria tem cores e uma forma: quadrada, redonda, etc. Você viu alguma vez uma ideia vermelha, verde, redonda ou oval?

É verdade que, às vezes, você tem algumas um tanto peculiares!

– Mas, senhor, e a eletricidade, o calor? O pensamento não pode ser qualquer coisa desse gênero?

– Não. A eletricidade, o calor são movimentos, uma série de vibrações, de acordo com os físicos. Eles podem aumentar ou diminuir. Existe um calor de vinte graus, outro de 100 graus. A descarga elétrica é mais ou menos forte. São fenômenos materiais. Mas você já viu pensamentos que medem dez, vinte ou cem graus? Não os há.

Veja isso. O pensamento humano é frequentemente, sem dúvida, a representação de um objeto material. Eu tenho a ideia de um cavalo ou de uma casa. Mas eu tenho, também, a ideia de seres absolutamente imateriais, abstratos. Eu tenho a ideia da grandeza, da virtude, da sabedoria, de um espírito, de Deus. Como um mecanismo, movimentos elétricos ou materiais poderão representar esses objetos? O efeito não pode jamais ultrapassar a causa. Ninguém dá, a não ser o que tem. Essas ideias são de seres espirituais, elas não podem vir senão de um espírito.

Por isso, Otávio, você vê que tem uma alma. Assegure-se, você não está posto na categoria dos macacos”.[1]

Argumentação tão simples quanto verdadeira, despojada do cientificismo reinante em nossos dias, que seria capaz de dar uma explicação exata sobre a eletricidade e o calor, mas que não poderia provar a inexistência da alma.

O que mais causou espanto foi que, após folhear essa revista, deparei-me com algumas notícias atuais, que versavam sobre o tema do aborto, tais como a nova chapa Biden-Harris, que alguns qualificam como a mais abortista da história das eleições norte-americanas; ou casos de aborto em Recife, já denominada por outros como “capital do aborto”. Será que essas pessoas não se dão conta da existência da alma, que toda criança recebe em razão de sua concepção? Ou são elas da “categoria dos macacos”, dos “seres desprovidos de razão” que, porque não veem a alma desacreditam sua existência?

Com efeito, afirma a doutrina católica que “a alma é a parte mais nobre do homem, porque é substância espiritual dotada de inteligência e de vontade, capaz de conhecer a Deus e de O possuir eternamente. A alma humana nunca morre; a fé e a própria razão provam que ela é imortal”[2].

Cuidemos bem do dom precioso que recebemos que consiste em possuir uma alma imortal capaz de ver a Deus face a face no Céu. Mantenhamos ela limpa e brilhante, pois só os “puros é que verão a Deus” (Mt 5, 8).

Por Odair Ferreira


[1] Baseado em Causeries du dimanche, première série. Paris: Bonne Presse.

[2] Catecismo maior de São Pio X.

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