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No Consistório ou no Conclave, vestidos de púrpura

Mais do que ser belo, digno e respeitável, o manto purpúreo possui notável caráter simbólico

Redação (28/10/2020 09:07, Gaudium Press) De maneira ex abrupto, passamos a ouvir sobre novo Consistório à vista: domingo último, 25 de outubro, pouco antes de encerrar a oração do Angelus, da janela de seus aposentos, Francisco surpreendeu a muitos em anunciar: “No próximo dia 28 de novembro, na véspera do primeiro domingo do Advento, terei um Consistório para a criação de 13 novos cardeais”.

Frequentemente, ao ser veiculada tal notícia pelos diversos meio de comunicação, vemos fotos de cardeais portando seu manto escarlate, que faz recordar ocasiões de grande solenidade e importância para a Igreja, como o são um Consistório e, ainda mais, um Conclave.

Ora, por que publicamente se vestem os cardeais com a “rainha das cores”, a púrpura[1]? E ainda mais, de tal forma uniu-se ao “ser cardeal” esta nobre cor – símbolo daquilo que devem ser de fato – que frequentemente os chamamos de “purpurados”. No entanto, que traços psicológicos, artísticos e históricos se vinculam a esta “cor cardinalícia”?

As páginas do êxodo (25, 4) mencionam-na: está elencada dentre outros tecidos e metais valiosos. Desde muito souberam apreciá-la.

No Império Romano, a púrpura era considera preciosíssima – somente o imperador podia vesti-la. Nero chegou a impor, com enorme disparate, pena de morte e confisco dos bens para quem a usasse ou simplesmente a comprasse! Séculos mais tarde, já restabelecido seu uso aos dignitários senatoriais e, sobretudo, à família imperial – cujos filhos eram apelidados de “porphyrogénete”, “nascido da púrpura” –, viu-se ratificado seu consumo pelo florescente e próspero comércio de tecidos da nobilitante cor.

Embora tenha havido certo declínio em seu uso, a partir do século XI, a institucionalização da vestimenta clerical, após Trento, facultou um retorno do seu emprego, mas dessa vez aos eclesiásticos – aos cardeais –, quando dela passaram a fazer uso.

Todavia, mais do que ser belo, digno e respeitável, o manto purpúreo possui um notável caráter simbólico, apontado por São João Paulo II:

“[A própria cor púrpura de vossas vestes] não é símbolo do amor apaixonado a Cristo? Nesse vermelho rutilante não está o fogo ardente do amor à Igreja que deve igualmente alimentar em vós a disponibilidade, se necessário, até o supremo testemunho do sangue […]?”[2]

Vejamos que futuro estará reservado a cada um desses 232 purpurados que, após o próximo Consistório, comporão o Colégio Cardinalício. Qual deles estará apto a admitir o manto do “ardente amor” para, em seguida, abraçar o da “pureza ilibada” com o qual deve estar revestido todo Papa? É uma pergunta a se fazer!

Por Bonifácio Silvestre


[1] A matéria-prima usada na fabricação da púrpura – ao menos em épocas remotas – é extraída de certa glândula de espécies de moluscos marinhos encontrados na margem oriental do mar Mediterrâneo.

[2] SÃO JOÃO PAULO II. 21 de fevereiro de 2001. Homilia. Disponível em: http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/homilies/2001/documents/hf_jp-ii_hom_20010221_concistoro.html

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