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Lula e Bolsonaro: nenhum dos dois governará este país!

Ao nos avizinharmos das eleições, aceite que o seu candidato poderá ganhar ou não, arrefeça seus ânimos, não brigue com quem você precisará continuar convivendo depois. Em vez disso, vale a pena prestar toda a sua atenção nos candidatos aos cargos de deputado e senador.

Redação (19/09/2022 12:19, Gaudium Press) Assistindo a um conteúdo do meu interesse, surpreendi-me quando, em dado momento, o apresentador interrompeu a sua fala e fez uma observação completamente fora do tema abordado: a reação do Rei Charles III com a caneta que vazou tinta e sujou a sua mão. Aquela ruptura me chocou e meu primeiro pensamento foi: “Não é possível que até essa pessoa acho tão séria e respeitada vá abordar essa besteira!”

Este assunto, a meu ver, foi superexplorado por dois motivos. Primeiro: muitas pessoas adoram ler e assistir vídeos sobre temas de somenos importância, para não dizer idiotas. Segundo: a falta de notícias, afinal, a cobertura em tempo integral de um velório com mais de dez dias de duração, mesmo que de uma rainha tão simpática e querida, é algo bem tedioso.

Cumprir o protocolo

Nesse contexto, um faniquito do rei por causa de uma caneta que manchou de tinta as suas mãos reais – além das próprias mãos, inchadas – acabou virando manchete. Dá para entender a dificuldade da mídia, cuja guerra Ucrânia/Rússia não apresenta mais novidades, nenhuma enchente devastando cidades, nenhum vulcão entrando em erupção. Sem tragédias, trágica se torna a indignação do rei com a caneta vilã.

Mas, como eu estava diante da apresentação de um tema elevado, realmente me indignou que o apresentador também fosse falar da famigerada caneta. Preciso confessar que fui precipitado em meu julgamento, pois, o que ele falou e o viés em que ele colocou o episódio me fez refletir mais do que toda a palestra.

Ele recontou rapidamente o incidente que todo mundo já estava cansado de ver na mídia e perguntou: “Oras, se ele é o rei, porque não fez como primeiro ato de governo um decreto para que se deixe de usar canetas-tinteiro para assinar os documentos oficiais?” Ele poderia estar portando outro tipo de caneta ou simplesmente pedir que um serviçal lhe desse uma caneta mais moderna. Por que não o fez? Não precisava ser uma Bic, como muitos internautas aventaram, até porque a cultura inútil nos trouxe a preciosa informação de que a monarquia inglesa não pode usar canetas Bic pelo fato de estas terem sido criadas na França e haver divergências político-ideológicas entre França e Inglaterra – mas, poderia ser uma boa caneta moderna.

Em seguida, o palestrante deu a resposta: “O rei não teve esta atitude simplesmente porque ele não pode. Assinar documentos reais com canetas-tinteiro que parecem saídas de um filme de época faz parte da tradição e a tradição está acima do rei. Ou seja, o rei não manda nada, ele apenas obedece a regras e cumpre protocolos”.

Eleições

Habilmente, não se demorou nesse raciocínio e voltou ao tema do encontro. Não sei o que pensaram sobre isso as outras pessoas que estavam assistindo, mas, para mim, aquilo ecoou de maneira tal, que permaneceu durante dias entre meus pensamentos e me remeteu à disputa eleitoral de nosso país.

Estamos às vésperas de uma eleição histórica, por se tratar da tentativa de reeleição de um presidente cuja vitória na eleição passada surpreendeu a muitos, porque o seu pequeno destaque na política era algo que, alguns anos atrás, não permitiria acreditar que ele venceria uma eleição para o Planalto e se tornaria o presidente do Brasil. E também o seu opositor, que até alguns anos atrás se tornou inelegível e parecia fora do jogo político, sem condições legais de disputar uma eleição.

Polarização dos candidatos

Bem, se há uma coisa que tem o dom de nos surpreender sempre, esta coisa é a política… Estamos diante de dois candidatos que, embora pareçam tão opostos como água e óleo, possuem uma importante característica: a polarização. É certo que, na história de nossa República, nunca houve dois candidatos tão amados e tão odiados quanto Bolsonaro e Lula, e isso provoca as mais absurdas situações de divergência e conflito.

Temos visto o tipo de briga mais comum, aquela que ocorre entre pessoas que não se conhecem, apenas porque um lado ou outro ostenta uma camiseta, uma bandeira, um objeto ou alguma fala que remeta a um dos dois candidatos. Esta briga se tornou até uma briga de cor: verde amarelo contra vermelho e vice-versa, que são as cores das bandeiras e camisetas usadas pelos apoiadores de ambos.

Depois, vêm as brigas entre parlamentares, entre membros do staff dos comitês de campanha de um e outro lado, e ganham um espaço preocupante e assustador as brigas ideológicas virtuais, onde o anonimato e as tão propaladas fake news se tornam uma força avassaladora e as pessoas apresentam o que pensam, gozando de relativa impunidade, por mais absurdos que sejam os pensamentos expressos.

As agressões, não raro, nesse e em outros pleitos, acaba indo para as vias de fato e tornam-se comuns tapas, socos, cusparadas, tiros, facadas e palavras do mais baixo calão.

Infelizmente, as brigas não ficam apenas no âmbito dos políticos, internautas e desconhecidos. Amigos passam a se agredir e, o mais lamentável, familiares também, muitas vezes, os que moram sob o mesmo teto.

E não se trata daquelas discussões leves, onde um defende um candidato, outro defende outro; um tenta convencer o que pensa diferente e o que pensa diferente usa da mesma estratégia, a eleição passa e fica tudo bem. Não, nessa acirrada polarização, os opositores afirmam que quem opta por um determinado candidato não presta, o que opta pelo outro presta menos ainda. Existe uma demonização das escolhas e, pior, das pessoas. Amizades se perdem, famílias se digladiam, conhecidos se ofendem. E sempre haverá um perdedor, enfim, é uma disputa em que não existe segundo colocado, apenas um pode vencer.

Quem governa?

Mas, afinal, o que a disputa eleitoral no Brasil tem a ver com a caneta-tinteiro do rei? Seja qual for o candidato que ganhar, assim como o rei da Inglaterra, ele não poderá alterar o rito da caneta, que faz parte da tradição da realeza.

Seja Lula ou Bolsonaro, Bolsonaro ou Lula – ou outro, afinal, embora improvável que outro candidato se torne páreo nessa disputa, a menos de duas semanas do pleito, em política, tudo é possível – seja qual for o candidato que subirá a rampa do Planalto para receber a faixa presidencial, ele não mudará a cerimônia da caneta, porque a tradição está acima do rei.

Mesmo vivendo no regime presidencialista, e tendo ao seu lado a prerrogativa dos decretos, quem determina a direção dos ventos são os deputados e os senadores e, se não jogar o jogo deles, se não fizer as devidas composições e conchavos e não atender às exigências, muitas vezes espúrias, dos parlamentares, não fará nada além de um governo medíocre, porque a tradição está acima do rei e, em terras brasileiras, quem rege a orquestra está no cerne e, quem figura no cerne não é o presidente do país.

Ainda que o cargo de rei seja cercado de todas as pompas e circunstâncias e custe o que nem conseguimos supor aos cofres dos países que mantêm a monarquia, por mais especial e carismática que a Rainha Elizabeth II tenha sido e por mais que o novo rei odeie as lindas e obsoletas canetas que lhe sujam as mãos, todos sabem que se trata de uma monarquia sem mando.

Então, ao nos avizinharmos das eleições, aceite que o seu candidato poderá ganhar ou não, arrefeça seus ânimos, não brigue com quem você precisará continuar convivendo depois e não faça desafetos desnecessários. Em vez disso, vale a pena prestar toda a sua atenção nos candidatos aos cargos de deputado e senador.

Perca seu precioso tempo, pegue uma caixa de lenços – porque é de chorar – mas assista ao horário de propaganda eleitoral gratuita e escolha entre os candidatos aqueles que apresentem melhores condições de atuar no cenário da governabilidade, para que o seu candidato a presidente, ou o opositor dele, ganhe quem ganhar, possa ter condições de fazer por este país mais do que simplesmente reclamar da caneta. O rei não pode.

Por Afonso Pessoa

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