Livrai-me, Senhor, dos meus “amigos”
As relações que chamamos de “amizade” se estabelecem quase naturalmente e não podemos viver sem elas. Mas… serão todas sinceras? Comentários à liturgia deste XII Domingo do Tempo Comum.

Jó e seus “amigos” – Museu Ala Ponzone, Cremona (Itália) Foto: Francisco Lecaros
Redação (20/06/2026 14:57, Gaudium Press) Amigo: que palavra prodigalizada! Utilizamo-la para rotular parentes ou vizinhos, companheiros de trabalho, colegas de estudos ou simples conhecidos… Nas redes sociais, multiplicam-se os “amigos”, alcançando por vezes a casa dos milhares. Entretanto, reza o ditado: “amigo de todos, amigo de ninguém”…
É fato que as amizades se estabelecem naturalmente e é impossível viver sem elas: são para cada um como “a metade de sua alma”. Entre os bens terrenos não há nada que as supere. Mas… serão todas sinceras? A Liturgia de hoje oferece alguns elementos para responder a essa indagação.
Na primeira leitura, o profeta Jeremias declara encontrar-se em meio a feroz perseguição: “Eu ouvi as injúrias de tantos homens e os vi espalhando o medo em redor: ‘Denunciai-o, denunciemo-lo’”. A continuação do versículo revela, com terrível simplicidade, a identidade de tais perseguidores: “Todos os amigos observavam minhas falhas” (Jr 20, 10). Sim, os amigos… e todos eles!
Ora, São Tomás de Aquino explica que a verdadeira amizade exige benevolência desinteressada, pela qual almejamos o bem para o outro, e não um bem existente no outro – o que caracteriza o amor de concupiscência.
Assim, os falsos amigos buscam tirar de nós algum proveito. São “interesseiros”, querem usufruir de nossos bens, boa-vontade, energia, relações… Trata-se, em suma, de inimigos disfarçados.
No entanto, piores e mais sorrateiros revelam-se os que, como os da época de Jeremias, ambicionam nosso tesouro mais precioso: a vida (cf. Jr 20, 13), não só do nosso corpo, mas também da alma. “Temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno!” (Mt 10, 28), adverte o Salvador.
Os falsos amigos apresentam-se com a máscara da amabilidade; na realidade, porém, visam dissuadir o justo de suas santas convicções. Quando não conseguem atingir esse objetivo, passam a persegui-lo. Dói-nos admitir, mas essa sanha pode verificar-se entre os próprios familiares e até entre irmãos na mesma Fé, isto é, os “filhos de minha mãe”, a Santa Igreja, como lamenta o Salmo (cf. Sl 68, 9).
O verdadeiro amigo, por sua vez, põe-se ao nosso lado, como declarou Jeremias (cf. Jr 20, 11), não apenas nos momentos felizes, mas sim a todo momento. Com ele podemos contar sempre. De fato, se a amizade um dia termina, é porque sequer começou. Nesse sentido, devemos confiar na amizade de Deus, que jamais nos abandona e cuja salvação “nunca falha” (Sl 68, 14).
A amizade implica ainda reciprocidade. Contudo, na relação dos homens com Deus, há uma infinita disparidade: “Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também Eu Me declararei em favor dele diante do meu Pai que está nos Céus” (Mt 10, 32). Por isso, a amizade com o Senhor só pode ser estabelecida por um dom d’Ele mesmo, a graça.
Tendo nos amado a ponto de morrer por nós, o Redentor é o nosso amigo por excelência: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a própria vida por seus amigos” (Jo 15, 13). Sigamos seu exemplo. Onde não há verdadeiro sacrifício, não há verdadeira amizade.
Pe. Felipe Paschoal Rocha, EP
Artigo extraído da Revista Arautos do Evangelho, junho 2026.





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