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Liturgia da Assunção de Nossa Senhora: Maria nos chama à nobreza

A predileção de que Nossa Senhora foi objeto por parte de Deus transparece de maneira especial na liturgia da Solenidade da Assunção. A Realeza, o poder e a glória incomparáveis da Mãe de Deus são o corolário de sua profunda humildade e escravidão ao Senhor.

Redação (16/08/2020 10:30, Gaudium Press)  “La chose du monde qui s’harmonise le mieux avec l’humilité c’est la gloire” – Aquilo que melhor se harmoniza com a humildade é a glória –, dizia um autor francês.

Existe pessoa a quem se pode aplicar tal dito com mais propriedade do que a Maria Santíssima?

Fazendo-se escrava do Senhor, Ela mereceu “conter em seu ventre Aquele a quem os céus não puderam abarcar”, e ao terminar sua missão na Terra, foi elevada aos céus em corpo e alma: privilégio inaudito concedido àquela que é “Bendita entre todas as mulheres da Terra”.

A liturgia da Solenidade da Assunção traz à lume este aspecto imprescindível à consideração de Nossa Senhora: é Ela a Rainha gloriosa do Universo; este é o posto de indizível superioridade outorgado pelo próprio Deus à sua Filha, Esposa e Mãe. Ela é incomparavelmente nobre e distinta, como mais ninguém o foi em toda a História.

“Também Jesus Cristo foi nobre e nobres foram Maria e José, descendentes da estirpe real” – afirmou certa vez o Papa Bento XV[1]; realeza muito superior, todavia, é aquela conferida à Regina in cælum assumpta: reinar sobre tudo e todos junto de seu Divino Filho.

Na liturgia: Realeza e combatividade unidas

Temos, na primeira leitura, a descrição de uma cena grandiosa e profundamente simbólica. O trecho do Apocalipse de São João (11, 19; 12,1.3-6-10) nos descreve a aparição de grandes sinais: de um lado, a “Mulher revestida de Sol e coroada com doze estrelas”, figura comumente associada à Santa Mãe de Deus; de outro, o “grande dragão cor de fogo”. A oposição entre ambas figuras é manifesta, e nos leva a considerar um aspecto pouco comentado sobre a Rainha dos Céus.

A Igreja não hesita em chamar Maria “Virgo fortis et armata, ut acies ordinata” – “Virgem forte e armada, como um exército em ordem de batalha”.

Resplandecente, régia, coroada de glória, Maria Santíssima não reina em meio a um “mar de rosas”, mas sim num verdadeiro campo de batalha. Ela dá à luz um “Filho Homem que veio para governar as nações com cetro férreo”, e que, como nos fala São Paulo (II Leitura), “deverá reinar até que todos os seus inimigos estejam debaixo de seus pés” (Cf. I Cor 15, 25).

Festa litúrgica: Cântico da nobre humildade

A combinação dos textos sagrados nesta liturgia torna manifesta a sabedoria da Igreja. Entre eles, o Evangelho tem lugar de destaque.

O sublime cântico de Maria (Lc 1, 46-55) nos revela sua autêntica nobreza de alma.

“Porque olhou para a humildade de sua serva. Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada, porque o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor”.

Nossa Senhora foi levada aos Céus em corpo e alma, houve a maior celebração realizada no Paraíso depois dos esplendores da Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Maria Santíssima reconhece ao mesmo tempo sua pequenez e a grandeza à qual Deus A elevou; e humildemente dá graças a Ele pelo amor de que foi especial objeto.

A este respeito comenta São Beda: “Maria demonstra que em seu próprio juízo se tinha por humilde escrava de Cristo, mas, atendendo à graça celeste, neste momento se proclama elevada e glorificada, ao ponto de que sua singular bem-aventurança seria admirada pela voz de todos os povos”.[2]

Ademais, a Santíssima Virgem exalta o Senhor por ter “Dispersado os soberbos de coração, derrubado do trono os poderosos e elevado os humildes”, e por ter “cumulado de bens os famintos, e despedido os ricos de mãos vazias”.

Há quem se aproveite destes belos versículos para sustentar errôneas visualizações, eivadas de igualitarismo e espírito anti-hierárquico. Entretanto, uma análise mais profunda nos apresenta uma realidade bem diversa – a bem dizer, diametralmente oposta.

Quem são, de fato, os soberbos, poderosos e ricos a que Maria Santíssima se refere?

Nossa Senhora “Chama orgulhosos aos demônios malignos que caíram junto com seu líder por sua revolta”, afirma São Cirilo de Alexandria [3]. Acrescenta ainda outro autor: “[Maria] mostra o nada do mundo, a fim de ressaltar o quanto ele e o demônio, com aparência de grande poder, fazem promessas muito diferentes das divinas.”[4]

Devemos, portanto, recolher também este ensinamento da presente liturgia: os materialistas, vaidosos e mundanos – ricos de si mesmos, mas pobres de Deus – serão dispersados e despedidos de mãos vazias em determinado momento; enquanto que os autênticos pobres em espírito serão elevados à mais alta nobreza – a participação do Reino dos Céus –; pois cabe à “Majestosa Princesa Real”(Sl 44, 1) elevada hoje à glória celeste, “tirar do lixo o pobrezinho para fazê-lo assentar-se com os nobres de sua casa” (Cf. Sl 112, 7-8).

Por Afonso Costa


[1] BENTO XV. Alocução ao Patriciado e à Nobreza Romana. 1917

[2] BEDA, Homilias sobre os Evangelhos, 1, 4. CCL, p. 69

[3] CIRILO DE ALEXANDRIA, Comentário ao evangelho de S. Lucas, 1, 42. PG 72

[4] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano: LEV; São Paulo: Lumen Sapientiæ, 2013, v.VII, p.197-198.

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