Liberdade religiosa no Vietnã: uma realidade falsa sob controle estatal
Um relatório da International Christian Concern (ICC), intitulado “Freedom of Worship: A False Reality in Vietnam”, analisa a situação da liberdade religiosa e a perseguição aos cristãos no Vietnã comunista, e revela que o governo controla rigidamente as igrejas.

Foto: persecution.org
Redação (18/06/2026 09:39, Gaudium Press) O Vietnã frequentemente se apresenta ao mundo como um país que respeita a diversidade religiosa, com garantias constitucionais de liberdade de crença. No entanto, relatórios de organizações internacionais de direitos humanos revelam um quadro bem diferente: uma liberdade de culto que funciona mais como uma fachada, com forte controle governamental, vigilância constante e repressão contra aqueles que não se submetem ao sistema oficial.
De acordo com o relatório “Freedom of Worship: A False Reality in Vietnam”, publicado pela International Christian Concern (ICC) neste mês de junho, toda expressão religiosa pública é rigidamente monitorada pelo governo central. O autor Colton Grellier destaca que cristãos que resistem às exigências do regime comunista enfrentam vigilância, processos judiciais e prisão. Essa situação não é nova; ela remonta à vitória comunista em 1975, quando as autoridades passaram a perseguir especialmente as populações cristãs nos Planaltos Centrais. Esses grupos foram acusados de terem colaborado com as forças americanas durante a Guerra do Vietnã. Como resultado, terras foram confiscadas, igrejas fechadas, pastores detidos e até o uso de línguas indígenas foi restringido em contextos religiosos.
Estratégias de Controle do Partido Comunista
O relatório da ICC identifica três principais métodos usados pelo Partido Comunista do Vietnã para dominar o cenário religioso:
Substituição: Criação de organizações religiosas paralelas, aprovadas pelo Estado, para substituir grupos independentes.
Cooptação: Integração gradual de comunidades existentes ao sistema oficial, diluindo sua autonomia.
Infiltração: Inserção de agentes próximos ao regime dentro das igrejas para monitorar e influenciar atividades.
A história do cristianismo no Vietnã tem início com a Igreja Católica no século XVI. O missionário jesuíta francês Alexandre de Rhodes estabeleceu uma missão no país em 1615 e, após sua expulsão do Vietnã, fundou a Sociedade das Missões Estrangeiras e incentivou os missionários franceses a evangelizar no Sudeste Asiático. Sua influência sobre a sociedade e a região resultou em cerca de 300.000 novos membros da Igreja Católica Vietnamita nas décadas seguintes. Em 1665, ao perceber a influência que o cristianismo exercia sobre seu povo, o governante vietnamita Hien Vuong passou a controlar o número de missionários que entravam em seu país, proibindo obras cristãs e chegando até mesmo a ordenar execuções.
A Igreja Católica é uma das maiores comunidades religiosas reconhecidas que não está totalmente subordinada ao controle direto do governo. Para contornar isso, as autoridades utilizam o Comitê para a Solidariedade dos Católicos Vietnamitas, descrito como uma entidade pseudo-religiosa controlada pelo Estado, que busca influenciar paróquias e a hierarquia eclesial.
Relatórios da Comissão dos Estados Unidos sobre Liberdade Religiosa Internacional (USCIRF) reforçam essa análise, destacando que o governo vietnamita “em diferentes regiões do país teria continuado a monitorar, interrogar, deter arbitrariamente, punir e discriminar indivíduos, pelo menos em parte devido às suas crenças ou afiliações religiosas”.
Quando o controle falha, a repressão judicial entra em cena. O relatório da ICC menciona dezenas de prisioneiros religiosos ainda detidos, muitos dos quais relatam torturas e maus-tratos. As acusações costumam ser vagas, como “ameaça à unidade nacional” ou “abuso das liberdades democráticas”, previstas no Código Penal (notadamente o artigo 331).
Casos recentes continuam a surgir, com batidas policiais em vilarejos, prisões arbitrárias e pressão para que fiéis abandonem igrejas não registradas e se juntem às oficiais. Organizações como Human Rights Watch e Portas Abertas documentam abusos sistemáticos contra minorias étnicas cristãs, que enfrentam não apenas perseguição religiosa, mas também discriminação cultural e perda de terras.
O Vietnã mantém relações econômicas e diplomáticas crescentes com o Ocidente, mas sua posição em rankings globais de liberdade religiosa permanece baixa. A USCIRF recomenda repetidamente que o país seja designado como “País de Preocupação Particular” (CPC) devido a violações sistemáticas, graves e contínuas. O governo vietnamita rebate essas críticas, afirmando que ninguém é preso por motivos religiosos e que as leis combatem apenas abusos ou atividades políticas disfarçadas de fé.
Diante disso, a ICC e outras entidades apelam à comunidade internacional para aumentar a pressão diplomática, condicionar acordos comerciais a melhorias concretas na liberdade religiosa e manter o apoio a defensores de direitos humanos. Para os cristãos ao redor do mundo, o chamado é pela oração e solidariedade com uma Igreja que, apesar das ameaças constantes, continua a crescer de forma subterrânea em várias regiões do país.





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