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Leão XIV: tempo das nomeações

Certamente, as nomeações de Leão XIV revelam uma natureza e uma abordagem diferentes para lidar com os problemas em comparação ao pontificado anterior.

Foto: Vatican media/ vatican news/ facebook

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(02/03/2026 09:45, Gaudium Press) Na semana passada, circularam rumores sobre o futuro do Arcebispo Edgar Peña Parra, Sostituto (Substituto) da Secretaria de Estado, alguns deles afirmando que o “chefe de gabinete” papal de longa data se tornaria o próximo núncio do Papa na Itália.

Se confirmado, isso marcaria o início de um amplo efeito dominó nas nomeações do Vaticano, abrangendo desde a Secretaria de Estado até a Prefeitura da Casa Pontifícia — uma verdadeira reformulação da equipe de governo.

Um elemento-chave, porém, permaneceria: o Cardeal Pietro Parolin como Secretário de Estado.

Vamos por partes.

Desde a eleição de Leão XIV, corria o boato de que o Papa substituiria o Secretário de Estado. O Sostituto — uma posição poderosa dentro da Cúria Romana que exige, sem dúvida, o contato e a colaboração mais próximos com o papa no dia a dia — gerencia os assuntos e é responsável pelas respostas assinadas pelo Papa a diversas consultas.

Basicamente, tudo passa pelo Sostituto, que, aliás, é o único alto funcionário que pode se encontrar regularmente com o Papa sem agendamento prévio.

Faz sentido, portanto, que o Papa Leão XIV desejasse alguém de sua confiança e que conhecesse bem para ocupar o cargo — alguém que não fosse um remanescente do pontificado de seu predecessor imediato.

Leão, no entanto, decidiu não nomear imediatamente um sucessor para Peña Parra. Havia pelo menos dois bons motivos para isso. Primeiro, Leão XIV queria uma transferência total de responsabilidades e, por isso, precisava entender todos os dossiês e assuntos tratados pelo Sostituto antes de prosseguir com qualquer mudança.

Segundo, remover Peña Parra do cargo de Sostituto não é uma questão simples, pois a única promoção real seria o cardinalato. Por isso, também estava sendo considerado um cargo como chefe de dicastério.

Em vez disso, ganhou força a ideia de enviá-lo como núncio — ou seja, devolvê-lo ao serviço diplomático ativo. Alguns mencionaram a prestigiosa nunciatura nos Estados Unidos para ele, mas ter um embaixador venezuelano em Washington seria provavelmente complicado.

A nunciatura na Itália é prestigiosa, mas fica mais distante dos corredores do poder vaticano do que a mera geografia sugere. Peña Parra seria o terceiro não italiano consecutivo a ocupar o cargo,  depois que o Papa Francisco,  ao nomear o Arcebispo Tscherrig (mais tarde cardeal) para essa posição em 2017, quebrou a regra não escrita de longa data, segundo a qual a nunciatura na Itália deveria ter um italiano no cargo mais alto.

Se Peña Parra for nomeado núncio na Itália, o atual titular do posto, o Arcebispo Peter Rajič, estará destinado a receber uma nova missão. O novo posto seria o de Prefeito da Casa Pontifícia, como os rumores iniciais já indicavam há tempos. Leão XIV restauraria assim o papel de chefe de sua “família”, enquanto se cogita um novo cargo para o atual regente, Monsenhor Leonardo Sapienza, cujo lugar seria ocupado pelo atual vice-regente, Padre Eduard Daniang Daleng, OSA.

Há também especulações sobre uma nova missão para o Arcebispo Paul Richard Gallagher, ministro do Vaticano para as Relações com os Estados, que poderia deixar a política externa do Vaticano para assumir a chefia de um dicastério curial. Esse cargo não seria mais — como se especulava anteriormente — o de prefeito do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, o qual seria então atribuído ao Cardeal Jean-Claude Hollerich, convocado de Luxemburgo.

A mesa do substituto ficaria então vaga.

Isso abriria espaço para o Arcebispo Gabriele Caccia, atualmente observador da Santa Sé nas Nações Unidas. Caccia foi assessor na Secretaria de Estado quando Parolin era subsecretário para as Relações com os Estados, e foi ordenado bispo e nomeado núncio pela primeira vez ao lado do atual Secretário de Estado, em 2009.

O grande retorno de Caccia a Roma, porém, não é uma conclusão inevitável.

Caccia também é considerado um dos principais candidatos a se tornar núncio em Washington e, em ambos os casos, ele teria o forte apoio do Cardeal Parolin, que poderia trabalhar com um amigo em Roma ou contar com uma pessoa de confiança para gerenciar as relações com os Estados Unidos, em um momento particularmente delicado da história.

Em todos esses cenários, o Cardeal Parolin sai como o claro vencedor.

Todos pensavam que Leão XIV substituiria o Secretário de Estado, mas não só essa mudança não aconteceu como nem parece estar próxima. Em um momento em que pelo menos cinco chefes de dicastério precisarão ser substituídos por terem atingido a idade de aposentadoria — Czerny, Semeraro, Roche, Koch, Farrell (além de You, que completará 75 em novembro) —, mesmo a mudança do Secretário de Estado ou do restante da equipe criaria um vácuo de poder demasiado grande e um desafio de gestão ainda maior.

Parolin permanece, assim, como o homem da continuidade.

Se Rajič se tornar Prefeito da Casa Pontifícia, o pedido da Secretaria de Estado — que sempre preferiu um diplomata para liderar a “família” do Papa — será atendido. Vale lembrar que é a Prefeitura da Casa Pontifícia, e não o Gabinete de Protocolo da Secretaria de Estado, que gerencia as audiências oficiais que o Papa concede a chefes de Estado e de governo.

Se Caccia for substituto ou núncio, Parolin trabalharia com um homem de confiança. Se Peña Parra for de fato nomeado núncio na Itália, Parolin seria a única figura com forte influência no Palácio Apostólico, enquanto o seu substituto receberia uma transferência que nem sequer inclui uma promoção, o que soa como punição.

O Papa Francisco era frequentemente chamado de “o papa das surpresas”, mas o pontificado de Leão já demonstrou o quanto pode ser surpreendente. Por isso, talvez, para o papel de substituto, possamos também esperar que Leão XIV escolha entre as fileiras dos diplomatas do Vaticano e procure um homem de confiança fora da Secretaria de Estado, ou pelo menos fora de quaisquer noções preconcebidas.

Isso demonstraria a disposição e a habilidade do Papa de discernir entre escolhas de governo que ele pode delegar e aquelas em que as relações pessoais e a confiança precisam ter prioridade.

Certamente, as nomeações de Leão XIV revelam uma natureza e uma abordagem diferentes para lidar com os problemas em comparação ao pontificado anterior. Enquanto Francisco gostava de dividir, criar assimetrias no governo e embaralhar as cartas, Leão XIV prefere unir, manter a coesão e contar com quem conhece o terreno ou os procedimentos.

As preferências de Leão a esse respeito também são demonstradas pelas nomeações, na semana passada, de quatro novos auxiliares da diocese de Roma, todos os sacerdotes romanos — uma escolha que vai contra a tendência estabelecida pelo Papa Francisco, que designava bispos diocesanos de fora.

Isso também é demonstrado pela escolha do Arcebispo Filippo Iannone como prefeito do Dicastério para os Bispos, e de seus secretários pessoais, ambos jovens e sem experiência na Cúria.

Se essa é a linha geral do Papa, então podemos esperar algumas surpresas em posições-chave. A mudança geracional provavelmente será lenta, mas também pode levar a um novo perfil na governança da Igreja.

Quando isso acontecer, deixaremos de buscar continuidade e descontinuidade com o pontificado anterior. Será simplesmente o pontificado de Leão XIV.

Artigo de Andrea Gagliarducci, publicado originalmente em inglês em Monday Vatican, 02-03-2026. Tradução Gaudium Press.

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