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Leão XIV, o desafio da tradição

Leão XIV apoia manifestações em que se sente a presença de Deus, independentemente dos debates sobre sua legitimidade.

Foto: Vatican News/ Vatican Media

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(04/05/2026 10:26, Gaudium Press) O grande objetivo do pontificado de Leão XIV é restaurar a unidade na Igreja. A tarefa, porém, é particularmente árdua. Ou seja, é algo mais fácil de falar do que de fazer.

Os comentários do pontífice aos jornalistas durante o voo de volta da África para Roma ilustram bem o ponto.

Leão XIV respondeu a uma pergunta sobre a decisão do Cardeal Reinhard Marx de abençoar formalmente casais do mesmo sexo. Sua resposta provocou reações diversas tanto na Alemanha quanto em todo o mundo, entretanto, a declaração mais reveladora veio do principal líder da hierarquia alemã.

O Arcebispo Georg Bätzing, de Limburg, que está encerrando seu mandato como presidente da Conferência Episcopal Alemã, afirmou simplesmente que continuará com essa prática pastoral, pois não acredita que ela cause desunião na Igreja.

Pode ser um último disparo de quem está de saída e pouco se importa, ou pode ser Bätzing praticamente desafiando o Papa a impedi-lo.

Veremos.

Há outro desafio à unidade no horizonte, este vindo do mundo tradicionalista.

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) está se preparando para realizar suas primeiras ordenações episcopais desde 1988. As ordenações seriam válidas, mas ilícitas, por não terem um mandato pontifício. Quem consagra um bispo sem permissão papal incorre em excomunhão latae sententiae, ou seja, automaticamente, pelo simples fato de ter realizado o ato.

Foi o que aconteceu com o Arcebispo Marcel Lefebvre e os bispos que ele ordenou em 1988, quando um decreto formal de excomunhão foi redigido e publicado.

Agora, corre o rumor de que um documento semelhante já foi preparado caso a Fraternidade decida seguir adiante com as consagrações planejadas.

Na verdade, esse tipo de decreto é padrão, por isso, não é certo que o modelo não estivesse pronto há algum tempo, independentemente de como tenham transcorrido as discussões dentro da FSSPX.

A Fraternidade, por sua vez, acredita que a excomunhão nem sequer se aplicaria a eles. Eles argumentam que o direito canônico não permite impor a pena — a excomunhão — quando o ato que a provocaria é praticado em resposta a um perigo grave percebido para a Igreja, ou quando a pessoa acredita estar agindo de boa-fé.

Isso é tecnicamente correto, mas foi exatamente o mesmo raciocínio usado por Lefebvre em 1988, quando um decreto papal se tornou um fato consumado contra o qual não houve apelação possível.

Nas últimas semanas, a FSSPX também publicou uma longa entrevista com seu superior, o Pe. Davide Pagliarani, que reafirmou o senso de urgência da Fraternidade e a necessidade de ordenar novos bispos para garantir sua sobrevivência.

Na verdade, a FSSPX nem demonstra um desejo genuíno de dialogar com a Santa Sé. Mesmo em comunicações anteriores, ficou claro que muitas das decisões ou orientações da Santa Sé são consideradas por eles como beirando a heresia e, portanto, não há diálogo possível sobre esse tema.

Em síntese, Leão XIV se vê preso entre dois fogos, ambos particularmente obstinados.

De um lado, aqueles que querem que a doutrina evolua a ponto de se adaptar à sociedade, porque, caso contrário — e essa é uma frase que se repete com frequência —, a Igreja deixará de ser relevante. Por outro lado, aqueles que acreditam que a Igreja já avançou demais, a ponto de considerar inadequado tudo o que emana da Santa Sé, especialmente no campo doutrinal.

A pergunta que fica é simples: de que lado está Leão XIV?

As ações do Papa sugerem, pelo menos, uma linha clara em algum lugar, mas não a linha em si — não uma traçada pela mera vontade do Papa — e certamente não uma que ele pretenda impor pela força.

Leão XIV apoia manifestações em que se sente a presença de Deus, independentemente dos debates sobre sua legitimidade.

No ano passado, por exemplo, causou surpresa o fato de Leão XIV ter enviado supostamente uma mensagem de saudação à tradicional peregrinação de Paris a Chartres, que reúne milhares de pessoas, em sua maioria jovens, ligados ao rito tradicional. Chegou a ser dito que o Papa estava rezando pela peregrinação, e que foram lidos trechos de uma carta enviada aos católicos da França. Depois, o núncio apostólico na Inglaterra, Arcebispo Miguel Maury Buendía, anunciou que Leão XIV havia pedido que fossem concedidas exceções para celebrar segundo o rito antigo sempre que solicitado.

Em suma, Leão XIV estendeu a mão ao mundo tradicional, tentando superar a atitude de claro fechamento que marcou o final do pontificado de Francisco.

Essa atitude também afetou congregações religiosas consideradas tradicionalistas, como os Arautos do Evangelho, uma organização nascida no Brasil e que posteriormente se espalhou pelo mundo. Por anos, os Arautos do Evangelho foram impedidos de ordenar novos sacerdotes. Foram colocados sob administração especial — cujo comissário é o Cardeal Raymundo Damasceno Assis —, com base em acusações que nunca foram completamente comprovadas, e todos os processos civis terminaram a favor deles.

Após muitos anos de impasse, porém, nos dias 11 e 12 de abril, os Arautos do Evangelho finalmente puderam ordenar 26 novos sacerdotes, numa celebração emocionante que também representou um retorno da esperança.

Os Arautos foram apenas um exemplo de grupos considerados excessivamente tradicionais que foram alvo durante o pontificado de Francisco. Em alguns casos, tratava-se de grupos muito pequenos que, por isso, não ganharam tanta visibilidade. Em outros, houve uma verdadeira tempestade, como no caso do Sodalitium Christianae Vitae — que o então Arcebispo Prevost conhecia bem —, onde acusações de abuso contra o fundador levaram não a uma reforma (como ocorreu em casos semelhantes, como o dos Legionários de Cristo), mas à supressão efetiva da ordem.

É preciso dizer que o pontificado de Francisco também foi influenciado por uma espécie de “guerra civil latino-americana” surgida nos anos pós-Concílio Vaticano II, na qual as tensões entre a Teologia da Libertação e os movimentos mais tradicionais se tornaram quase insustentáveis.

Leão XIV não foi marcado por essas tensões, embora as tenha vivenciado como sacerdote missionário e bispo no Peru. Por esta razão, cabe a Leão XIV encontrar um equilíbrio difícil entre as exigências daqueles que desejavam uma Igreja mais presente e dinâmica nas questões sociais e a necessidade de evangelizar, atrair novas vocações e promover o crescimento da Igreja.

Este é o grande desafio que o Papa enfrenta ao lidar com a questão tradicionalista.

Os tradicionalistas sabem disso e espalham a narrativa de uma Santa Sé que não está disposta a ouvir e com a qual não se deve chegar a nenhum acordo. Com efeito, segundo a FSSPX, Leão XIV deveria deixá-los agir à sua maneira, sem ameaçar com excomunhão.

A excomunhão, porém, é necessária para que o Papa demonstre sua autoridade dentro da Igreja, e é por isso que existe a excomunhão latae sententiae, ou seja, pelo simples fato de ter cometido o ato.

Enquanto isso, a ideia de que o Papa deve aceitar tudo em nome de um princípio vago de misericórdia é um argumento que não se sustenta, embora tenha sido promovido diversas vezes desde o Concílio Vaticano II.

É certo que o tema voltará a surgir repetidamente ao longo do pontificado de Leão XIV. Com o tempo, ficará claro se o desejo do Papa é apenas absorver a crise ou realmente enfrentá-la, removendo os obstáculos que geram divisão e raciocinando, neste caso também, em função da unidade da Igreja.

Artigo de Andrea Gagliarducci, publicado originalmente em inglês em Monday Vatican, 04-05-2026. Tradução Gaudium Press.

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