Leão XIV: Como será a sua comunicação?
A nomeação de Montse Alvarado como prefeita do Dicastério para as Comunicações do Vaticano revela muito sobre a intenção de Leão XIV de administrar a Cúria Romana e sua compreensão das funções desta.
A nomeação de Montse Alvarado como prefeita do Dicastério para a Comunicação do Vaticano é uma escolha que explica muito sobre como Leão XIV pretende gerir a Cúria Romana e sua visão sobre os seus órgãos.
Ela também oferece um vislumbre de uma possível reforma adicional da Cúria Romana.
Até agora, Leão XIV tem feito nomeações bastante institucionais para a Cúria, escolhendo perfis com pouca exposição midiática, mas funcionais e trabalhadores, todos provenientes, aliás, do meio conservador.
É certo que a pequena reforma sobre a suspensão de superiores religiosos em dioceses pareceu fortalecer o poder da única mulher prefeita, a Irmã Simona Brambilla. No entanto, a manutenção de uma mulher no cargo de prefeita, juntamente com a Irmã Raffaella Petrini como presidente do Governatorato do Estado da Cidade do Vaticano, parecia uma exceção dentro de uma Cúria Romana firmemente controlada por homens.
A nomeação de Montse Alvarado, portanto, parece romper o padrão, ou pelo menos o padrão ao qual nos acostumamos sob Leão XIV. E, no entanto, trata-se de uma nomeação surpreendente apenas até certo ponto.
Envolto em um pragmatismo tipicamente americano, Leão XIV aparentemente vê o departamento de comunicação do Vaticano não tanto como um órgão da Cúria, mas como uma espécie de “relações com a mídia”, uma interface entre o Papa e o mundo. Ele se reuniu apenas uma vez com o prefeito que está saindo, Paolo Ruffini, mas sem desenvolver com ele uma verdadeira estratégia de comunicação.
No lugar de Ruffini, Leão XIV nomeou uma figura proeminente no cenário da mídia católica americana, até então Chief Operating Officer (diretora de operações) da EWTN News, o canal de notícias da emissora de televisão fundada por Madre Angélica, que, durante o pontificado do Papa Francisco, foi considerada pelo próprio pontífice como uma “obra do diabo”.
O principal, porém, foi simples: o Papa trouxe para o Vaticano uma gestora experiente e, ao mesmo tempo, estendeu a mão ao mundo conservador americano, com todos os seus doadores, valendo-se de uma experiência crucial para tentar fazer funcionar a máquina de comunicação do Vaticano.
O perfil não é o de uma jornalista, mas o de uma gestora que passou três anos à frente da maior empresa de mídia católica do mundo e que, portanto, não traz apenas experiência específica, mas também traz para o pontificado o peso de milhões de fiéis que se conectam diariamente na EWTN.
Trata-se de uma jogada de mestre de Leão XIV, que demonstra ver a comunicação do Vaticano como um ativo e não tem a intenção de transformá-la em um passivo, com tudo o que isso implica. E, provavelmente, uma reforma adicional do dicastério de comunicação já está sendo considerada, pelo menos no que diz respeito à distribuição de funções.
Ao tentar consolidar tudo, o Dicastério para a Comunicação acabou gerindo um monstro que abrange todos os meios de comunicação do Vaticano, a editora, mas também a Sala de Imprensa da Santa Sé, a Editora Vaticana, bem como a Gráfica e o Serviço Fotográfico.
Isso faz do Dicastério para a Comunicação o órgão com o maior orçamento da Cúria Romana.
Em uma possível reorganização, a gráfica, a Editora Vaticana e o Serviço Fotográfico seriam incluídos no orçamento do Governatorato, sob a rubrica de “serviços comerciais”.
O Dicastério para a Comunicação retomaria seu papel pastoral, e a gestão da mídia poderia ser conduzida de forma mais administrativa, com autonomia que também permitiria doações específicas.
A Sala de Imprensa da Santa Sé também poderá ter em breve um novo diretor, e nesse momento ficará claro se o Papa deseja colocar a Sala de Imprensa diretamente sob a Secretaria de Estado, com melhor coordenação das comunicações, ou manter a reforma da comunicações tal como está.
Esses são os grandes desafios que Alvarado terá de enfrentar, herdando uma organização que sofre de uma burocratização repentina e, em alguns casos, imposta.
A comunicação do Vaticano, na verdade, sempre funcionou não em virtude de sua organização, mas pela coordenação entre os homens que chefiavam os diversos dicastérios (às vezes combinando múltiplas funções, como o Pe. Federico Lombardi, que foi ao mesmo tempo diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, da Rádio Vaticano e do Centro Televisivo Vaticano) e por um sistema de informação não burocrático, mas bem estruturado e fiel à instituição.
Leão XIV demonstra, entretanto, que atribui a cada dicastério um peso específico diferente. De fato, a reforma da Cúria ainda precisa ser aprimorada, e quem sabe se a abordagem de Leão XIV se tornará norma para outros dicastérios que não necessariamente exigem um arcebispo ou cardeal à frente, uma vez que não precisam estar em colegialidade com o Papa.
Essa decisão do Papa demonstra, no entanto, que é muito difícil definir situações dentro do Vaticano polarizando opiniões. Até agora, a EWTN vinha sendo retratada como o canal anti-Papa devido a alguns comentários críticos sobre o pontificado de Francisco, em meio a uma programação majoritariamente dedicada à devoção, notícias do mundo católico e à vida católica.
No entanto, a qualidade das reportagens de suas agências, bem como suas transmissões de TV e o trabalho de suas afiliadas, sempre manteve um equilíbrio saudável e rigorosos padrões jornalísticos, que Alvarado apoiou e promoveu durante seu tempo como COO (diretora operacional) da EWTN.
Hoje, esse equilíbrio é amplamente reconhecido por setores da “esquerda católica” que – reconhecem uma honestidade intelectual apesar da diversidade de pontos de vista – não hesitaram no passado em atacar a EWTN por certas posições, às vezes simplesmente não aceitando as críticas.
O autor desta coluna deve admitir, porém, que existe um certo viés nesta comunicação, tendo sido colaborador da EWTN por 13 anos, pôde se expressar livremente sobre todos os temas, sem poupar visões críticas, e também sem censura.
A mudança de narrativa foi favorecida por Leão XIV, ele próprio um Papa que se mostrou alérgico à polarização, enquanto um dos patrocinadores de Alvarado teria sido o Cardeal Michael Czerny, que, aliás, confiou à EWTN a produção do vídeo promocional da encíclica Magnifica Humanitas. E Czerny certamente não pode ser visto como um defensor do mundo anti-Papa Francisco.
No mínimo, Leão XIV demonstrou com essa decisão que o tempo da polarização na Igreja acabou.
Dessa forma, também o Papa está trabalhando pela unidade da Igreja. Enquanto as reportagens se concentram na necessidade de tornar a comunicação do Vaticano eficaz — às vezes subestimando o número de profissionais que trabalham na mídia vaticana —, a nomeação de Alvarado diz muito mais.
Ela diz que o tempo dos conflitos ideológicos acabou, que o Papa deseja uma comunicação eficaz e talvez reforme ainda mais a Cúria para separar relações públicas, comércio e governo, e que até mesmo a Cúria Romana agora deve ser compreendida de uma nova maneira.
Artigo de Andrea Gagliarducci, publicado originalmente em inglês em Monday Vatican, 08-06-2026. Tradução Gaudium Press.





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