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Homem de grande erudição

Mais importante do que sermos ricos, inteligentes, famosos, é possuirmos uma Fé ardente, puríssima e luminosa, sempre unidos à Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

Redação (16/11/2020 09:00, Gaudium Press) Alexandria, situada no Norte do Egito, era no século III uma das maiores cidades do mundo, onde havia intenso intercâmbio de pessoas da Europa, Ásia e África, devido, sobretudo, à proximidade dos Mares Mediterrâneo e Vermelho pelos quais se viajava muito.

Capital intelectual do Cristianismo

Ali havia o célebre Farol de Alexandria, de aproximadamente 130 metros de altura, considerado uma das sete maravilhas do mundo antigo. Nesse Farol, 72 sábios judeus – seis de cada uma das doze tribos – tinham elaborado a tradução da Bíblia do hebraico para o grego, conhecida como Versão dos Setenta ou Septuaginta.

Mais do que Atenas e Roma, Alexandria era, então, a capital intelectual do Cristianismo. Por volta do ano 200, nela existia uma Escola dirigida por São Clemente de Alexandria, e um dos mais destacados de seus alunos foi Orígenes.

Nascido numa família católica, em 185, tinha ele 17 anos de idade quando, devido à perseguição promovida pelo Imperador Septímio Severo contra os cristãos, a Escola de Alexandria foi fechada. O pai de Orígenes, São Leônidas, sofreu o martírio e todos os bens de sua família foram confiscados.

A fim de sustentar a mãe e seis irmãos menores, Orígenes abriu uma escola de Gramática; uma mulher muito rica, mas que fora influenciada pela gnose, ajudou-o para o sustento de sua família.

Depois de algum tempo, ele viajou para o Oriente onde dois bispos pediram-lhe que fizesse pregações nas igrejas. Alcançou bastante sucesso e, certo dia, a mãe do Imperador Alexandre Severo, Júlia Mameia, que se encontrava em Antioquia, chamou-o para conversar com ela sobre questões religiosas.

Deposto do sacerdócio e condenado ao exílio

A pedido do Patriarca de Alexandria, ele voltou a essa cidade para dar aulas de Catequese. Dedicou-se, então, ao estudo da Sagrada Escritura, visando, sobretudo, refutar as objeções apresentadas por escritores pagãos.

Certa ocasião, um homem bastante rico de Alexandria, mas herege, converteu-se ao Catolicismo, depois de assistir várias exposições de Orígenes. Percebendo a grande capacidade intelectual deste – entre outras coisas, ele sabia de cor a Bíblia –, esse homem colocou à sua disposição sete taquígrafos, bem como diversos copistas e calígrafos. Orígenes ditou comentários a quase todos os livros da Sagrada Escritura.

Transcorridos doze anos, Orígenes empreendeu uma viagem à Grécia. Ao passar por Jerusalém, dois bispos seus amigos ordenaram-no sacerdote; tinha 40 anos de idade.

São Clemente de Alexandria, Patriarca dessa cidade, protestou contra essa ordenação, efetuada sem que ele fosse consultado. E convocou um concílio que depôs Orígenes do sacerdócio e o condenou ao exílio.

Ele, então, mudou-se para Cesareia da Palestina, cujo bispo lhe deu total apoio, e aí passou os 20 últimos anos de sua vida. Fundou uma escola catequética, que adquiriu prestígio, e recebeu a insigne graça de ter como discípulo São Gregório Taumaturgo. Dedicou-se também a pregações junto ao povo, e continuou a escrever sobre temas religiosos.

Graves erros

Orígenes é autor de grande quantidade de obras, muitas das quais se perderam. Houve inúmeras discussões a respeito de seus escritos e, segundo o “Dicionário de Teologia Católica” [1] , ele defendeu graves erros, entre os quais destacamos os seguintes:

“Os simples fiéis se contentam com a Fé. Somente os perfeitos são capazes de subir até à gnose. Se os simples têm assegurada sua salvação, eles estão longe da perfeição à qual visam os gnósticos. Essa divisão dos crentes em duas classes é capital no ensinamento de Orígenes.”

Segundo ele, “os perfeitos são admitidos a contemplar verdades superiores; se não se pode pregar aos carnais – os fiéis simples – senão Jesus Cristo crucificado, àqueles que são apaixonados pela sabedoria divina ensina-se o Verbo Encarnado”.

Orígenes “foi acusado de, em sua explicação sobre a Trindade, afirmar: o Filho está subordinado ao Pai, e o Espírito Santo ao Filho, de maneira a estabelecer entre as Três Pessoas uma hierarquia. Essa censura a Orígenes, por esses erros, foi feita por Santo Epifânio, São Jerônimo, Imperador Justiniano e, em nossos dias [ano 1932], por numerosos historiadores”.

“Todos os espíritos foram criados iguais por Deus, pois repugna à ideia que devemos fazer de sua justiça pensar que o Criador fez criaturas umas melhores que outras.”

Afirmou Nosso Senhor Jesus Cristo que, no Juízo Final, Deus “dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘Afastai-vos de Mim, malditos! Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e os seus anjos’” (Mt 25, 41). Segundo Orígenes, o fogo do Inferno era “puramente espiritual”, e a palavra “eterno” empregada pelo Redentor significa “uma longa duração […] e os próprios sofrimentos do Inferno são destinados a ter fim”.

Pronunciamentos de santos e de um Concílio

Durante a perseguição contra os cristãos movida pelo Imperador Décio, Orígenes foi preso, torturado e, no ano 253, morreu em consequência dos ferimentos, na cidade de Tiro, no atual Líbano.

Santo Epifânio (320-403), Bispo de Salamina, ilha do Mar Egeu, escreveu importante obra na qual refuta diversas heresias bem como os erros de Orígenes. A memória de Santo Epifânio é celebrada em 12 de maio. A respeito dele afirma o Martirológio romano: “destacou-se por sua vasta erudição e por seu conhecimento das ciências sagradas, e foi admirável também por sua santidade de vida, sua zelosa defesa da fé católica, sua generosidade para com os pobres e por seu poder taumatúrgico”.

Orígenes foi condenado pelo Papa Santo Anastácio I (399-401). O II Concílio de Constantinopla, em 553, anatematizou nove proposições de Orígenes, o que provocou o desaparecimento de boa parte de sua imensa obra [2].

O Imperador Justiniano, que reinou de 527 a 565, escreveu uma longa carta ao Patriarca de Constantinopla, na qual expõe os principais erros de Orígenes e refuta-os.

Peçamos a Nossa Senhora a graça de nos compenetrarmos de que muitíssimo mais importante do que sermos ricos, inteligentes, famosos, é possuirmos uma Fé ardente, puríssima e luminosa, sempre unidos à Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

Por Paulo Francisco Martos

[1] DICTIONNAIRE DE THÉOLOGIE CATHOLIQUE. Paris: Letouzey et ané. 1932, v. 11-II, colunas 1514. 1515, 1523, 1531, 1547.

[2] Cf. FRANGIOTTI, Roque. In Contra Celso, de Orígenes. São Paulo: Paulus, 2004, p. 9-17. Cf.DARRAS, Joseph Epiphane. Histoire Génerale de l’Église. Paris : Louis Vivès. 1889, v. VIII, p.10-109.

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