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Glória de fogo na História da Igreja

 “Este homem foi duplamente feliz pela elevação de seu pensamento e pela espécie de deificação, resultante de seu convívio com a augusta Trindade”.

“Este homem foi duplamente feliz pela elevação de seu pensamento e pela espécie de deificação, resultante de seu convívio com a augusta Trindade”.

Redação (05/03/2021, 16:39, Gaudium Press) Estando Santo Atanásio exilado em Tréveris, localidade da atual Alemanha, o ímpio Ário dirigiu-se para Alexandria a fim de conquistar essa importante cidade para sua heresia. Mas o povo verdadeiramente católico não permitiu que o heresiarca ali ingressasse.

“Senhor, feri Ário com o peso de vossa cólera!”

Os arianos planejaram, então, a entrada solene de Ário em Constantinopla, a nova capital oriental do Império Romano.

Dirigiram-se ao Patriarca de Constantinopla, Santo Alexandre, e pediram-lhe que acolhesse na principal igreja da cidade um pobre padre chamado Ário, o qual, segundo os hereges, estava sendo injustamente perseguido. Santo Alexandre, já nonagenário, rejeitou tal proposta, pois sabia quem era esse “pobre padre”.

Mas o Imperador Constantino ordenou a Santo Alexandre que recebesse Ário, pois do contrário seria exilado. E marcou o domingo seguinte para a entrada solene do heresiarca em Constantinopla.

“Constantino, o Grande, que libertou a Igreja, foi enredado pelas intrigas dos arianos. Aliás, a vida post-conversão de Constantino é um tanto discutida.”

Então, Santo Alexandre recomendou aos autênticos católicos que rezassem muito e fizessem jejum, pedindo a Deus que não permitisse tal infâmia.

Na noite anterior ao domingo determinado para a recepção de Ário, Santo Alexandre dirigiu-se à igreja e permaneceu em oração; prosternado diante do sacrário do altar-mor, ele implorou: “Senhor, feri Ário com o peso de vossa cólera!”

Na manhã seguinte, o heresiarca percorria a cidade em solene cortejo, rodeado pela turba de seus simpatizantes. Chegando à praça onde se localizava a igreja, ele sentiu um tremor e retirou-se para um compartimento de um balneário público situado nas proximidades. Como demorasse, entraram no local e o viram estirado no chão, banhado em sangue e com as entranhas espalhadas. A oração de Santo Alexandre fora atendida!

Refúgio em mosteiros das proximidades de Alexandria

Isso ocorreu em 336. No ano seguinte, morria Constantino que havia repartido o Império entre seus três filhos: Constantino II, Constante I e Constâncio II.

Contrário ao arianismo e defensor de Santo Atanásio, Constantino II, em 340, invadiu a Itália e morreu numa emboscada armada por soldados sob às ordens de seu irmão, Constante I. Tinha apenas 24 anos de idade. O Império ficou dividido entre Constante I (Ocidente) e Constâncio II (Oriente).

Constâncio II era ariano. Com seu apoio, os hereges, ajudados por forças militares imperiais, levaram para Alexandria um bispo ariano, com o objetivo de que ele tomasse posse da diocese.

Invadiram a igreja principal, mataram diversos sacerdotes e religiosos, roubaram vasos sagrados de valor, espezinharam objetos de culto. Todos os que se declaravam fieis a Santo Atanásio foram jogados nas prisões.

Por especial ajuda da Divina Providência, Santo Atanásio conseguiu escapar e refugiou-se em mosteiros das proximidades. Transcorrido algum tempo, ele voltou para Alexandria, onde o povo o acolheu triunfalmente. Todos os bispos do Egito e de regiões próximas foram recebê-lo. As ruas estavam engalanadas com tapeçarias, as pessoas agitavam guirlandas de flores à sua passagem.

Dentro de um pequeno barco no Rio Nilo

Tendo morrido Constâncio II, em 361, sucedeu-o Juliano o Apóstata que, não só rejeitou a verdadeira Fé, mas quis restaurar o paganismo no Império. Fazia sacrifícios humanos para invocar os “espíritos”, encheu o Palácio Imperial de Constantinopla com estátuas de ídolos pagãos e praticou outras abominações. Odiava a Igreja e apoiava os arianos.

Sabendo que Santo Atanásio era a alma da resistência católica contra o arianismo, Juliano ordenou que ele fosse expulso de Alexandria.

Soldados invadiram a basílica da cidade, mas o Santo patriarca, com o auxílio de alguns valorosos católicos, revestiu-se com um traje popular, tomou um pequeno barco e começou a navegar pelo Rio Nilo.

Sendo perseguido por uma embarcação mais veloz, manobrada pelos hereges, Santo Atanásio percebeu que logo o alcançariam. Então, numa curva, ordenou que seu barco fizesse um giro de 180 graus e se movimentasse em sentido oposto. Ao defrontar-se com seus perseguidores, que não o conheciam pessoalmente, estes perguntaram-lhe se tinha visto o Bispo Atanásio. O Santo respondeu: “Ele não está longe daqui.”  Assim, conseguiu regressar a Alexandria e ali permaneceu escondido até a morte de Juliano, no ano de 363.

Em 367, sendo Imperador do Ocidente Valentiniano I, o Prefeito de Alexandria mandou invadir a basílica dessa cidade – quantas invasões ela sofreu! –, e Santo Atanásio refugiou-se no túmulo de seu pai onde permaneceu durante quatro meses.

Convívio com a Santíssima Trindade

Esse grande herói da Fé faleceu em 373. Sua morte foi um luto universal para os católicos. Num eloquente discurso em sua honra, pronunciado num auditório repleto, São Gregório de Nazianzo (329-389) – Patriarca de Constantinopla e Doutor da Igreja – declarou:

“Este homem foi duplamente feliz pela elevação de seu pensamento e pela espécie de deificação, resultante de seu convívio com a augusta Trindade. […] Nele pareciam se personificar Enoc, Noé, Abraão, Isaac, Jacó, Moisés, Aarão, Josué, Samuel, Davi, Elias, Eliseu. […]

“As virgens encontravam nele um modelo de virgindade; os esposos, o mais sábio dos diretores; os anacoretas, um patriarca da solidão; os cenobitas, um legislador; os simples, um guia; os sábios, um doutor; os coléricos, um freio; os infelizes, um consolador; os de cabelos brancos, um bastão da velhice; os jovens, um pedagogo; os pobres, um esmoler; os ricos, um distribuidor; as viúvas, um apoio; os órfãos, um pai; os estrangeiros, um hospedeiro; os doentes, um médico. Enfim, ele se fizera tudo para todos.

“Atanásio foi verdadeiramente uma trombeta da Fé, num tempo em que a verdade era oprimida em todas as partes.”

Comenta Dr. Plinio Corrêa de Oliveira:

“Santo Atanásio pode ser chamado a coluna da Igreja. Uma coluna qualquer um terremoto derruba. Porém, nada derrubou Santo Atanásio! Ele tinha a graça divina que o ajudou. A muitos Deus oferece a graça, mas nem todos correspondem. A este grande Doutor da Igreja, pelo contrário, Deus a ofereceu e ele correspondeu generosamente. O nome dele ficou com uma espécie de glória de fogo na História da Igreja.”

Por Paulo Francisco Martos

(in “Noções de História da Igreja” – 42)

 

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1- CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santo Atanásio, gigante contra o arianismo. In revista Dr. Plinio, São Paulo. Ano XVI, n. 182 (maio 2013), p. 29.

2- DARRAS, Joseph Epiphane. Histoire Génerale de l’Église. Paris: Louis Vivès. 1876, v. IX, p. 333.

3- DARRAS. Op. cit., 1891, v. X, p. 296-297.

4- CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Glória de fogo na História da Igreja. In revista Dr. Plinio, São Paulo. Ano XXIII, n. 266 (maio 2020), p. 2.

 

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