“Funeral católico não é meramente um ato social”, afirma bispo
Preservar o significado sobrenatural e a sobriedade no rito. O novo documento diocesano – Exéquias Eclesiásticas. Vademecum de Disposições Legais, Pastorais e Práticas – alerta para o risco de mundanizar a morte e banalizá-la.

Foto: Ben Kupke/ Unsplash
Redação (24/08/2026 09:59, Gaudium Press) Em 15 de agosto, Dom Antonio Suetta, bispo de Ventimiglia-San Remo (Itália), publicou o documento As exéquias eclesiásticas. Vade-mécum jurídico-pastoral e disposições. O texto é claro, direto e necessário: a igreja não é sala de recepção, nem cenário solene de homenagem civil, muito menos teatro mundano dos últimos adeus. Os funerais católicos têm três finalidades principais: rezar pela alma do falecido, honrar o corpo destinado à ressurreição e oferecer aos vivos a consolação da esperança cristã.
A celebração não existe, em primeiro lugar, para contar a biografia de alguém ou organizar um tributo. São “ações sagradas”, ordenadas especialmente à oração de sufrágio. Dom Suetta recoloca no centro o que a cultura contemporânea frequentemente prefere contornar: as realidades últimas do ser humano — morte, juízo, inferno e paraíso. Daí as orientações práticas: elogios fúnebres longos e testemunhos pessoais não são permitidos durante a Missa, quaisquer breves palavras de lembrança da fé devem ser combinadas previamente e proferidas no final da celebração ou no cemitério; a música precisa respeitar o caráter sagrado do lugar e da liturgia; decorações e iniciativas particulares não podem transformar o santuário em espaço dedicado apenas à memória do falecido.
Quando o funeral vira espetáculo
O alerta italiano encontra eco em várias partes do mundo, inclusive no Brasil. Em funerais de celebridades, é comum observar um cerimonial paralelo: câmeras, fotógrafos no adro, óculos escuros, rostos fechados, passos lentos e abraços estudados. Há quem entre na igreja como se estivesse em um evento social. Em algumas ocasiões, as pessoas aplaudem o falecido, os depoimentos ou a saída do caixão — como se a liturgia devesse seguir os códigos do espetáculo. O aplauso celebra o que os homens viram de uma vida; a oração, por sua vez, entrega essa vida nas mãos de Deus.
Exemplos não faltam. Os funerais de artistas atraem multidão de fãs, dezenas de celebridades, músicas mundanas e forte cobertura mediática. Em igrejas históricas do Rio de Janeiro ou de São Paulo, é possível ver filas de curiosos, posts imediatos nas redes sociais e, em alguns casos, comportamento inadequado. Padres e agentes de pastoral relatam, com frequência, a necessidade de lembrar o básico: estamos em uma igreja, não em uma sala de concertos ou em um estúdio de televisão.
Outro fenômeno recorrente é a tentativa de personalizar excessivamente a celebração: músicas mundanas, vídeos longos, depoimentos que se estendem por minutos e transformam a Missa em “show de testemunhos”. Dom Suetta insiste que essas formas de memória cabem melhor em outros espaços — homenagens civis ou encontros familiares. Na igreja, o protagonista não é a celebridade que se vai; é Cristo, a oração da Igreja e a misericórdia de Deus.
Cremação e cinzas
O vade-mécum italiano também trata da cremação, permitida pela Igreja desde 1963 (e confirmada no Código de Direito Canônico), desde que não seja escolhida por motivos contrários à fé cristã. Ainda assim, a preferência continua sendo enterrar o corpo. É proibida a dispersão das cinzas, sua conservação em casa de forma permanente ou a transformação em joias, objetos comemorativos ou diamantes. Muitas famílias, porém, desconhecem as orientações da Igreja e acabam adotando práticas incompatíveis com a doutrina católica.
Quando a Igreja diz “não”
Pouco antes da publicação do documento, Dom Suetta recusou as exéquias eclesiásticas a Mario Tarducci, ex-grão-mestre da Grande Oriente d’Italia. O bispo lembrou que a filiação à maçonaria permanece incompatível com a fé católica e que, nas condições previstas pelo direito canônico, os funerais religiosos podem ser negados. Não se trata de inovação, mas de fidelidade à doutrina. Há situações semelhantes — embora menos publicizadas —quando há evidência clara de rejeição pública da fé sem sinais de arrependimento ou de escolhas objetivamente contrárias aos ensinamentos da Igreja.
Diante de um caixão, o primeiro papel pertence a Deus, à oração da Igreja pela alma do falecido — mesmo quando os fotógrafos aguardam no átrio e as redes sociais esperam o próximo post. A igreja não é um palco com um crucifixo, nem um estúdio de gravação, nem um salão de eventos. É o lugar onde a comunidade cristã confia o irmão ou a irmã à misericórdia divina e renova a própria esperança na ressurreição.
O texto de Dom Antonio Suetta simplesmente lembra o óbvio: nos funerais católicos, o falecido não é uma estrela que recebe aplausos pela última vez, mas sim um momento onde a Igreja faz uma oração de sufrágio pela alma dos falecidos e um consolo de esperança para os vivos.





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