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Francisco de Zurbarán: o pintor da Contrarreforma

O estilo de artistas como Zurbarán secundaram, no campo das artes, o espírito da Contrarreforma e do Concílio de Trento.

Redação (14/10/2021 11:35, Gaudium Press) No fim da Idade Média, a civilização ocidental presenciou uma das maiores revoluções do pensamento e cultura que já houve: o movimento humanista.

Qualquer mente lúcida é capaz de comprovar o quanto o humanismo foi a raiz de enormes progressos na arte, não obstante o aparecimento de sérios exageros. Bastaria citar a propagação de monumentos realmente incríveis, espetáculos de pedra, tanto por seu grandioso aparato quanto por seu paganismo mal disfarçado, ou mesmo a publicação e divulgação de livros de orações com ilustrações e hinos mitológicos…[1] O Concílio Tridentino (1545-1563) viria pôr fim a estas e tantas outras questões polêmicas v daqueles tempos.

Secundando as exigências da Igreja

Paralelamente às decisões canônicas e doutrinárias que partiram da Igreja, era imprescindível empreender, no parâmetro das artes, o que reclamava veementemente o espírito conciliar.

Uma das figuras que se empreenderam nesta tarefa — talvez inadvertidamente — foi Francisco de Zurbarán, espanhol nascido em 1598, que ainda teve tempo de conhecer o que fora o invencível império de sua nação.

Não dispomos, infelizmente, de dados suficientes acerca deste grande gênio da arte sacra; mas é sabido que penetrou no mundo da pintura e da arte em Sevilha, onde realizou suas primeiras obras.

Aparentemente, seu pincel não diferia muito do de Velásquez, pintor espanhol realmente célebre. Seus motivos, entretanto, eram profundamente diversos. Nas palavras de um autor moderno, Zurbarán foi o máximo expoente da arte sacra de seu tempo, distinguindo-se principalmente por um grande senso religioso, que desembocou num genuíno refinamento do barroco e da espiritualidade cristã.[2]

Sua obra não deixa de surpreender até hoje os versados em pintura; utilizando-se de cores extremamente vivas aliadas à sombrias e eloquentes penumbras, conferiu perfeição e piedade aos mais variados temas da religião, notadamente na iconografia hagiográfica, como pode-se observar em telas como A Virgem Menina[3] e Santa Marina[4], prodígios de expressão e profundidade de espírito; em obras como São Bruno[5] ou A Apoteose de São Tomás de Aquino[6] transparece um acentuado sentido religioso, pouco comum à mente e apreciação modernas.

De fato, muito do que a arte neopagã introduzira na arte eclesiástica não era de todo são, e artistas, como Zurbarán, combateram tal corrente sem propriamente se afastarem das inovações da época.

Espelho de uma época

Certos autores chamam a atenção para um fato singular: a arte sacra da américa hispana tem sua base e inspira-se em temas e estilos de Francisco de Zurbarán, sendo a arte peruana um exemplar genuíno de tais predicados.[7]

Lima — capital do então Vice-reinado do Peru— “se converteu na cidade das igrejas e conventos. Sendo Zurbarán o pintor mais prestigioso de Sevilla, era natural que recebesse pedidos de suas obras para os diversos lugares das índias espanholas, sobretudo para a capital do Vice-Reinado. O estilo zurbaraniano mesclou-se rapidamente com a criatividade nativa, as características do vestuário da época e as figuras utilizadas para a evangelização dos nacionais. Os rasgos distintivos de sua obra foram largamente seguidos por uma legião de epígonos que se afanaram em repetir suas imagens, imprimindo uma verdadeira “forma” ao estilo pictórico da nação ibero-americana.”[8]

Esta verdadeira arte católica, iniciada nas nascentes da pura doutrina tridentina, levada adiante por célebres pintores, representa um grande tesouro para a Igreja, sobretudo em épocas onde princípios evocados por tal arte caem no esquecimento. Na verdade, este estilo não caracteriza apenas uma época, mas todo um modo de viver e pensar muito diverso do contemporâneo, o qual não podemos deixar de recordar.

Por André Luiz Kleina


[1] Para mais informações a respeito, ler “A Igreja da Renascença e da Reforma”, de Daniel Rops.

[2] Cf. PLAZAOLA, Juan. Historia del arte cristiano. Madrid: BAC, 1999, p. 235-6.

[3] Museu Hermitage, São Petersburgo, Rússia.

[4] Museu Carmen Thyssen, Málaga, Espanha.

[5] Museu de Belas-Artes, Sevilha, Espanha.

[6] Museu de Belas-Artes, Sevilha, Espanha.

[7] Obras de Zurbarán encontram-se também em outros países americanos, como a Argentina, Colômbia e México.

[8] Cf. CAVALCANTI, Alexandre de Hollanda. A Arte Sacra Peruana. Pulchritudine Fulgens, vol. 1, jan.-jun. 2015, p. 44-7.

 

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