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Fechar os olhos para não ver, ou abrir a boca para denunciar?

Diante das dificuldades da Igreja, que posição tomar? Fechar os olhos, fingindo que nada está acontecendo, ou acreditar que ainda há uma solução?

Cícero Leite (04/07/2020 19:43, Gaudium Press) Viajei, neste final de semana, para o interior de Minas Gerais. Os trabalhos do escritório em São Paulo haviam diminuído e a brecha veio em hora boa. Para surpresa minha, chegando à cidade de meus familiares, no final da tarde de sexta-feira, encontrei, parado no semáforo, uma antiga conhecida de minha mãe. Procurei na memória com esforço verdadeiramente atlético, mas apenas lembrei que era costureira e muito piedosa. Ela se aproximou do carro e, de longe, ergueu os braços, dizendo com voz carregada do sotaque característico:

– Doutor Cícero! Oh, mas que alegria! E quanto tempo…

Eu apenas tentava responder, sorridente, sem usar seu nome esquecido. Perguntei então se ela não queria uma carona. (Nesta cidade ninguém usava máscaras, e eu, ainda com reflexos da quarentena, vinha com uma debaixo do queixo). Ela retrucou assustada:

– Corona?!

Explicando-me melhor, ela aceitou com alívio.

O sinal verde já havia passado, mas, como boa e pacata cidade do interior, não havia carros para congestionar.

Acomodando-se em meu automóvel, enquanto puxava o cinto de segurança, ela perguntou:

– Você leu o jornal hoje, Cícero?

À vista de minha resposta afirmativa, ela continuou:

– Está subindo o preço do tomate. Parece que deu uma praga na folhagem e os agricultores estão com dificuldade na colheita.

Claro! Aquela senhora não podia comentar a situação da economia mundial, e nem mesmo as dificuldades que passa a Igreja, pois afinal de contas, era uma simples costureira e dona-de-casa. Ademais, ela não imaginava que os jornais da sua cidade não circulavam em São Paulo. Assim, por educação, tive que preocupar-me um pouco pelos problemas do tomate.

Em certo momento, inesperadamente, ela cessou de falar. Introduzi, então, o tema das eleições em outubro deste ano (agora adiadas), e ela me surpreendeu com um pensamento que já tinha ouvido em outro lugar, mas, que havia caído no esquecimento do mesmo modo que havia perdido o nome dela. Ela disse:

– Olha, Dr. Cícero, ouça essa frase que meu avô dizia: “o povo sempre tem o rei que merece”. O senhor acha que, com tanta violência, com tanto roubo e coisas erradas que há nesse mundo, vamos ter bons governantes? Esse mundo abandonou a Deus! Esse mundo já está ficando sem fé e não pratica mais os Mandamentos. O senhor acha que Deus vai dar para nós alguém que seja melhor que os anteriores?

Confesso que fiquei assustado e não quis entrar no mérito da questão. Porém, joguei um argumento para ver como ela se saía:

– Mas veja o seguinte: isso não parece ser uma regra geral ou, pelo menos, há exceções. Note, por exemplo, o caso do povo judeu; outrora eles não mereciam, mas Deus lhes mandou Moisés para guiá-los.

Sem titubear ela retrucou:

– Moisés era um profeta, e muitas vezes o povo não quis segui-lo. Eles adoraram ídolos e o próprio Aarão, que era sacerdote, desviou o povo.

Era inimaginável! De alguém que se preocupava com tomates podia sair esta teologia? Eu estava boquiaberto.

– Bem, falando em profeta, o que a senhora acha desta crise toda na Igreja, as divisões, os “mal-entendidos”, os abusos… Será que Deus não vai mandar um profeta para nos guiar, ainda que não mereçamos?

Ela ficou pensativa e disse:

– Para dizer a verdade, eu não sei bem o que acontece na Igreja e procuro sempre fechar os olhos para essas notícias que falam mal dos bispos e dos padres, rezando a Deus para que seja tudo mentira. Desde criança eu aprendi que os padres têm voto de castidade e de pobreza (sic). Como pode ser que eles estejam roubando ou cometendo aqueles escândalos? Eu prefiro ainda acreditar nos padres…

Ela ainda falava, quando o carro parou em outro semáforo, diante de uma mercearia. Ela abriu a porta e disse:

– Muito obrigada pela carona! Minha casa é na rua de baixo, pode deixar que vou a pé até lá. Foi uma alegria…

E assim, abruptamente, nos despedimos e ela partiu.

Na verdade, aquela dona-de-casa havia costurado muitos assuntos em minha cabeça, mas deixava inúmeros pontos sem nó:

 1º Padres?! Quanto tenho sabido sobre padres que desejam abandonar a batina – ou melhor, o clergyman, e vá lá – para se casar. Por outro lado, quanto são os casais que me buscam para dar entrada no divórcio – que inversão de valores!

2° Como solucionar os inúmeros casos de escândalos financeiros que pululam na “caixa de entrada” dos meus e-mails, sobretudo por parte daqueles chamados a praticar a pobreza por vocação? E também, como instruir sobre a aplicação honesta das doações aos mais necessitados?

3° E ainda, o que pensar dos obscuros casos financeiros por parte de membros da Secretaria de Estado, e das mudanças intestinas sem fim do APSA? Pois quem estará, de fato, agindo com lealdade e retidão? Que fazer: fechar os olhos para não ver, ou abrir a boca para denunciar?

4º Todas essas circunstâncias nasceram à raiz do quê? De alguém “que escolhemos”, ou de algum “profeta” que rejeitamos?

Reflexivo e imerso nessas indagações, o contato com aquela antiga conhecida me trouxe ainda à mente certa parábola campestre, presente num dos meus preferidos livros dentre aqueles que compõem as Sagradas Escrituras, o dos Juízes: “As árvores resolveram um dia eleger um rei para governá-las e disseram à oliveira: reina sobre nós! Mas ela respondeu: renunciarei, porventura, ao meu óleo que constitui minha glória aos olhos de Deus e dos homens, para colocar-me acima das outras árvores? […] E todas as árvores disseram ao espinheiro: vem tu, reina sobre nós! E o espinheiro respondeu: se realmente me quereis escolher para reinar sobre vós, vinde e abrigai-vos debaixo de minha sombra; mas, se não o quereis, saia fogo do espinheiro e devore os cedros do Líbano! (cf. Jz 9, 8, 9-15).

E à busca de uma sombra mais frondosa para eu estacionar meu carro, conclui: mandai operários – santos – para a vossa messe!

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