Gaudium news > Expulsar demônios também significa confrontar a opressão das ditaduras

Expulsar demônios também significa confrontar a opressão das ditaduras

Durante uma homilia em Miami, o bispo auxiliar de Manágua, Dom Silvio Báez, afirmou que o mandamento de Cristo de expulsar demônios também implica denunciar os regimes que atentam contra a dignidade humana e semeiam o medo entre os povos.

Foto: Vatican News

Foto: Vatican News

Redação (17/06/2026 08:00, Gaudium Press) O bispo auxiliar de Managua, Dom Silvio José Báez, expulso da Nicarágua em 2019 pelo regime de Daniel Ortega, ofereceu uma profunda e corajosa reflexão sobre o significado atual das palavras de Jesus ao enviar seus discípulos a expulsar demônios. Segundo o prelado, essa expressão evangélica não se restringe apenas às forças espirituais do mal, mas constitui também um forte chamado a combater as estruturas de opressão que escravizam as pessoas e destroem sua dignidade.

Durante a missa celebrada no dia 14 de junho, na Paróquia Santa Agatha, em Miami (Estados Unidos), Dom Báez afirmou que “expulsar os demônios é nos comprometermos com processos de libertação, pessoais e sociais, e ajudar a recuperar sua liberdade aqueles que estão presos pelos ídolos, pelo medo ou pela desesperança”.

Em sua homilia, relatada pela ACI Prensa, o bispo explicou que o Evangelho convida os cristãos a reconhecer e enfrentar as realidades que geram sofrimento e submissão. Nesse contexto, ele destacou que a missão de expulsar demônios também implica denunciar as injustiças que afetam os povos. “É também denunciar a irracionalidade e a crueldade dos regimes que atentam contra a dignidade humana e multiplicam a miséria do povo, não poucas vezes invocando até o nome de Deus”, ressaltou.

As palavras de Dom Báez ganham ainda mais força e credibilidade por causa de sua própria experiência. Desde 2018, a Igreja Católica na Nicarágua tem enfrentado diversas formas de perseguição e assédio por parte do governo de Daniel Ortega. O bispo foi obrigado a deixar o país em 2019 por motivos de segurança e, desde então, continua exercendo seu ministério pastoral junto às comunidades de nicaraguenses exilados.

A Paróquia Santa Agatha, onde foi proferida a homilia, reúne centenas de fiéis provenientes da Nicarágua. Muitos deles foram forçados a abandonar seu país devido à grave crise política e à crescente repressão dos últimos anos.

Comentando a passagem do Evangelho em que Jesus contempla a multidão cansada e abatida, “como ovelhas sem pastor”, Dom Báez traçou um paralelo direto com a realidade de milhões de pessoas hoje:

“Hoje também há muita gente que vive como ovelhas sem pastor. Pessoas tristes, sozinhas, desorientadas, desiludidas por ídolos enganosos; famílias destroçadas pela pobreza, pela migração forçada ou pela violência; povos inteiros privados de liberdade e de futuro pela guerra ou dominados por regimes ditatoriais que se impõem pelo medo e pela repressão.”

Diante desse cenário, o bispo destacou a oração como o ponto de partida indispensável para toda ação transformadora: “A oração é a primeira e mais urgente resposta”. Ele esclareceu, no entanto, que ela não substitui o compromisso concreto, mas é “sua raiz e fundamento, tornando-a fecunda e forte”.

Dom Báez também diferenciou claramente o poder que Cristo confia aos seus discípulos do tipo de poder que domina o mundo: “O poder que Jesus concede é um poder a serviço da vida e da dignidade humana. É exatamente o oposto do poder que seduz o mundo, o poder que esmaga, controla, atemoriza e submete”.

Segundo o bispo, essa missão continua plenamente vigente na Igreja de hoje e se concretiza em ações inspiradas pelo Evangelho: curar os enfermos, ressuscitar os mortos e purificar os leprosos — expressões que possuem tanto um sentido espiritual quanto social.

Sobre “ressuscitar os mortos”, ele explicou que significa “devolver a esperança àqueles que já não esperam nada, ajudando-os a descobrir lampejos da luz de Deus no meio das noites da vida. É anunciar incansavelmente o Deus da vida”. Essa tarefa inclui ainda “nos opormos aos poderes opressores que submetem os povos, com a convicção de que Deus acompanha e abençoa os esforços realizados em favor da liberdade e da dignidade das pessoas”.

Por fim, “limpar os leprosos” foi apresentado como o compromisso de restituir a dignidade daqueles que são excluídos ou marginalizados, promovendo uma cultura de inclusão, solidariedade e diálogo respeitoso.

Com essas reflexões, Dom Silvio José Báez lembra a todos que a fé cristã não pode ficar indiferente diante das injustiças, opressões e sofrimentos que marcam a vida de milhões de pessoas no mundo atual. Sua mensagem ressoa com especial força entre os exilados nicaraguenses e todos aqueles que lutam diariamente por liberdade, justiça e dignidade humana.

Com informações Religión en Libertad

Deixe seu comentário

Notícias Relacionadas