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Evangelhos Apócrifos e fake news

As fake news são só deste século XXI? Muitas vezes, propagavam-se tendenciosas doutrinas gnósticas ocultas sob encantadoras lendas a respeito dos mistérios da vida de Jesus.

Redação (27/08/2020 10:30, Gaudium Press) Quando no futuro os estudiosos da História pesquisarem os séculos XX e XXI, deparar-se-ão com dificuldades não pequenas para verificar se um documento é falso ou verdadeiro.

Um dos grandes empecilhos para tanto será bem provavelmente nossa tão conhecida internet. Nesse assombroso meio de divulgação massiva, há de tudo. É possível até que nele o pesquisador encontre dados úteis e autênticos em meio a muita confusão, mas talvez encontre mais confusão e fake news do que verdade.

Se para nós, que vivemos na época dos acontecimentos dos quais se ocupa a internet e as redes sociais, já é difícil discernir o autêntico do falso, o real do imaginário, qual não será o trabalho dos historiadores no futuro?

Entretanto, as fake news não são só um problema relativo só ao nosso tempo; é uma questão que se espraia ao longo da História. É o que acontece, por exemplo, ao analisarmos os evangelhos apócrifos.

Evolução do significado da palavra

O vocábulo grego “apócrifo” (απόκρύφος) significa “coisa escondida, oculta”. Na Antiguidade, ele designava apenas os livros destinados exclusivamente aos membros de um grupo fechado, ou iniciados em algum mistério. Depois passou a ser utilizado para denominar documentos de origem duvidosa, cuja autenticidade podia ser questionada.

Os cristãos davam o qualificativo de apócrifo a certos escritos cujo autor era desconhecido e nos quais se desenvolviam temas ambíguos, embora fossem apresentados como sagrados.

Por isso, no decorrer do tempo, acrescentou-se a esse termo uma conotação um tanto pejorativa, significando um escrito suspeito de heresia ou, pelo menos, pouco recomendável.

Papel da imaginação popular… e da astúcia dos hereges

No desenvolvimento da literatura evangélico-apócrifa, tiveram grande papel os sentimentos do povo simples de Deus. A imaginação oriental e o atrativo por tudo quanto se apresentasse como misterioso buscavam modos de preencher os “vazios” dos Evangelhos já consagrados, no tocante a muitos detalhes da vida de Jesus.

Aquelas jovens comunidades cristãs sentiam viva necessidade de conhecer coisas novas a respeito da pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, de sua vida e sua mensagem. Nada há de estranho no fato de elas terem-se deixado levar por relatos fantásticos escritos por pessoas que constavam como sendo contemporâneas de Cristo, ou por tradições provenientes dos lugares pelos quais tinha passado o Divino Mestre. Esse acervo primitivo foi-se avolumando e diversificando ao passar de boca em boca e de região em região, até ser finalmente cristalizado na abundante literatura apócrifa, que muitas vezes se amparou no nome daqueles que tinham sido testemunhas efetivas da vida de Cristo: Pedro, Filipe, Tiago, João, etc.

Porém, à ingenuidade do crédulo povo não tardou a acrescer-se a astúcia dos hereges. Ocultas sob o gracioso manto de encantadoras lendas a respeito dos mistérios da vida de Jesus, muitas vezes propagavam-se tendenciosas doutrinas gnósticas ou maniquéias.

Vários desses mal-intencionados autores forjavam escritos “bíblicos”, alterando ou simplesmente inventando fatos e personagens, com o intuito de dar base e justificação às suas teses heréticas.

A eficaz reação da Igreja

Quando o joio começou a misturar-se ao trigo, compreende-se que as autoridades da Igreja, à qual Cristo tinha confiado a guarda de seu rebanho, haveriam de reagir de algum modo contra essas falsificações que ameaçavam a saúde espiritual e a unidade dos fiéis.

A primeira e mais importante medida foi estabelecer quais eram os livros realmente inspirados pelo Espírito Santo, e assim reconhecidos como pertencentes às Sagradas Escrituras.

É sabido que desde o primeiro século houve a preocupação de fazer a lista de tais livros. No entanto, a mais antiga da qual se tem conhecimento, o “fragmento Muratoriano”, é de cerca do ano 170, e esta mesma ainda não continha todos os 27 livros do Novo Testamento. A primeira lista que cita todos os livros hoje conhecidos foi elaborada em 367 pelo grande Santo Atanásio, Patriarca de Alexandria, conhecido como o “Pai da Ortodoxia”. Este prelado foi quem utilizou pela primeira vez, em 350, o termo grego Cânon (κανών: regra, norma) ao referir-se à relação dos livros que compõem as Sagradas Escrituras.

É oportuno acentuar que os critérios para o estabelecimento do Cânon de modo algum foram aleatórios, mas sim fruto de profundos e sérios estudos, e disputas das quais tomaram parte personagens de grande ciência e consumada virtude, tais como, São Policarpo de Esmirna, Santo Inácio de Antioquia, (ambos discípulos do Apóstolo São João), Santo Irineu de Lyon, Eusébio de Cesaréia, o Papa São Dâmaso e São Jerônimo, entre outros.

As derradeiras incertezas foram resolvidas em 393, quando o Concílio Regional de Hipona definiu o Cânon sagrado da Igreja Católica, tal como hoje o conhecemos, com seus 73 livros, e decretou: “Além das Escrituras canônicas, nada seja lido na Igreja a título de Divinas Escrituras”. Essa definição foi repetida por vários concílios: o III de Cartago (397), o IV de Cartago (419), o de Trulos (692), o de Florença (1442), o de Trento (1546) e o Vaticano I (1870).

Assim, são livros bíblicos autênticos todos os que constam nesse Cânon, e os demais são apócrifos.

Dois tipos de livros apócrifos

No entanto, a Igreja, em sua sabedoria, sabia distinguir dois tipos de documentos apócrifos.

Um primeiro grupo é formado pelos livros que, apesar de não estarem no Cânon, não chegam a contrariar os Evangelhos autênticos. Eles foram, inclusive, citados por conhecidos autores eclesiásticos, apresentando caráter ortodoxo. Por exemplo: os Feitos de Paulo, o Pastor de Hermas, a Carta de Barnabé, o Evangelho dos Hebreus, o Proto-Evangelho de Tiago.

E um segundo grupo, composto por livros permeados de graves erros doutrinários, históricos e até mesmo geográficos, além de expressões vulgares ou pelo menos não-condizentes com a bela literatura evangélica. Destacam-se entre estes: Evangelho de Judas, Evangelho dos Doze, Evangelho dos Egípcios, Atos de Mateus, Apocalipse de Pedro.

Mesmo assim, não chegou a haver uma condenação expressa dos apócrifos em geral, mas foram elaboradas listas dos que eram considerados positivamente heréticos. Uma destas é a do Decreto Gelasiano, De libris recipiendis et non recipiendis (Livros aprovados e não-aprovados), normalmente atribuído ao Papa São Gelásio (492-496).

Valor histórico de certos textos apócrifos

Sem deixar de reconhecer o importante papel da imaginação popular na criação ou alteração de certas tradições, não se pode negar que o testemunho dos documentos apócrifos referidos no primeiro grupo tenha um valor histórico indireto, e não irrelevante.

Embora vistos com reservas nos primeiros séculos, alguns deles continham dados que mais tarde viriam a ser reconhecidos pela Santa Igreja.

Vejamos, por exemplo, os nomes dos pais da Santíssima Virgem, São Joaquim e Santa Ana, celebrados pela Liturgia em 26 de julho; a comemoração da Apresentação da Virgem Maria Menina, estabelecida no calendário romano a 21 de novembro; o nascimento de Jesus numa gruta, na qual nunca falta o boi e o burro; a fuga para o Egito com a quebra dos ídolos nesse país; os três Reis Magos, com os nomes de Melquior, Gaspar e Baltasar; o nome do bom ladrão, São Dimas, celebrado pela Liturgia em 25 de março; o nome do soldado Longinos, que atravessou o peito de Nosso Senhor com uma lança; a história da Verônica, que enxugou com um tecido o rosto de Nosso Senhor enquanto este ia pela Via Crucis.

Todos esses dados encontram-se profundamente enraizados no sentir católico, e ninguém pode negar seu benefício. No entanto, eles não têm outro fundamento histórico além das narrativas apócrifas.

Uma época que deu larga acolhida aos bons documentos apócrifos, aliás, foi a Idade Média. Eles forneceram abundante matéria de inspiração para literatos e artistas, como Jacques de Voragine, com sua tão conhecida Legende Dorée (Legenda Áurea), Fra Angélico e Giotto, com suas inocentes pinturas, e os anônimos escultores que povoaram as catedrais, talhando na pedra personagens e cenas das vidas do Salvador e de seus Apóstolos.

Por fim, há que reconhecer uma dívida de gratidão para com os Santos, os Padres da Igreja e os pontífices, por sua atitude de firmeza e cautela frente à difusão indistinta dos textos apócrifos. Graças a eles, foi-nos conservado inalterado o tesouro autêntico da Revelação escrita, parte fundamental do penhor de salvação que nos legou Nosso Senhor Jesus Cristo.

Em nossa conturbada época repleta de fake news, devemos nos perguntar: qual o grau de fé e de submissão a Deus e ao Evangelho do homem nos tempos presentes? Peçamos ao Divino Espírito Santo, por intercessão de Sua esposa Maria Santíssima, que sempre nos ilumine no caminho da verdade.

Texto extraído, com adaptações, da revista Arautos do Evangelho n. 56, agosto 2006.

 

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