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Espanha: jovens voltam usar medalhas de Nossa Senhora no pescoço

As medalhas de Nossa Senhora e os terços voltam a despertar o interesse das jovens espanholas, inclusive entre as filhas de famílias distantes da religião. Será apenas uma moda ou o início de uma busca espiritual?

Amigas y medallas en la plaza

Redação (22/10/2026 09:41, Gaudium Press) A Virgem Maria voltou a fazer parte do dia a dia de muitas jovens espanholas. Medalhas religiosas e terços ganharam visibilidade entre as novas gerações, num fenômeno que mistura estética, identidade e, em alguns casos, um renovado interesse pela fé católica. A tendência chamou a atenção da jornalista Nuria Labari, que, em artigo publicado no El País sob o título “Mamá, soy rebelde: cómprame una virgen” (Mãe, sou rebelde: compre-me uma Virgem), analisa o retorno dos símbolos religiosos entre as jovens e a surpresa que isso provoca em lares secularizados.

“Não é preciso ser católica para pendurar uma Virgem no pescoço”, observa Labari ao se referir ao chamado catholic-core, uma corrente que transforma medalhas de Nossa Senhora e terços em acessórios de moda. No entanto, para além do valor estético, a presença desses objetos levanta uma pergunta: o que leva algumas jovens a se interessarem por símbolos de uma tradição religiosa da qual, em muitos casos, suas famílias se distanciaram?

Pais ateus diante do interesse religioso das filhas

Um dos pontos que mais chama a atenção da jornalista é a reação das famílias. Labari descreve mães e pais agnósticos e ateus que observam com perplexidade como as filhas começam a se interessar pela Virgem Maria e por objetos ligados ao Catolicismo. A situação é paradoxal. Durante décadas, a rebeldia juvenil esteve associada à rejeição das crenças e costumes religiosos herdados dos pais. Agora, em certos ambientes, parece surgir uma tendência inversa: jovens criadas em lares distantes da prática religiosa que encontram atrativo em símbolos cristãos que talvez mal conheçam.

O fenômeno não significa necessariamente que todas essas jovens estejam retornando à Igreja ou tenham uma fé definida. Para algumas, pode ser uma escolha estética; para outras, uma forma de expressar identidade ou de se aproximar de perguntas sobre o sentido da vida, a espiritualidade e a transcendência. O significativo é que os símbolos católicos voltam a despertar curiosidade em setores da sociedade que, durante anos, consideraram a religião uma realidade cada vez mais distante das novas gerações.

Aproximação à castidade?

Em seu artigo, Labari também menciona a preocupação de alguns pais com a possibilidade de que o interesse religioso das filhas as aproxime de valores como a castidade, a pureza virginal ou a maternidade como destino. “De onde essa garota tira essas ideias, considerando o quão difícil foi para nós conseguirmos uma escola laica?” Essa inquietação reflete uma visão comum em certos setores da cultura contemporânea, que identifica a moral católica com uma limitação da liberdade das mulheres. Do ponto de vista cristão, porém, a figura da Virgem Maria oferece uma compreensão diferente da liberdade, da dignidade feminina e da resposta pessoal a Deus. Maria não é apresentada pela Igreja apenas como modelo de obediência passiva, mas como uma mulher que responde livremente a um chamado divino. Seu “sim” na Anunciação é uma decisão pessoal central na história da salvação.

Da mesma forma, a castidade, na tradição católica, é entendida como uma virtude ligada ao domínio de si e à integração da afetividade e da sexualidade. Não se propõe exclusivamente às mulheres, mas também aos homens. Não se trata de negar a liberdade, e sim de orientar as decisões pessoais para uma concepção integral do amor e da dignidade humana. Por isso, o retorno das medalhas de Nossa Senhora pode abrir espaço para superar estereótipos e redescobrir o significado religioso de uma figura que, para milhões de católicos, continua sendo modelo de fé, fortaleza e entrega livre a Deus.

Dados que apontam para uma “virada católica”

Um dos dados mais relevantes citados por Labari vem do relatório da Fundación SM. Segundo o estudo Jovens Espanhóis 2026, o percentual de jovens que se consideram católicos (praticantes ou não) na Espanha subiu de 31,6% em 2020 para 45% em 2025 — um aumento de 13,4 pontos percentuais em apenas cinco anos. A religião também alcançou o maior nível de importância da série histórica: 38,4% dos jovens a consideram “bastante ou muito importante” em suas vidas. Paralelamente, a proporção de jovens que se declaram não crentes ou ateus caiu.

Outros indicadores, como os do Centro de Investigaciones Sociológicas (CIS), também registram crescimento entre os 18 e 24 anos, embora com números um pouco mais modestos em algumas medições. Especialistas apontam fatores que ajudam a explicar o fenômeno: a experiência da pandemia, que interrompeu a rotina e despertou perguntas existenciais; a menor carga de preconceitos em relação à Igreja entre os mais jovens; a normalização da espiritualidade nas redes sociais; e a emergência de um “catolicismo cool”.

Influenciadores católicos no TikTok e no Instagram, grupos como o Hakuna (que reúne dezenas de milhares de jovens em encontros de oração e convívio), o álbum Lux de Rosalía (repleto de referências cristãs e iconografia religiosa) e o filme espanhol Los Domingos (sobre a vocação religiosa de uma adolescente) contribuíram para tornar visível e até atraente a fé católica. Há também o “efeito terço”: pulseiras e medalhas religiosas usadas como declaração discreta de identidade, misturando moda e simbolismo.

Moda passageira ou interesse renovado?

Nem tudo é conversão profunda. Carregar um terço ou uma medalha não significa necessariamente crer em Deus. Ao mesmo tempo, descartar que esse primeiro contato possa despertar perguntas mais profundas seria precipitado.

Labari relaciona a tendência à falta de identidade e de horizontes que muitos jovens experimentam. Em uma sociedade acelerada, saturada de telas e estímulos, a busca de sentido ganha peso. A fé oferece respostas a questões fundamentais sobre origem, destino, sofrimento, amor e esperança. Para quem se aproxima dela, o caminho pode começar de formas muito diferentes: uma conversa, uma experiência pessoal, a curiosidade por uma oração ou, simplesmente, uma medalha da Virgem.

No final de sua reflexão, Labari formula uma pergunta que vai além dos acessórios religiosos: “A juventude, seja ou não religiosa, precisa de espaços para essa busca íntima, e nós quase não lhes oferecemos lugares onde sobreviver. Fracassamos. E quando tudo falha, o que resta às jovens? Talvez a Virgem. Ou a revolução”. Suas palavras apontam para uma necessidade mais ampla: que os jovens encontrem lugares onde possam formular suas perguntas, construir identidade e explorar inquietações sem que suas buscas sejam reduzidas a uma mera tendência.

O catholic-core pode ser, para muitos, apenas estética. Para outros, talvez seja o início de algo mais. Em ambos os casos, a presença da Virgem Maria no pescoço de jovens espanholas revela que a questão espiritual continua viva — e que, mesmo em sociedades secularizadas, símbolos antigos ainda têm poder de despertar curiosidade, identidade e, quem sabe, fé.

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