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Entre o futebol e a fé

Pelé nasceu em berço católico, se disse católico a vida inteira e teve o privilégio de se encontrar com três papas

Bento 16 e Pele 1

Redação (04/01/2023 11:09, Gaudium Press). Lembro-me que, quando era pequeno – e até mesmo depois de grande – minha mãe sempre me dizia: “Meu filho, tenha muito cuidado com as suas palavras. Às vezes é bem melhor ficar calado do que dizer besteiras. Enquanto você não fala, mesmo que pense, a palavra é sua, mas, depois que fala, a palavra é de quem ouve e não tem como voltar atrás.”

Para desconsolo de minha mãe, eu fui trabalhar com as palavras, mas, para o bom cumprimento do meu ofício, os ensinamentos dela, quando deles me lembrei, foram de grande valia. Nem sempre pude cumprir à risca as suas orientações, mas evitei me meter em algumas situações desastrosas, quando as segui.

Estamos vivendo um momento único, três acontecimentos importantes de uma só vez, em meio à passagem de ano: a morte de Pelé, considerado o maior atleta de todos os tempos, a morte de um papa e a controversa chegada de um novo presidente ao poder, após a eleição mais polarizada da história do Brasil, que suscitou protestos nunca antes vistos por aqui.

Eu não gosto de ser do contra e, concordo com a minha mãe, tem coisas que é melhor não dizer, pois, de antemão, já é possível prever que não seremos compreendidos. Ao mesmo tempo, porém, pelo bem da verdade e senso de dever, há coisas que não têm como não serem ditas.

95% gostam de futebol

 Vamos começar falando de futebol. É muito comum as pessoas religiosas serem acusadas de fanáticas, mas, fanatismo mesmo, quem o quiser conhecer, deve se voltar para os jogos de futebol e suas torcidas. Tenho uma amiga que costumava dizer que, quando dois ou mais homens estão juntos, se a bola for tirada da conversa, o assunto acaba e a roda se dispersa, porque já não terão sobre o que falar…

Bem, não posso dizer que concordo 100% com ela, mas, em uns 95% dos casos, é exatamente isso o que acontece. Num encontro masculino, trate-se do assunto que for, raramente, deixará de aparecer um comentário qualquer sobre bola, jogadores e partidas de futebol.

Preciso confessar que estou entre os 5%. Não digo que desgosto do futebol, mas também não posso dizer que gosto; para mim, é algo indiferente. Não torço para nenhum time e, das regras desse esporte, conheço as essenciais, isto é, que a bola não pode ser tocada com a mão e que quando a bola entra na rede, é gol.

É claro que lamento a morte do grande esportista que, pela sua excepcional atuação, mereceu o título de rei e tornou-se conhecido no mundo inteiro. Mas lamento a morte dele como lamento a de qualquer outra pessoa e, confesso, sem nenhuma surpresa ou comoção especial. Afinal, trata-se de um homem de 82 anos, uma idade com a qual é comum as pessoas morrerem, salvo algumas exceções, como a própria mãe do Pelé, que atingiu a casa dos 100 anos.

Entre os três acontecimentos, não vou falar da sucessão presidencial, me aterei apenas às mortes, que já têm suficiente grandiosidade, considerando as duas pessoas que morreram em datas tão próximas: um papa e um “rei”.

A diferença entre o anúncio das duas mortes

A imprensa está noticiando as duas mortes, mas, sejamos bem claros, a disparidade entre a maneira como se noticia uma e outra, faz parecer que morrer fosse uma obrigação do idoso Papa Bento, ao passo que, de Pelé, as pessoas têm agido como se esperassem a eternidade na terra.

Alguém lembrou, esses dias, um pensamento atribuído a Santo Agostinho, mas que não consegui comprovar se realmente é dele ou não: “Quando nasce um menino, pergunta-se se ele será feio ou bonito, se será rico ou pobre, mas ninguém pergunta se ele morrerá ou não, porque a morte é a única certeza que temos.” Ambos morreram pelo simples fato de estarem vivos e de ser a morte o fim único de todos nós, famosos ou não, bons ou não, religiosos ou não.

Longe de mim, mas muito longe de mim, querer desabonar ou desmerecer o que Pelé representa; eu apenas vejo, porque não sou cego, que a morte dele parece estar eclipsando a morte do Papa Emérito Bento XVI. De um lado, temos um superatleta, um homem que provocou grandes emoções, que incentivou muitos talentos, marcou mais de 1200 gols e fez com a bola o que dificilmente outro jogador fará.

Do outro, temos um homem de grande virtude, um dos maiores teólogos dos últimos tempos, que dirigiu a Igreja de Cristo por oito anos, canonizou santos, escreveu tratados, converteu pecadores, viveu intensamente a fé e a caridade, não ignorou conflitos, abençoou milhões de pessoas e sustentou o mundo com as suas orações, como legítimo sucessor de Pedro e representante de Deus.

Sem forças para continuar

Bento XVI teve uma atitude inesperada e surpreendente: quando sentiu lhe faltarem as forças, renunciou ao seu posto, para que outro continuasse a conduzir o rebanho de Deus.

Por mais que se especule sobre motivos ocultos para a sua renúncia, inédita nos tempos modernos, a verdade é que é preciso ter muita humildade e muita coragem para tomar uma decisão desse teor. Devemos reconhecer que um homem precisa ser muito grande para renunciar ao poder. Hoje, quase dez anos depois de sua renúncia, quando ele parte desta vida, revisito suas palavras e, para mim, elas são suficientes para a compreender o dilema moral e espiritual que este santo homem viveu, até tomar essa difícil decisão:

“Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idôneas para exercer adequadamente o ministério petrino. No mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado.”

Percalços na vida do rei do futebol

Pelé nasceu em berço católico e se disse católico a vida inteira, tendo o privilégio de se encontrar com três papas – Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI. No entanto, teve relacionamentos matrimoniais e extramatrimoniais bem conturbados, para dizer o mínimo. Um detalhe apenas, que não faz dele menos importante do que ele foi, por seus feitos futebolísticos.

Pelé teve uma filha que se recusou a aceitar, fruto de seu relacionamento com uma empregada doméstica. Depois de uma longa batalha na justiça, bastante explorada pela imprensa, durante a qual recorreu várias vezes da decisão judicial que reconheceu a sua paternidade, através de um incontestável exame de DNA, Pelé deixou que a filha morresse sem receber dele o abraço que ela tanto pleiteou. Ela morreu de câncer, em 2006, aos 42 anos, e nem mesmo ao seu velório ele compareceu, apenas mandou flores, que a mãe da moça recusou. Mas, claro, isso também não diminui o seu brilhantismo nas grandes jogadas do futebol.

É provável que ele tenha educado bem os filhos cuja paternidade assumiu, mas isso não evitou que um deles se envolvesse com o tráfico de drogas e a lavagem de dinheiro e fosse condenado a 12 anos de prisão. Algo que pode acontecer com o filho de qualquer pai, seja ele famoso ou não. Pelé não deixou, é claro, de ser o maior jogador de todos os tempos.

O atleta perfeito

Enfim, Pelé é tido como o atleta perfeito, e este, como imortal. O presidente da FIFA chegou a cogitar que todos os países do mundo tenham um estádio com o nome dele, e até mesmo a NASA o homenageou. De um quadrante a outro, não houve nenhum lugar do planeta que não prestasse a sua homenagem ao grande rei do futebol.

É provável que muitos que gritam “Gol!” nunca tenham rezado uma Ave-Maria, por isso, as mesmas homenagens não foram prestadas ao Papa Bento, cuja lembrança, na terra, certamente será apagada muito antes de esvair-se no ar e cair no esquecimento a lembrança daquele que foi considerado o atleta do século XX. Mortos com apenas dois dias de diferença, deixam o mundo um homem de fé e um atleta perfeito, mas, como entrarão na vida eterna, só a Deus compete saber.

Talvez eu devesse considerar mais as palavras de minha boa mãe e não entrar em assuntos polêmicos, mas, peço a ela que me perdoe, pois, mesmo contrariando a opinião da maioria, e trafegando na contramão de direção, eu ainda me arrisco a acreditar que, entre o futebol e a fé, acabamos nos perdendo e escolhendo mal os nossos super-heróis. Que Deus tenha misericórdia deles e de cada um de nós.

Por Afonso Pessoa

 

 

 

 

 

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