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Entre a melhor parte e a melhor escolha, o que prefiro?

Neste 16° Domingo do Tempo Comum, Maria Madalena e Marta vêm nos recordar sobre o propósito de nossas escolhas ao longo da vida.

Redação (16/07/2022 15:14, Gaudium Press) É uma cena ao mesmo tempo corriqueira e singular a que nos é apresentada no Evangelho de hoje: que há de mais comum do que receber uma visita em casa? Porém, quando o visitante é o próprio Deus, o fato se torna quase único na História:

Naquele tempo, Jesus entrou num povoado e certa mulher, de nome Marta, recebeu-o em sua casa (Lc 10,38).

Sabemos que a primeira preocupação de quem recebe uma visita é deixá-la o mais à vontade possível e, para tal, entre outras coisas, limpar e ordenar a casa, preparar as refeições etc. Era o que Marta fazia.

Entrementes, sua irmã agia de modo bem diferente. Assim que nosso Senhor chegou, ela sentou-se a seus pés e se pôs a ouvi-Lo. Então Marta, tendo de fazer não só os seus afazeres, mas também os de Maria, disse a Jesus:

“Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha com todo o serviço? Manda que ela me venha ajudar!” (Lc 10,40).

O que lhe respondeu o Senhor?

Marta, Marta! Tu te andas preocupada e agitada com muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada (Lc 18,41).

Eis aí uma célebre questão. O que é mais excelente: a vida ativa ou a vida contemplativa?

 O termômetro das boas obras

Com frequência encontram-se nas Igrejas pessoas cheias de iniciativas, que se dedicam a promover festas, comemorações etc. É algo muito bom e louvável; entretanto, Marta fazia algo semelhante; não obstante, recebeu uma repreensão de nosso Senhor.

Alguém poderia objetar: “Mas, afinal, qual é o mal em fazer tudo isso? Nós o fazemos pela Igreja!”

De fato, não há absolutamente nenhum mal. Mas acaso Marta fazia alguma coisa de errado? Ela estava servindo a Jesus, estava cumprindo o seu dever. A própria Santa Teresa nos diz que se ela “permanecesse, como Madalena, embevecida aos pés do Senhor, ninguém daria de comer a este Divino Hóspede”.[1] Contudo, isto lhe valeu uma forte repreensão.

Na verdade, se nosso Senhor a censurou, não foi por fazer os preparativos para recebê-Lo, mas sim por dedicar mais atenção e empenho à circunstância do que ao circunstante principal, Jesus.

Além disso, o Divino Mestre diz que ela estava “agitada” (cf. Lc 18,41). A serenidade e a paz constituem o termômetro para sabermos se Jesus é o centro de nossas atividades. Se, antes de realizar eventos, escolher as músicas para a celebração, etc. nos colocássemos o problema: “Jesus faria assim? Eu O convidaria para isso?”, quantos desvios seriam evitados e quanta paz reinaria nos ambientes católicos!

Com efeito, de que adianta multiplicar supostas obras de caridade se o nosso coração está longe do Senhor?

As obras são necessárias e até indispensáveis. Contudo, o que são elas sem a Fé e a verdade? Se elas não estão de acordo com doutrina da Igreja, nunca passarão de mero altruísmo, isentas de mérito sobrenatural.

A melhor parte, mas não a melhor escolha

“Maria escolheu a melhor parte”. Sem dúvida, por sua natureza, a contemplação vale mais do que a ação. Mas imagine o leitor uma pessoa que, tendo ganhado gratuitamente um ímovel inteiro, pronto e decorado, queira ficar somente com uma sala. Ainda que seja o melhor recinto, não se pode afirmar que esta pessoa tenha escolhido a melhor opção. Em sentido análogo, foi o que fez Maria: escolheu a melhor parte, em vez do todo.

“A vida contemplativa e a vida ativa reclamam-se mutuamente”, diz-nos Dom Chautard em seu livro A Alma de todo Apostolado. A perfeição não consiste, pois, em ser como Marta ou como Maria, mas em ser uma síntese das duas.

Isso quer dizer, então, que, ao preparar o almoço, a boa dona de casa deva estar rezando o terço, ou que seja obrigação do advogado estar rezando Ave-Marias enquanto defende uma causa? Evidentemente, não. Trata-se de algo muito mais simples.

Ser como Marta e como Maria

Santa Teresinha dizia que a oração é “um simples olhar lançado ao céu”, e vários santos afirmam que rezar é “elevar a mente a Deus”. Pois bem, se oferecermos o nosso dia, os nossos trabalhos e ocupações a Deus, fazendo-os com pureza de intenção, estaremos continuamente rezando.

Nossa vida será uma oração, nossas atividades tomarão uma nova perspectiva e serão preciosíssimas aos olhos de Deus. É a isso que se refere o aforismo latino: Pedes in terra et in sidera visus.[2]

Portanto, peçamos a Deus, por intermédio de Nossa Senhora, a graça de termos nossas vistas e intenções sempre direcionadas ao céu, embora os pés na terra. E que diante da melhor parte ou da melhor escolha, optemos pelo tudo: servir e contemplar a Deus, nosso Senhor.

Por Lucas Rezende


[1] SANTA TERESA DE JESUS. Camino de perfección. C.17,5.In: Obras Completas. 3.ed. Burgos: El Monte Carmelo, 1939,p.296-397.

[2] É necessário ter os pés na terra e a visão no céu.

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