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Em busca da Verdade…

Em tempos de decadência, muitas vezes os homens negam a verdade, buscando explicações racionais, por mais absurdas que sejam, a fim de conciliar a verdade e o erro. Exista uma verdade suprema?

Redação (26/09/2020 10:40, Gaudium Press) Roma é uma cidade plena de história e de encantos. Quiçá, em nenhum outro lugar do mundo os monumentos da Antiguidade clássica se encontrem em tão perfeita harmonia com as maravilhas oriundas da Civilização Cristã.

Caminhando pela margem esquerda do legendário Tibre, que cruza o centro histórico da Cidade Eterna, é possível contemplar ao longe a esguia torre da Basílica de Santa Maria in Cosmedin. Edificada por volta do século VI, sobre as ruínas de um antigo templo, é hoje uma das igrejas mais visitadas de Roma.

Por volta do ano 780, foi confiada a uma comunidade de monges bizantinos, os quais a adornaram com majestosas colunas e ricos mosaicos. Devido ainda à beleza de suas pinturas e à suntuosidade do seu pavimento, recebeu o merecido título que conserva até hoje: Santa Maria in Cosmedin (do grego, Cosmidion, “bem ornamentada”).

Uma fábula multissecular

Turistas provenientes de diversas partes do mundo cruzam todos os dias o pórtico desse histórico recinto sagrado. Muitos, todavia, não são atraídos pelos seus belos afrescos, nem pelos melodiosos hinos da Liturgia oriental que ali se entoam. A longa fila de turistas se dispersa ainda no átrio da Igreja, defronte a uma grande pedra circular amparada por um capitel. E se algum transeunte pouco informado dessas “curiosidades romanas”, perguntasse a um dos presentes o que o levou a visitar o belo edifício, bem poderia ouvir a seguinte resposta: “Vim aqui para conhecer a Boca da Verdade”…

Medindo 1,75m de diâmetro e pesando cerca de uma tonelada, a Bocca della Verità é um grande disco de mármore no qual se encontra esculpida uma grotesca face com a boca aberta. Para alguns, ela representa alguma divindade fluvial cujo nome a História não guardou; para outros, o frontispício de uma grandiosa fonte. Muitos, porém, julgam tratar-se da tampa de um velho bueiro romano. E uma lenda medieval atribuiu a esta escultura de pedra o admirável poder de punir os mentirosos: teria seus dedos amputados quem pusesse a mão na boca dessa máscara de mármore e dissesse uma mentira.

Uma das razões do sucesso desta fábula, que perdura até nossos dias, deve-se por certo ao fato de a Boca da Verdade jamais ter posto em prática seu prodigioso poder de punir. Bem podemos nos perguntar: Por quê? Talvez por considerar como verdadeiras todas as palavras proferidas pelos homens… Sua inoperância, porém, pode ter uma razão mais profunda: influenciada pelo relativismo da sociedade contemporânea, teria perdido a capacidade de distinguir o verdadeiro do falso…

O homem anseia por conhecer a verdade

Mesmo sendo uma mera curiosidade histórica, a lenda da Bocca della Verità põe em relevo um dos anseios mais enraizados no coração do homem. Com efeito, é inerente ao ser humano o desejo de conhecer a verdade, ainda que este se manifeste através de meios tão diversos quanto inusitados.

São Tomás de Aquino parte desse pressuposto em sua obra A Unidade do Intelecto: “Por natureza, todos os homens desejam conhecer a verdade”. Ainda segundo este Santo Doutor, o homem, por sua natureza espiritual, anseia por conhecer a verdade das coisas, assim como, por sua natureza corporal, almeja os prazeres próprios ao corpo.

Tal aspiração de conhecer a verdade se manifesta no íntimo do ser humano sob a forma de indagações sobre o fundamento último de sua existência, bem como sobre a natureza dos seres circundantes.

“Por que a verdade gera o ódio?”

Devido a esta intrínseca sede da verdade, a qual espontaneamente aflora na mente humana, bem se poderia imaginar que a verdade foi sempre compreendida e amada por todos. Contudo, Santo Agostinho nos oferece uma opinião diferente: “A verdade é doce e amarga. Doce quando perdoa; amarga quando visa curar”.

Ora, nem sempre os homens estão dispostos a aceitar o amargo sabor da verdade quando esta se manifesta sob a forma de uma censura ou repreensão. Tal atitude de inconformidade levou o Bispo de Hipona a formular a seguinte pergunta: “Por que a verdade gera o ódio?”. E responde: “É tal o amor à verdade, que aqueles que amam algo diferente pretendem que o objeto de seu amor seja a verdade; e como não admitem ser enganados, não querem convencer-se de seu erro. Do amor àquilo que supõem ser a verdade, provém seu ódio à verdade. Amam seu esplendor e odeiam sua censura. Gostam de enganar e detestam ser enganados, por isso a amam quando se revela e odeiam quando os acusa”.

Sob o signo da “ditadura do relativismo”

Há, contudo, uma terceira atitude perante a verdade: ela não existe e, se existisse, seria impossível conhecê-la. “Tudo é relativo; eis o único princípio absoluto”, afirmou Augusto Comte no início do século XIX.

Cerca de dois séculos depois o então Cardeal Joseph Ratzinger denunciava a “ditadura do relativismo” como um dos mais graves problemas do momento atual: “Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, muitas vezes é classificado como fundamentalismo. Enquanto o relativismo — isto é, deixar-se levar ‘aqui e além por qualquer vento de doutrina’ — aparece como a única atitude à altura dos tempos hodiernos. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades”.

Este problema já tinha sido levantado com grande profundidade por São João Paulo II na encíclica Fides et ratio, onde mostra a contraditória situação pela qual passa a razão filosófica em nossos dias: “Mais recentemente, ganharam relevo diversas doutrinas que tendem a desvalorizar até mesmo aquelas verdades que o homem estava certo de ter alcançado. Com efeito, negam o caráter exclusivo da verdade ao partirem do pressuposto de que ela se manifesta de modo igual em doutrinas diversas ou mesmo contraditórias entre si. Ficando, assim, tudo reduzido a mera opinião.

E conclui observando que, segundo certas correntes do pensamento dito pós-moderno, “o tempo das certezas teria irremediavelmente passado, o homem deveria finalmente aprender a viver num horizonte de ausência total de sentido, sob o signo do provisório e do efêmero”.

Sem embargo, afirmava Plinio Corrêa de Oliveira:

“A verdade nunca foi muito estimada pelos homens, sendo positivamente desprezada em nossos dias. A verdade é una e imutável, mas os homens amam o espetáculo diversificado das aparências que se sucedem; a verdade é eterna, mas os homens seguem as modas; a verdade é séria e os homens são frívolos; a verdade aponta o dever, ao passo que os homens querem os prazeres; enfim, a verdade é rija e os homens não têm fibra”.

O que é a verdade?

Essa foi a pergunta feita por Pilatos a Nosso Senhor Jesus Cristo. No entanto, no Cristianismo a “Verdade” não é um “que”, mas um “quem”. Ela não é um mero conceito teórico, mas sim uma Pessoa cujo nome é Jesus, Filho de Deus e da Virgem Maria.

“Quem procura a verdade, consciente ou inconscientemente, procura a Deus”, escreveu Santa Teresa Benedita da Cruz, lembrando o tempo em que trilhava as sendas da filosofia.

Por isso, caro leitor, se alguma vez você tiver oportunidade de fazer uma peregrinação à Cidade Eterna, não deixe de visitar a Basílica de Santa Maria in Cosmedin, para contemplar suas maravilhas. Todavia, não se detenha em seu átrio, à busca da verdade. Entre, dirija-se ao altar e fique bem junto do sacrário.

Ali estará à sua espera, não a lendária Bocca della Verità, mas a Verdade autêntica, Jesus Cristo, Senhor nosso. Ele terá com certeza algo de extraordinário a dizer-lhe, pois “os lábios que dizem a verdade permanecem para sempre, mas a língua mentirosa dura apenas um instante” (Pr 12, 19).

Pe. Inácio de Araújo Almeida, EP

 

Texto extraído, com adaptações, da revista Arautos do Evangelho n. 151. Julho 2014.

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