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É preciso queimar o céu e apagar o inferno

Como eu posso praticar o primeiro Mandamento? O que é pecar contra o primeiro Mandamento? Como posso amar a Deus de verdade?

Redação (19/08/2020 12:16, Gaudium Press) Há um pecado que poucos declinam no confessionário: faltar contra o primeiro mandamento. Com efeito, infelizmente, muitas pessoas nem sequer sabem do que trata este mandamento. Como praticá-lo?[1]

O Deus dos católicos é um Deus “egoísta”

Conta-se que, nos primeiros séculos da era Cristã, houve uma discussão violenta no Senado Romano. Como é sabido, quando os filhos da loba anexavam ao seu império algum povo, importavam para si os deuses dos vencidos, porque, supersticiosos, temiam que alguma das divindades se voltasse contra eles. Debateram, então, os grandes da urbi sobre o Deus dos cristãos: deve-se incluí-lo no rol da adoração romana, ou não? Santo Agostinho narra que os senadores não quiseram venerar o Deus cristão, pois este era um Deus “egoísta” que não permitia compartilhar culto com outras crenças.

O que diz o 1º Mandamento?

O fato ilustra bem o conteúdo da primeira obrigação do decálogo. Durante a sua vida terrena, Nosso Senhor Jesus Cristo deixou clara sua formulação: “Amarás o Senhor teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento” (Mt 22,37). Na verdade, Ele repetia aquilo que já fora anunciado ao povo eleito: “Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Os mandamentos que hoje te dou serão gravados no teu coração” (Dt 6,4-6).

Por que devemos amar a Deus?

Em primeiro lugar, por um dever de justiça. Se nós devemos respeito aos nossos pais, aos nossos professores, a uma autoridade civil ou religiosa, porque, em alguma medida, são superiores a nós, muito mais temos de reverenciar a Deus por ser Ele o supremo Bem.

Depois, por um dever de gratidão. Deus nos ama a tal ponto, que morreu por nós na Cruz. Todo amor deve ser retribuído. Devemos ser gratos a Deus.

Como devemos amar a Deus?

A definição é clara: “de todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças”. Isso significa que o amor a Deus não pode ser um amor parcial.

A Deus se deve dar TUDO, sem restrições. E se está dito “com todas as tuas forças”, quer dizer, que esta obrigação requer esforço, é difícil. Por isso, é fundamental o auxílio da graça, a qual obtemos por meio da oração.

Quais os pecados contra o 1º Mandamento?

O Catecismo é objetivo: superstição, idolatria, adivinhação, magia, irreligião e ateísmo são pecados contra o 1º Mandamento. (Cf. CCE 2110-2132)

Esses pecados, porém, assim enunciados, podem parecer distantes do nosso cotidiano, pois, afinal de contas, quase todo mundo acredita em Deus e ninguém mais adora imagens, como Baal ou Fegor.

Na realidade, é muito fácil cometer uma falta contra o primeiro mandamento. Por exemplo, se é verdade que não existem mais templos a Astarte e ninguém se diz politeísta, é ainda mais certo que os deuses da sociedade contemporânea são mais numerosos do que os da Antiguidade. E a estes deuses, todos queimam um ou mais grãos de incenso. Assim se expressa o Catecismo:

“A idolatria não diz respeito apenas aos falsos cultos do paganismo. Continua a ser uma tentação constante para a fé. Ela consiste em divinizar o que não é Deus. Há idolatria desde o momento em que o homem honra e reverencia uma criatura em lugar de Deus, quer se trate de deuses ou de demónios (por exemplo, o satanismo), do poder, do prazer, da raça, dos antepassados, do Estado, do dinheiro, etc” (CCE 2113).

Presta “idolatria” formal aquele que se ocupa excessivamente do dinheiro e do prazer.

Continua o Catecismo:

“Todas as práticas de magia ou de feitiçaria, pelas quais se pretende domesticar os poderes ocultos para os pôr ao seu serviço e obter um poder sobrenatural sobre o próximo – ainda que seja para lhe obter a saúde – são gravemente contrárias à virtude de religião. Tais práticas são ainda mais condenáveis quando acompanhadas da intenção de fazer mal a outrem ou quando recorrem à intervenção dos demónios. O uso de amuletos também é repreensível. O espiritismo implica muitas vezes práticas divinatórias ou mágicas; por isso, a Igreja adverte os fiéis para que se acautelem dele. O recurso às medicinas ditas tradicionais não legitima nem a invocação dos poderes malignos, nem a exploração da credulidade alheia” (CCE 2117).

Como os Santos amam a Deus

Como a doutrina dificilmente arrasta à prática da virtude, propomos o exemplo de um Santo. Quando o amor é verdadeiro, ele está disposto a tudo pelo amado.

Certa vez, os hereges cátaros, sempre prontos a atuar com violência, interrogaram São Domingos de Gusmão: se fosse preso e condenado à morte por eles, como preferiria ser supliciado?

Respondeu o Santo: “Matai-me lentamente, porque assim eu poderei dar mais glória a Deus, e provar por mais tempo meu amor a Ele”.

Isso significa que São Domingos amava a Deus acima de todas as coisas. Seu bem-estar e sua saúde – essas divindades contemporâneas – pouco importavam. Se era para amar a Deus, tudo isso é nada.

Amar a Deus até o exagero

Certo dia, numa das vastas praças públicas de Alexandria, uma mulher se apresentou, tendo nas mãos uma vasilha de água e uma tocha acesa. Como os presentes perguntassem que fazia ali, ela respondeu:

– Com esta tocha, eu queria queimar o céu e com esta vasilha de água, apagar o fogo do inferno a fim de que os homens não amassem a Deus somente pela esperança em uma recompensa ou pelo temor de um castigo, mas unicamente por puro amor e por causa de suas adoráveis perfeições.

Se isso parece exagero, lembremo-nos do que disse São Julião Eymard: “O que é o amor senão o exagero?”

Esta é a fórmula para quem quer amar a Deus de verdade.

Por Paulo da Cruz


[1] Baseado em: Dictionnaire d’exemples, Tome I. Paris: Établissements Casterman.

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