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Dormindo com o inimigo

Os casamentos estão durando cada vez menos, e o número de divórcios e de violência doméstica se acentuando cada vez mais.

Foto: Wikipedia

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Redação (13/06/2022 10:07, Gaudium Press) Depois de passarmos um longo período vendo e ouvindo notícias sobre a invasão da Rússia à Ucrânia, o assunto cansou. Embora a guerra não tenha terminado, passamos a ser bombardeados por notícias de uma guerra doméstica, entre o ex-casal de atores Johnny Depp e Amber Heard. A briga milionária em ações recíprocas de difamação e calúnia tomou vulto e foi apresentada em cada detalhe, para quem não tem mais o que fazer do que ficar acompanhando esse tipo de futilidade.

Depois de seis semanas de depoimentos em um tribunal na Virgínia, Estados Unidos, onde foram expostos detalhes sórdidos do relacionamento do casal, o júri do caso de difamação entre os atores chegou a um veredito. Digamos que os dois foram considerados culpados, embora Amber mais culpada que Depp. O ator será indenizado pela atriz em US$ 15 milhões (R$ 72 milhões) e pagará a ela uma indenização de U$ 2 milhões (R$ 10 milhões).

Como o escabroso assunto deu bastante Ibope ou, em linguagem atualizada, gerou muitas “curtidas”, o tema permanece em destaque, com a troca de figurantes. Agora é a vez do ator Brad Pitt processar a sua ex-mulher, Angelina Jolie, por ela ter vendido, sem avisá-lo, 50% de sua participação no Chateau Miravalda, vinícola francesa do casal, onde oficializaram a sua união em 2014. O pacto nupcial previa que nenhum dos dois podia vender a sua metade sem o consentimento do outro, mas parece que Jolie descumpriu o acordo.

Rompido um relacionamento conjugal

A intenção aqui não é escrever um artigo para disseminar fofocas do mundo da fama, mas chamar o leitor a uma reflexão séria sobre esse algo que acontece com uma frequência muito maior do que imaginamos. Rompido um relacionamento conjugal, duas pessoas que trocavam juras de amor passam a agir com requintes de crueldade para ferir ou destruir aquele que se tornou o grande inimigo.

Mentiras, acusações vergonhosas, falsos testemunhos, alienação parental, extorsão, chantagem, difamações, exposição das fragilidades e da intimidade do outro são coisas comuns em tribunais não tão famosos e em ações de menor monta que as ações milionárias dos artistas. Virou lugar-comum homens que não aceitam o fim dos relacionamentos agredirem fisicamente e até mesmo matarem aquelas a quem supostamente amavam. Sobre isso vemos notícias todos os dias.

Eu presenciei dois casos, em épocas e locais diferentes, de ações que parecem bobas, mas que tiveram sérias consequências emocionais. Em um deles, a mulher jogou fora objetos caros ao marido, entre eles um par de tênis com o qual ele praticava esportes desde a adolescência. Tênis velhos, mas que para ele tinha um valor sentimental muito grande e que levou-o a um total estado de desespero.

No outro, a ex-mulher doou o cachorro do marido. Como o homem se mudou para um lugar que não tinha espaço para o cão, um pastor alemão de uns seis anos de idade, ele o deixou com a esposa até arrumar um lugar para abrigar o animal. Porém, quando voltou para buscá-lo, ela o tinha doado e, mesmo diante da insistência do marido, recusou-se a revelar para quem tinha doado, e o cão nunca foi encontrado pelo homem. O mais provável é que ela o tenha abandonado em algum lugar e não doado.

E por falar em cachorro, têm-se tornado comum também as brigas ou acordos pela guarda compartilhada de bichos de estimação, mostrando que – sem querer destratar os animais – eles têm tido um destaque cada vez maior na vida das pessoas, importando mais que os seres humanos.

Banalização do divórcio

Não faz diferença se o fim do casamento e as brigas judiciais são entre astros de Hollywood ou entre o Zé das Couves e a Dona Maria, a questão é que os casamentos estão durando cada vez menos, o número de divórcios e de violência doméstica se acentuando cada vez mais e, em vez de príncipes e princesas encantadas, as pessoas percebem que estão dormindo com o inimigo.

Há poucos dias, foi noticiado que o Brasil bateu recorde no número de divórcios em 2021, com 80.573 separações. E, apenas nos primeiros quatro meses de 2022, já havia o registro de 17.013 divórcios consumados. O que antes era um processo relativamente complicado, com o avanço cibernético se tornou muito simples e as separações podem ser assinadas virtualmente. Na internet, já podem ser encontrados anúncios desse tipo: “Quer se divorciar já? Não ir ao fórum, nem encontrar a outra parte? Quer se divorciar agora? Tire suas dúvidas com um especialista! Divórcio 100% online, com certificado digital” Banalização maior do que esta, de um assunto tão sério, não pode haver.

Isso só demonstra o que os homens fizeram do tão sagrado Sacramento do Matrimônio, instituído por Deus no Antigo Testamento: “O homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne.” (Gn 2, 24) e corroborado por Nosso Senhor Jesus Cristo: “Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe.” (Mt 19, 6).

Implantação do divórcio no Brasil

O divórcio foi instituído oficialmente no Brasil com uma emenda constitucional em 28 de junho de 1977. Anteriormente, houve a instauração do desquite, que permitia a separação, mas não dava direito aos ex-cônjuges de se casarem novamente. Com a instituição do divórcio, as pessoas podem se separar e se recasar quantas vezes quiserem, sem qualquer obstrução judicial. Antes, parece até que isso é estimulado.

Muito antes da implantação do divórcio, Dr. Plinio Corrêa de Oliveira, uma das personalidades de maior relevo que este país já conheceu, falava contra a ameaça oferecida por ele. Em 1966, o então ministro do Supremo Tribunal Federal, Pedro Chaves, abriu uma sessão solene para tratar sobre o divórcio, fazendo uma tocante apresentação do Dr. Plínio, orador convidado a discorrer sobre o tema controverso que agitava a sociedade da época.

Permito-me reproduzir as palavras usadas pelo ministro para abrir a sessão e apresentar o palestrante, porque elas definem a seriedade com que a questão do divórcio era tratada e sobre quem era o Dr. Plinio, dimensionando a importância das palavras que ele proferiria naquela noite; palavras que fazem eco ainda hoje, quase 60 anos depois, e continuarão fazendo, diante da decadência crescente que a instituição do divórcio provocou.

“Eu tenho, neste momento, a insigne honra de declarar aberta esta sessão. Devia fazê-lo de pé e a alma de joelhos em homenagem à vibração cívica de São Paulo ante a ameaça que paira sobre a família brasileira, numa hora conturbada em que a subversão pretende atacar os alicerces da sociedade. Mas vamos antes ouvir a palavra do Doutor Plinio Corrêa de Oliveira, um nome que é um relicário das mais altas virtudes cívicas, morais e intelectuais do nosso tempo; um homem a quem a Pátria já tanto deve e que ainda mais vai dever.”

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Consequências do divórcio

Dr. Plinio fez uma longa e admirável explanação, referindo-se ao divórcio como uma coisa monstruosa. Entre os seus muitos ensinamentos, naquela noite memorável, eu gostaria de destacar um breve resumo sobre a sua visão das consequências do divórcio sobre a família, os indivíduos – sobretudo os filhos – e, consequentemente, sobre a sociedade:

“A família assim retalhada, costurada e descosturada, ao sabor de paixões, ao sabor de impulsos, ao sabor de caprichos, de circunstâncias várias, esta família assim é como uma célula que se corta, é como um ser vivo que se corta; se produzir frutos, serão frutos amargos, minguados e temporãos. Dela não pode sair esta rica vida individual que é a condição para a vida coletiva, para a vida da sociedade, de maneira que ela não seja massa, mas seja verdadeiramente um povo. Ou o divórcio e a morte, ou a indissolubilidade conjugal e a vida da sociedade.”

Durante anos, houve um grande movimento contra o divórcio, encabeçado por entidades católicas, mas, infelizmente, o divórcio saiu vencedor e os seres humanos, perdedores, com consequências amargas que se tornam mais evidentes a cada dia. O que hoje é chamado de liberdade e modernidade, Dr. Plinio chamou de morte. E nós, hoje, lidamos com as consequências não apenas dessa morte, mas da putrefação ao ar livre desse cadáver insepulto.

Primeiro, veio a dissolução do casamento, o recasamento e hoje, uma nova onda de “evolução” se esforça para transformar o casamento naquilo que ele não é. Uma corrente que ganha forças a cada dia e vai distorcendo e destruindo o que Deus criou para a felicidade dos seres humanos, o bem-estar e a manutenção da sociedade.

O assunto é vastíssimo e eu poderia discorrer longamente sobre ele, mas a fim de não os cansar com este palavrório, quero encerrar este artigo dizendo que a razão de tantos divórcios, brigas e disputas como a dos famosos atores ou das pessoas anônimas é que a maioria desses casamentos não deveria ter ocorrido.

Juramento diante de Deus

O principal problema da sociedade atual não é as pessoas se divorciarem e sim, casarem-se inadvertidamente, porque, a boa parte dos casamentos que acaba em divórcio deveria ter sido ao menos melhor preparado. As pessoas se casam sem preparação, sem ter a necessária maturidade para vivenciar as alegrias, e também as dificuldades inerentes ao matrimônio, e fazem isso na Igreja, onde o casamento é indissolúvel.

Juram diante de Deus algo que, na maioria das vezes, sabem que não conseguirão cumprir e nem estão dispostas a isso. Não deu certo, separa, casa com outro, separa de novo e casa outra vez, quantas vezes for necessário. Mas, feito o juramento diante do altar, essa união é para sempre e a consequência do divórcio e das novas uniões é uma legião de adúlteros legitimados pelo Código Civil, que não tem nenhum poder sobre as leis soberanas de Deus e não pode transformar em virtude aquilo que Deus determinou como pecado.

Não podemos dizer que todos, mas a maioria dos problemas que enfrentamos hoje é fruto da legalização da separação e do divórcio, como tão bem enfatizaram o Dr. Plinio e seus pares nas décadas de 1960 e 1970. Caminha-se de mal a pior e as feridas disso, nos cônjuges que trocam de parceiros como trocam de automóvel ou de celular, e, principalmente, nos seus filhos, são cada vez mais profundas, mais fétidas e mais purulentas e, até onde o homem conseguirá chegar com a sua petulante ousadia só Deus é que pode saber.

Que Ele tenha misericórdia desta nossa “geração adúltera e pecadora” (Mc 8,38), e tão profundamente orgulhosa.

Por Afonso Pessoa

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