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Qual o significado do Domingo de Ramos? Origem e simbolismo

No domingo anterior à festa da Páscoa da Ressurreição do Senhor, a Igreja celebra o Domingo de Ramos, recordando a entrada triunfal de Nosso Senhor Jesus Cristo em Jerusalém. O que significa essa festa?

No domingo anterior à festa da Páscoa da Ressurreição do Senhor, a Igreja celebra o Domingo de Ramos, recordando o a entrada triunfal de Nosso Senhor Jesus Cristo em Jerusalém.

Redação (Terça-feira, 31-03-2020 [atualizado: 01-04-2020] Gaudium Press) O Domingo de Ramos é a festa cristã que comemora a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, antes de sua Paixão. Nesse sentido, o Domingo de Ramos (Dominica in palmis ou Dies palmarum, em latim) é também chamado de “Domingo da Paixão” ou antigamente sexto e último domingo da Quaresma, como uma espécie de ponte para o início da Semana Santa.

Outros nomes para o Domingo de Ramos

Essa festa do Domingo de Ramos se origina no século VII, cujo nome tem origem nos escritos de Santo Isidoro de Sevilha (+636), que o denominou “grande dia”. Entretanto, há registros de procissões de Domingo de Ramos a Jerusalém desde o século IV.(1)

Essa solenidade também é conhecida como “Páscoa Florida” (“Pascha floridum” ou “Pascha florum”), em contraste com a Páscoa propriamente dita, que é chamada “frutífera” (“Pascha fructiferum”).(2) Na Inglaterra a festa é conhecida como “Flower Sunday” e na Alemanha como “Blumensonntag” ou “Blumentag”.

A Semana Santa é iniciada com o Domingo de Ramos, no qual se recorda a entrada triunfante de Nosso Senhor Jesus Cristo em Jerusalém, seis dias antes de sua Paixão.

Como no dia de Domingo de Ramos ocorria a preparação dos catecúmenos para o Batismo na Vigília Pascal, a festa também ficou conhecida como “Pascha competentium” ou “Pascha petitum” (que significa “Páscoa dos apropriados” ou “Páscoa dos que pedem [o Batismo]” em tradução livre). Essa expressão faz referência ao hábito na Igreja galicana de se exercitar nesse dia na recitação do Credo (traditio symboli) para proclamá-lo no Sábado Santo seguinte.

Mais tarde, a Festa dos Ramos foi ainda denominada Dominica indulgentiae (que significa “Domingo do perdão”), pois era nesse dia que realizava penitência pública para expiar os pecados (Lecionário de Würzburg e Sacramentário de Praga).

Um nome curioso para esse domingo é “Dominica capilavium”, “Capitilavium” ou “capita lavantium”, que significa Domingo em que se lava a cabeça. Tratava-se do ato realizado de se purificar das impurezas com vistas à unção batismal na vigília pascoal.(3) Esse costume se iniciou na Espanha.(4)

Significado de Domingo de Ramos

De acordo com a narração evangélica, durante essa entrada gloriosa de Jesus na Cidade Santa, o povo estendia suas roupas, bem como ramos pela estrada. Diz o Evangelho de São Mateus: “A numerosa multidão estendeu suas vestes pelo caminho, enquanto outros cortavam ramos das árvores e os espalhavam pelo caminho” (Mt 21,8). As folhagens são descritas como “ramos de palmeira” pelo Evangelista João (Jo 12,12-13). De acordo com a tradição, supõe-se que a entrada tenha se dado através da Porta Dourada de Jerusalém.

Esses ramos estendidos pelo povo evocam a Festa das Tendas (Succot) ou Festa dos Tabernáculos, de acordo com a explicação do Levítico (23,40): “No primeiro dia tomareis frutos formosos, ramos de palmeiras, ramos de árvores frondosas e de salgueiros das ribeiras, e vos regozijareis durante sete dias na presença de Iahweh vosso Deus”.

A Semana Santa é iniciada com o Domingo de Ramos, no qual se recorda a entrada triunfante de Nosso Senhor Jesus Cristo em Jerusalém, seis dias antes de sua Paixão.

A Festa dos Tabernáculos recorda os 40 anos que os israelitas permaneceram no deserto após o êxodo da escravidão no Egito. A instrução do Antigo Testamento ainda determinava que a festa deveria se realizar durante sete dias por ano e a sua data ocorreria no sétimo mês (Lv 23,41). Durante sete dias seria necessário habitar nessas cabanas feitas de folhas de palmeira.

Data do Domingo de Ramos. Quando?

Entre os textos evangélicos, somente o de São João testemunha que essa entrada de Jesus ocorreu numa data precisa, isto é, no “dia seguinte” (Jo 12,12) ao episódio da unção de Betânia (Jo 12,1-11), que se deu “seis dias antes da Páscoa” (Jo 12,1). Portanto, o Domingo de Ramos ocorreu propriamente cinco dias antes da Páscoa (Dia 10 de Nisan no calendário judaico). Até hoje o Domingo de Ramos é calculado a partir da data da Páscoa, que é sempre variável (baseada no calendário lunar).(5) Por exemplo, em 2020 ocorrerá em 12 de abril; em 2021 em 28 de março e em 2022 em 10 de abril.

A origem do Domingo de Ramos

Os ramos da festa do Domingo de Ramos evocam, como se disse, a Festa das Tendas (Succot). Durante essa festa judaica, se erigiam tendas elaboradas com alguma planta, preferencialmente ramos de palmeiras, muito abundantes na Terra Santa. De fato, a palmeira era conhecida como a rainha das árvores (talvez por seu formato). De fato, o formato de seus ramos tem também o sentido de representar a vida como que escachoando do centro.

Na própria representação da Judeia capturada após a destruição do segundo Templo, ela é representada por uma mulher sentada sob uma palmeira. Uma cidade famosa da Judeia, Jericó, junto às margens do Rio Jordão, tem o significado de “cidade da palmeira”. Contudo, os ramos provavelmente foram colhidos do Monte das Oliveiras.

Simbolismo do Domingo de Ramos

O verdejante dessas palmas (ou ramos) do período em que ocorreu o Domingo de Ramos significa a vitória e o júbilo (simbolismo comum mesmo entre os pagãos), de acordo com o que se pode interpretar do Apocalipse: “Depois disso, eis que vi uma grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé diante do trono e diante do Cordeiro, trajados com vestes brancas e com palmas na mão” (Ap 7,9). As palmas logo se tornaram símbolo da vitória da fé daqueles que sofriam o martírio.

No domingo anterior à festa da Páscoa da Ressurreição do Senhor, a Igreja celebra o Domingo de Ramos, recordando o a entrada triunfal de Nosso Senhor Jesus Cristo em Jerusalém.

Também nos livros de Judith e II Macabeus é possível encontrar a referência dos ramos à felicidade (Jd 15,12; 2Mac 10,17). Destarte, Simão Macabeu entra na cidade de Jerusalém “entre aclamações e (ramos de) palmas” (1Mac 13,51), como demonstração simbólica de homenagens. Com efeito, antigamente se premiava as vitórias em jogos com palmas (ou louros).

O simbolismo da “Páscoa Florida” (outro nome, como vimos, para Domingo de Ramos) é que essa festa convida para que a nossa vida “floresça”, ou seja, que façamos uma “procissão” em direção à virtude.(6)

Já as vestes lançadas ao chão simbolizam a humildade e a veneração, pois a multidão não possuía tapetes para oferecer, como seria conveniente para a passagem de um rei. O jumentinho e as vestes (Mt 21,7) colocadas sobre o animal significam essa realeza de Cristo.

Festa da alegria?

De acordo com Flávio Josefo, a alegria deveria ser a característica da festa dos tabernáculos (Ant. Jud., VIII, 4,1; XV, 3,3). Esse caráter festivo é também essencial para o Domingo de Ramos na liturgia católica. Isso é manifestado pelos felizes cantos de “hosanas” (que significa algo como “viva” ou ainda “rogo que me ajudes” em português; em inglês seria algo análogo ao “God save the King”). Nesse sentido, a festa também é conhecida como “Dominica Hosanna”.

A aclamação da multidão tem também um sentido messiânico: “Bendito o que vem em nome do Senhor” (Mt 21,9), expressão hoje transposta em forma de cântico pela liturgia.

Hoje em dia, na liturgia católica, se lê a Paixão de Cristo de um dos Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas). Não seria uma contradição com tanta alegria manifestada pela festa? Assim, qual a mensagem que a liturgia de Domingo de Ramos traz para nós?

A Semana Santa é iniciada com o Domingo de Ramos, no qual se recorda a entrada triunfante de Nosso Senhor Jesus Cristo em Jerusalém, seis dias antes de sua Paixão.

Na realidade, o triunfo manifestado pela entrada de Jesus só pode conduzir à cruz, que o transportará, por sua vez, à vitória e ao pleno triunfo final (per crucem ad lucem). Essa atitude “torna a alma equilibrada, calma e serena, e dá forças para encarar a morte com confiança, sabendo que no outro lado estará Aquele que por nós morreu na Cruz, pronto a nos receber”.(7) Não existe melhor lição que podemos extrair do Domingo de Ramos.

Por Padre Felipe de Azevedo Ramos, EP

Citações:

1 – MURRAY, Peter; MURRAY, Linda. The Oxford Companion to Christian Art and Architecture. Oxford: New York, 1996, s.v. “palms”, p. 365.
2 – RICARDO DE SÃO VITOR. Sermo in ramis palmarum (PL 196, 1060B).
3 – FORCELLINI, E. – al. Lexicon totius latinitatis [repr.], Patavii 1940, v. 1, s.v. capilavium.
4 – Enciclopedia Cattolica. Città del Vaticano, Ente per l’Enciclopedia cattolica e per il Libro cattolico, 1952, v. 9, s.v. “Domenica delle palme”, p. 653.
5 – No site da Astronomical Society of South Australia há um sumário de como calcular a data da Páscoa: https://www.assa.org.au/edm
6 – Enciclopedia Cattolica. Città del Vaticano, Ente per l’Enciclopedia cattolica e per il Libro cattolico, 1952, v. 9, s.v. “Domenica delle palme”, p. 653
7 – CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano; São Paulo: Libreria Editrice Vaticana; Instituto Lumen Sapientiae, v. 1.

Obras consultadas:
Catholic Encyclopedia (1913).
CHICOTEAU, Marcel. The Palm Symbol in Liturgy. Liverpool: Rockliff Brothers, 1946.
CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano; São Paulo: Libreria Editrice Vaticana; Instituto Lumen Sapientiae, v. 1.
Enciclopedia Cattolica. Città del Vaticano, Ente per l’Enciclopedia cattolica e per il Libro cattolico, 1952, v. 9.
FORCELLINI, E. – al. Lexicon totius latinitatis [repr.], Patavii 1940, v. 1.
MURRAY, Peter; MURRAY, Linda. The Oxford Companion to Christian Art and Architecture. Oxford: New York, 1996, s.v. “palms”, p. 365-366.
NOCENT, Adrien. The Liturgical Year. Collegeville, Minn: Liturgical Press, 1999.
RICARDO DE SÃO VITOR. Sermo in ramis palmarum (PL 196, 1059-1067).

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