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Disposto a fazer qualquer coisa pela paz?

Em todos os quadrantes do mundo, sentem-se os refluxos da guerra russo-ucraniana; o que nos impele a pensar outra vez mais em seus motivos e, também, em alguma solução.

Redação (16/03/2022 10:19, Gaudium Press) A situação do mundo avança para uma instabilidade cada vez maior. No campo civil, o conflito russo-ucraniano tem mexido e remexido as contabilidades, os investimentos e os bolsos. Em terras tão distantes da Rússia quanto a nossa, o preço do petróleo, por exemplo, chega a excedentes nunca vistos – são os indesejados refluxos da economia mundial. No campo eclesiástico, abundam as notícias que não merecem ser noticiadas, e delas nos abstemos.

Com efeito, a fonte cristalina de onde deviam manar as novidades acerca da fé, dos bons princípios, do convite à conversão – tão caro ao tempo litúrgico em que nos situamos – parece fechada. Assim, nossas vistas são quase que obrigadas a se convergirem para o drama em que atualmente se encontram as grandes nações do mundo: o drama da paz!

Destarte, desde finda a 2ª Guerra Mundial até nossos dias, a paz tem sido reclamada pelas potências civis e religiosas; e com razão, porque as consequências de qualquer guerra são sempre desastrosas, e uma pessoa em posse de boa sanidade mental almeja a ordem, a paz.

Entrementes, assim como um edifício de gelatina que quanto mais cresce, mais tende a ruir, apesar das belas cores que possa externar, a sociedade contemporânea vem forjando para si uma mole de paz cujo desmoronamento se vê iminente.

Cabe notar que o erro não está na escolha da paz, que é um bem, mas nos meios pelos quais se quer obter a paz, que é, antes de tudo, nos dizeres de Santo Agostinho, a “tranquilitas ordinis”;[1] bem entendido, da ordem moral, de uma vida levada, pelo menos, de acordo com a lei natural, para não dizer concorde ao decálogo cristão.

Ora, se um conjunto de homens, ou cada homem em sua individualidade, não se preocupa em conquistar a paz interior que significa viver sem conflito com Deus, sem duelo entre criatura e Criador, como poderá pretender uma ordem mundial? É utópico.

A favor ou contra a guerra

Nas últimas décadas, o edifício de gelatina tremeu muitas vezes e agora está se descompondo. Por isso, os governantes ocidentais de alto gabarito fazem um ingente esforço na promoção de certa “convergência tácita pela paz”; visto que a pólvora do comunismo russo – apesar das décadas transcorridas – não foi suficientemente molhada por nenhum país de aquém da cortina de ferro ou, mesmo, para além dela, quando derrubada.

Dessa maneira, o medo da guerra, aos olhos da grande maioria mundial, foi o argumento de peso em favor da amálgama entre os mais variados países, regimes e, helás, religiões.

É, pois, como decorrência dessa confusão entre os países, regimes e religiões que surge a dificuldade de elencarmos, hoje em dia, quais são os reais interesses daqueles que se decidem a tomar partido a favor, ou contra, a Rússia – pela paz?

Se contemplada de um lado, ela parece mostrar na pessoa de seu líder um são conservadorismo, bem como uma religiosidade firme – haja vista quanto tem a Igreja Ortodoxa apoiado a guerra. Contudo, se analisada por outro viés, veremos o quanto o mais perigoso veneno comunista encontra-se inoculado nesse gigante que visa deglutir a Europa, a fim de instalar, também nela, seu modus vivendi.

Como bem prognosticou certo autor de renome e probidade,[2] “se os interesses do comunismo são sempre claros, os seus manejos são cada vez mais obscuros, e isto por uma imperiosa necessidade tática. Outrora, o comunismo se caracterizava pela brutalidade tanto na pregação ideológica desabrida como na ação revolucionária violenta”.

Entretanto, como os resultados lhe eram pífios, optaram por mudar: criar uma atmosfera de ordem, progresso e moralidade, – sobretudo quando o Ocidente desce a passos largos tal rampa – como método mais eficaz para, de modo imperceptível e profundo, espalhar o comunismo pelo globo, ou, ao menos, desfazer a antipatia que ele causara outrora.

É nessa toada que Putin vem, há anos, orquestrando a influência russa entre Oriente e Ocidente: a um só tempo, agressivo e sutil, penetrante e versátil, atraente e perigoso.[3]

Domínio comunista

Mas, afinal, qual o resultado de todo esse molejo? A guerra! Ora, a guerra é bem o contrário, é o oposto, de todos os imperativos da caridade cristã e da verdadeira moral – e aqui reside o grande medo de desmascararem o comunismo, ou de o comunismo se desmascarar, não sei ao certo –, tornando-se patente sua profunda intenção e convicção: dominar o Ocidente, civil e religiosamente.

Fica evidente, portanto, que “as crises que abalam as sociedades humanas começam sempre por ser crises espirituais: os acontecimentos políticos e as convulsões sociais não fazem mais do que traduzir nos fatos um desequilíbrio cuja causa é a mais profunda”,[4] isto é, a fé.

E a fé do Ocidente, como está? Basta abrirmos as abas de qualquer noticiário sério para encontrarmos a resposta, se temos receio de nos indagarmos a nós mesmos… E os fatos advêm como consequência: “talvez por conta das frequentes derrotas que as pautas ligadas a valores tradicionais vêm acumulando em nações democráticas, ganha força a tentação de se tolerar regimes totalitários, contanto que garantam a manutenção de uma ordem social moralmente mais íntegra. (sic!)”[5]

Fato é que a invasão na Ucrânia não deixa de ser a abertura de portas – ou melhor, o derrubamento de portas – do leste europeu rumo ao pretendido domínio comunista da Europa.

E a paz?

Mas até aonde se espera que cheguem as tropas russas? Às portas de Viena ou, pior, na “via della Concilliazione”?!

Quiçá, novos peregrinos quais outros hunos sejam os futuros ouvintes das pregações sobre a paz e a concilliazione.

De nossa parte cabe, pois, rezar por uma intervenção da Providência, cientes de que a única saída para a obtenção da ordem durável e segura é a prática da virtude, preço que devemos estar dispostos a pagar para a implantação da paz.

Bonifácio Silvestre


[1]Pax omnium rerum, tranquilitas ordinis — a paz é a tranquilidade da ordem”. (Cf. SANTO AGOSTINHO. De Civitate Dei. L.XIX, c.13, n.1. In: Obras. Madrid: BAC, 1958, v.XVI-XVII, p. 1398).

[2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Folha de São Paulo. 9 de janeiro de 1972.

[3] Para citar um exemplo, veja-se o recente estudo de Stephen Crowley sobre o campo financeiro russo, intitulado “Putin’s labor dilema”.

[4] ROPS, Daniel. A Igreja da Renascença e da Reforma, I. Quadrante: São Paulo, 1996, p. 106.

[5] Cf. http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/editoriais/putin-conservadores-e-falsos-profetas/?ref=escolhas-do-editor

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