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Diante do escândalo da Cruz, lembremo-nos da Transfiguração

No dia 06 de agosto, a Igreja comemora e revive pela Liturgia a festa da Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esta festa, tão bela quanto misteriosa em seus luminosos símbolos, é conhecida pelo público católico ao menos superficialmente, mas seu sentido profundo nos ensina como ser fiel no momento do escândalo da Cruz do Corpo Místico de Cristo.

Redação (05/08/2020 18:35, Gaudium Press) Quando nos referimos aos textos sagrados, daquelas palavras que não partem da vontade e da inteligência humana, precisamos ter temor e reverência. Se tens nas mãos a Bíblia, abre-a com respeito, lê-a com cuidado e medita-a com amor. Seu sentido profundo é negado aos céticos, como se suas páginas se esvaziassem repentinamente ao discernir as intenções dos corações, abandonando o possível leitor diante de algumas folhas amareladas.

O próprio Santo Agostinho em seu livro “Confissões” acusou-se de sua antiga ignorância, reconhecendo maior sabedoria e beleza nos textos dos clássicos do que nas simples – simplórias, diria o cético – passagens evangélicas.

Com espírito de piedade, portanto, façamos uma modesta consideração sobre o mistério que a Igreja nos apresenta para meditação neste dia 06 de agosto, festa da Transfiguração de Nosso Senhor.

Acepção de pessoas? Porque apenas Pedro, Tiago e João?

“Seis dias depois, tomou Jesus consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os aparte a um alto monte e transfigurou-se diante deles”. (Mt 17, 1.2)

O mesmo Deus que outrora, também no alto do monte, manifestou-se a Moisés e ao povo de Israel, circundado de nuvens negras e trovoadas, proibindo sob pena de morte que o povo se aproximasse, agora, no Thabor, não só mostra sua face, mas depois de revelar-se, “aproximou-se deles, tocou-os e disse-lhes: ‘Levantai-vos, não temais’”(Mt 17, 7). Com efeito, os apóstolos viram sua face divina e sua glória, ouviram a voz do Pai e foram consolados pela sua própria mão; estiveram em pé diante de Deus, como a um amigo.

 O fenômeno da Transfiguração, no qual o rosto de Nosso Senhor tornou-se luminoso e suas vestes refulgiram de alvura, foi, por assim dizer, milagre negativo: o Homem-Deus não ocultou a sua humanidade, mas sim, levantou levemente o véu de sua divindade. Esse fato deu-se no alto do monte Thabor diante de três apóstolos, escolhidos para aquele momento.

Como nos ensina a Tradição, uma das razões pela qual quis Nosso Senhor manifestar um pouco de sua glória foi para que, no momento do escândalo da Cruz, os apóstolos continuassem a crer na divindade daquele que veriam desfigurado e sem beleza (cf. Is 52, 14), mais parecendo um verme e não um homem (cf. Sl 22, 7).

Não os espíritos céticos, mas os corações reflexivos poderiam perguntar-se: sendo esta a intenção do Bom Pastor, por que não quis ele manifestar-se a todos os apóstolos e discípulos, ou mesmo a todo Israel, para que ninguém se escandalizasse?

Esta é uma das questões intrigantes e grandiosas desta maravilhosa cena. Talvez Cristo tenha querido indicar com isso, dentre outras coisas, que Deus tem predileções, como disse São João Crisóstomo: “Por que tomou consigo apenas estes? Porque eram superiores aos outros” (Cf. Homilia sobre o Evangelho de Mateus, 56, 1). E, assim, age sobre os eleitos de forma hierárquica, não revelando muitas vezes os critérios de seu amor que não faz acepção de pessoas. De fato, não age por egoísmo, mas por desígnios sapienciais que só a Ele pertence.

Desse modo, quando nos depararmos com qualidades de nossos circundantes no trabalho, no colégio, na vida de todos os dias, não devemos dar lugar à inveja, mas admiremos e reconheçamos a imagem deste Deus que distribui seus dons como quer e quando quer.

Os diversos mistérios da Transfiguração

Mas são infinitos os mistérios contidos na Transfiguração. Aparecem Moisés e Elias, um representando a Lei; o outro, os Profetas, para testemunhar a divindade de Cristo, aquela mesma divindade que Pedro, seis dias antes, como nos narra os Evangelhos, havia confessado. Para a mentalidade dos judeus, Moisés e Elias eram os maiores representantes da tradição, figuras simbólicas e extraordinárias. Eram as autoridades mais distinguidas do Antigo Testamento, que agora reconheciam a autenticidade e divindade do Novo. Mas o maior testemunho é o do próprio Deus, cuja voz se fez ouvir do meio das nuvens: “Este é o meu Filho caríssimo, ouvi-o”. (Mc 9, 7). Pedro, atemorizado e maravilhado, “respondeu – no sentido aramaico da palavra que significa também tomar a palavra – “Mestre, é bom que estejamos aqui: façamos três tendas, uma para ti, outra para Moisés, outra para Elias” (Cf. Mt 17, 4). A intervenção impetuosa de Pedro não deixa de ter seu sentido. Entretanto, ela não foi atendida, a nuvem se foi e com ela Moisés e Elias.

Diante da grandeza do acontecimento, “os discípulos caíram de bruços e tiveram grande medo” (Cf. Mt 17, 6). Porém, Deus ocultou novamente sua temível grandeza; aproximou-se, tocou-os com a mão e disse: “Levantai-vos, não temais”. Então, não viram mais ninguém, mas “apenas Jesus” (Cf. Mt 17, 8).

Os três apóstolos desciam do monte, emudecidos ainda pelo mistério, mas prontos para narrar o que viram e ouviram, assim que a primeira palavra conseguisse saltar de seus lábios e escoar o discurso. Talvez já gesticulavam a primeira palavra quando Nosso Senhor os advertiu: “Não digais a ninguém o que vistes, até que o Filho do homem ressuscite dos mortos”. À imensa alegria que sentiam, acrescentou-se a dor do segredo. Apenas comentavam entre si o que poderia significar: “esse ‘ressuscitar dos mortos’” (Cf. Mc 9, 10).

Não vos escandalizeis com a crucifixão: houve momentos de Transfiguração no passado da Santa Igreja

A Igreja é uma instituição divina. E, sendo ela o Corpo Místico de Cristo, sua divindade participa, de certa maneira, da própria divindade de Nosso Senhor. Entretanto, nem sempre esta sublime verdade é clara e evidente, como o foi a divindade de Cristo aos Apóstolos sobre o monte Thabor.

Chegaram os dias de sua Paixão e o Filho do Homem foi tomado “como um malfeitor” (Cf. Mc 15, 28; Is 53, 12), condenado pelo Sinédrio e crucificado entre os ladrões.

A imagem de sua face gloriosa deveria ter ficado gravada nos corações dos apóstolos a fim de que, no momento da dor e da aparente contradição, eles fossem verdadeiros sustentáculos na fé para os outros discípulos.

Nós, católicos, devemos ser, “contra toda humana esperança” (Cf. Rm 4, 18), apóstolos da divina imortalidade da Santa Igreja, confessores da Fé na promessa de Nosso Senhor. Para isso, em nossos corações, deve estar viva a imagem da Igreja Transfigurada, que brilhou nos Padres da Igreja, coruscou nos concílios ecumênicos, combateu as heresias, ensinou e guiou profeticamente os povos e refulgiu na santidade de seus membros ao longo de toda a História.

Devemos ter Fé de que, a alguém na Terra, Deus revele novamente sua face, com uma nova Graça, um novo sopro, e ter a esperança de que estes poucos eleitos, cumprindo a missão de Pedro, Tiago e João, confirmarão na Fé a seus irmãos, pois, “se aqueles dias não fossem abreviados, ninguém se salvaria; mas, por causa dos eleitos, serão abreviados.” (Cf. Mt 24, 22).

Por Gabriel Borges

Bibliografia:

 

LA BIBBIA COMENTATA DAI PADRI, Nuovo Testamento. Matteo 14-28. Roma: Città Nuova Editrice. 2006. p. 71.

TUYA, Manuel de. Biblia Comentada II, Evangelios. Madrid: B.A.C. 1964. p. 390-394.

AGOSTINHO, Santo. Las Confesiones. Edición crítica. Angel Custodia Vega. 7. e.d. Madrid: B.A.C. 1974.

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