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Cuidado para não causar tropeços…

“É inevitável que haja escândalos, mas ai daquele que os causar!” (Lc 17, 1).

Redação (10/09/2021 12:28, Gaudium Press) Ao lermos a vida de Nosso Senhor nos Evangelhos, inúmeras vezes O encontramos fazendo uso da expressão “Ai!”. Sabemos pelos estudos das Sagradas Escrituras, que quando o Divino Mestre serve-se de tão simples palavra, está ditando uma sentença e censurando determinada atitude como, por exemplo, quando disse: “Ai daquele que causar escândalo!”.

A palavra escândalo provém do latim, scandalum, e significa tropeço ou, em outras palavras, aquilo que é causa de erro ou de pecado.[1]

Conforme o magistério da Igreja nos ensina, escândalo é a atitude ou o comportamento que leva outrem a praticar o mal. Pois aquele que escandaliza torna-se o tentador do próximo, atenta contra a virtude e a retidão e pode arrastar o seu irmão à morte espiritual.[2]

As diferentes gravidades do escândalo

O escândalo possui diferentes gravidades. Com efeito, São Tomás de Aquino na Suma Teológica esclarece que, em primeiro lugar, tal ação é sempre pecado da parte daquele que a pratica, seja porque a obra é pecaminosa, ou ainda porque possui a aparência de pecado.[3] Disso deduzimos a razão pela qual Nosso Senhor dá tanta importância a tal atitude, a ponto de lançar a seguinte imprecação sobre quem a pratica: “Melhor seria que se lhe atasse em volta do pescoço uma pedra de moinho, e que fosse lançado ao mar!” (Lc 17, 2).

No caso de tal atitude provir de um ato pecaminoso, torna-se muito clara aos olhos dos circunstantes, e até mesmo a consciência acusa a quem pecou. Entretanto, cabe nos determos no segundo caso enunciado pelo Doutor Angélico, isto é, quando o mal está na aparência da ação, pois, em tal circunstância, o escândalo torna-se claro para todos, mas nem sempre para aquele que o cometeu.

É o caso, por exemplo, daqueles que propagam modas desonestas. Há, é verdade, aqueles que as aceitarão e as louvarão. Mas, isso pelo fato de já terem trabalhado suas consciências a longo prazo aceitando este mal, e fazendo disso um “bem” para si.

Contudo, sem a menor sombra de dúvida, também existem as almas retas que não cederão diante de tais modas e recriminam tal atitude, por terem visto nela uma ocasião de queda ou tropeço. E, neste caso, aquele que foi o instrumento de tal difusão comete o escândalo, por mais que não tenha a intenção de fazê-lo.

Ora, segundo a sã doutrina, a gravidade do ato será julgada de vários modos: Primeiramente, se pela ação ou até mesmo por omissão conduzir deliberadamente o outro a uma falta grave,[4] porquanto do contrário será pecado venial.[5]

Em segundo lugar, a autoridade dos que o causam ou a fraqueza dos que o sofrem o agravam ainda mais. Daí dizer o Divino Mestre “Ai daquele que escandalizar a um desses pequeninos…” (Mt 18,6).

Por último, e quiçá o mais importante, sua gravidade atinge um paroxismo quando é cometido por aqueles que, por natureza ou função, devem ensinar e educar os outros.[6] E, de que modo essas autoridades podem escandalizar? O próprio Catecismo da Igreja Católica nos responde: “pelas leis ou pelas instituições, pela moda ou pela opinião”.[7]

Entrementes, neste século em que tanto se propaga o pecado, e em que os escândalos são praticados a todo momento, qual deve ser a nossa atitude de filhos da Santa Igreja? Contemporização? De nenhum modo!

Já Santo Agostinho no século V aconselhava: “Quando vires que muitos não só fazem essas coisas, mas também tratam de se justificar e aconselhar aos demais a obrar de igual modo, mantém-te firme na prática da Lei de Deus e não sigas a esses prevaricadores. Certamente, não serás julgado segundo o parecer deles, mas sim conforme a Lei de Deus”.[8]

Medir todas as consequências de todos os nossos atos é evidentemente impossível – sobretudo porque a grande maioria delas se dão no mundo sobrenatural, aos pés de Deus.

Ora, se o Criador as vê, não há como ignorá-las, pois serão usadas contra nós ou a nosso favor no último dia. Assim, seguindo o conselho do hiponense, jamais cedamos diante de tais atitudes, sem nos preocuparmos com a opinião alheia, pois não seremos julgados segundo elas, mas sim pelo Supremo Juiz.

Por Guilherme Maia


[1] Cf. CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Rio de janeiro: Lexikon, 2010, p.  257.

[2] Cf. CCE 2284.

[3] Cf. S. Th. II-II, q. 43, a. 2, c.

[4] Cf. CCE 2284.

[5] Cf. S. Th. II-II, q. 43, a. 4, c.

[6] Cf. CCE 2285.

[7] Cf. CCE 2286.

[8] Cf. La catequesis de los principiantes XXV, 48.

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