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Como surgiram as cores litúrgicas?

Dentre a constelação de sinais e simbolismos presentes na liturgia da Igreja encontramos as cores, que também expressam valores sobrenaturais. Contudo, foi assim desde o início do cristianismo?

Redação (27/10/2021 10:21, Gaudium Press) O homem, segundo Santo Inácio de Loyola, foi criado para louvar, prestar reverência e servir a Deus, Nosso Senhor. Pela reverência interior, ele reconhece a soberania de Deus sobre a sua alma, e pelo louvor e serviço, manifesta os sentimentos de sujeição por meio de sinais sensíveis através do culto exterior.[1] Neste sentido, todo o cerimonial que envolve as celebrações litúrgicas da Santa Igreja, sejam os gestos, as palavras, o canto, seja inclusive a qualidade dos elementos ornamentais e objetos litúrgicos, todos eles expressam uma profunda adoração a Deus Nosso Senhor e a reverência aos anjos e santos.

Ora, há um outro aspecto muito relevante na liturgia: a constelação de sinais e símbolos que se exteriorizam de diversas maneiras. Entre eles, encontramos uma variedade de cores que ressaltam a importância de uma festa ou as características de um tempo litúrgico.[2]

Contudo, foi assim desde o início da Igreja? Como surgiram as cores litúrgicas?

Surgimento das cores litúrgicas[3]

Deve-se notar que, nos primeiros séculos do cristianismo, não havia uma determinação quanto às cores específicas para as indumentárias sagradas. Verifica-se isto em afrescos e mosaicos de catacumbas e antigas basílicas, nas quais os artistas produziam suas pinturas escolhendo aleatoriamente as cores nas vestimentas dos ministros. No entanto, muitos documentos dos séculos IV e V referem-se a vestes de cores esplêndidas, utilizadas para o serviço do altar. No século V, a chamada Carta Cornutiana (471) atesta ricos tecidos de púrpura e de ouro que ornavam e embelezavam o cibório das basílicas. Já a cor branca, presente nas alfaias de linho, era também empregada nas cerimônias cristãs por influência dos romanos, os quais utilizavam esta cor em dias festivos e em suas cerimônias religiosas, pois simbolizava a pureza ritual.

Os primeiros rastros de relação entre uma cor e uma festividade litúrgica estão contidos no Ordo romano XXI, da segunda metade do século VIII. Tal documento afirma que na festa da Purificação e no dia das ladainhas maiores, o sacerdote e o diácono ingressavam no recinto sagrado portando vestes negras.

Já ao longo do império carolíngio se averigua uma enorme quantidade de cores nos ornamentos litúrgicos. Por exemplo, neste período, um tratado irlandês discorre sobre as cores das casulas a serem utilizadas na Santa Missa. São elas: ouro (amarelo), azul, branco, verde, marrom, vermelho, negro e púrpura. No século XII, a igreja latina de Jerusalém, erigida pelos cruzados, possuía as seguintes cores: para a Quaresma, Purificação e Advento: paramentos negros; Pentecostes, Festa da Santa Cruz e Santo Estêvão: vermelho; Páscoa: branco; Ascensão: azul; Natal: vermelho, amarelo e branco; e Epifania: azul e amarelo. A razão de tão variada quantidade de cores representava o simbolismo espiritual contida em cada uma delas, demonstrando, desta maneira, uma analogia com cada festividade litúrgica.

Finalmente, no século XIII, o papa Inocêncio III se apresenta como o primeiro comentador oficial do simbolismo das cores litúrgicas. Em sua obra De sacro Altaris Mysterio, ele desenvolve este tema e elenca cinco cores agregadas pela Igreja de Roma: branco, vermelho, verde, negro e roxo (equivalente ao negro). Mais tarde, foram aprovadas pelo papa São Pio V e prevalecem até os dias atuais.

Simbolismo das cores

Uma vez analisado o processo histórico das cores litúrgicas, passemos agora aos seus valores simbólicos e as ocasiões próprias ao uso dentro da liturgia.[4]

O branco simboliza a alegria, a inocência, a glória dos Anjos, o triunfo dos Santos, a dignidade e a vitória do Salvador. Utiliza-se nas festas de Nosso Senhor, em honra à Santíssima Virgem e, em geral, em todas as festas de Santos que não são mártires.

O vermelho representa, por sua vivacidade e cor de sangue, o ardor da caridade. Tem seu lugar nas festas do Espírito Santo, da Santa Cruz, da Paixão, dos Apóstolos e dos Mártires.

O verde significa a esperança. É próprio ao tempo posterior à Epifania e a Pentecostes, como símbolo místico de nossa peregrinação terrena rumo ao Céu, toda ela pervadida de lutas interiores e exteriores que todo católico deve enfrentar no decorrer de sua vida.

O roxo denota a penitência, o jejum e a humilhação das próprias faltas. Por este motivo, é usado no Advento, Quaresma, Vigílias e em memória dos fiéis defuntos.

O negro representa o luto e o poder das trevas que se levanta contra o Altíssimo. Seu uso se estende apenas ao Sábado Santo e ao ofício dos defuntos.

A cor rosa, empregada nos domingos Laetare e Gaudete, desde o século XIII, é uma reminiscência da bênção papal da “rosa de ouro”,[5] efetuada no quarto domingo da Quaresma. Apesar disto, na Igreja de Roma, o roxo prevalecia nos ornamentos, sendo adotada a cor rosa apenas em fins do século XVI. Apesar de permitido seu uso, com o passar do tempo, em muitos lugares os paramentos desta cor vieram a cair em desuso.

Por fim, temos o azul. A utilização de paramentos desta cor, foram um privilégio concedido pela Santa Sé, em 1864, às Igrejas de Espanha e Hispano-América, na festa e oitava da Imaculada Conceição. O azul é, pois, associado pela tradição a Nossa Senhora, simbolizando a sua pureza e virgindade.

Por Guilherme Motta


[1] BATISTA REUS, João. Curso de liturgia. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1944, p. 17.

[2] LÓPEZ MARTÍN, Julián. La liturgia de la Iglesia. Madrid: BAC, 1966, p. 134.

[3] Cf. RIGHETTI, Mario. Historia de la Liturgia. Madrid: BAC, 2013, p. 1008-1012.

[4] Cf. MARIA GUBIANAS, Alfonso. Nociones elementares de liturgia. Barcelona: Claris, 1930, p. 330-333.

[5] A benção da “rosa de ouro”, iniciou-se em 1049 com o papa Leão IX, na qual era-lhe apresentado no quarto domingo da Quaresma (Laetare), um vaso de prata com rosas de ouro, a fim de ser abençoado e entregue como condecoração às rainhas católicas. O papa ungia a rosa com o santo óleo da Crisma e a incensava, de maneira a tornar-se um sacramental. Então, por analogia, estendeu-se o costume de utilizar neste dia, paramentos rosados, bem como posteriormente, no terceiro domingo do Advento (Gaudete), como recordação, em meio à penitência e ao jejum, das alegrias próprias da Páscoa e do Natal. Cf. In: https://liturgiapapal.org/index.php/manual-de-liturgia/vestiduras-liturgics/colores-lit%C3%BArgicos/89-azul.html

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