Como garantir o Céu?
Todos os homens gostariam de ter a felicidade eterna garantida. E será que Deus não nos deu essa possibilidade?
Redação (26/04/2026 19:10, Gaudium Press) “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus” (Mt 16, 18), disse o Salvador àquele que seria o seu vigário na terra. Ora, com que arroubos de entusiasmo não contemplamos o imenso, e quase infinito poder, concedido ao primeiro dos Papas? Sem embargo, existe ainda uma outra chave do Céu, que não é a de São Pedro. Pequena, é verdade, mas igualmente capaz de nos abrir os pórticos eternais, mesmo quando eles estejam fechados pelos ferrolhos do pecado mortal. O seu nome?
A contrição perfeita
A contrição é a dor que uma alma experimenta pelos pecados cometidos. Ela sempre vem acompanhada da detestação destes mesmos delitos, bem como da resolução firme de não mais os praticar, sobretudo quando se trata de faltas graves.
Contudo, ainda que utilizemos o termo “dor” na definição, isto não significa que a contrição seja necessariamente uma manifestação exterior ou uma sensação. A contrição de alguém não se mede pela quantidade de lágrimas derramadas. Antes, ela consiste sobretudo numa decisão interna, a qual, por sua vez, há de se refletir no proceder exterior, como o fruto que nasce de uma árvore.
São Tomás – discorrendo a respeito da malícia e da bondade das ações humanas – explica que um ato interno só alcança a sua plena perfeição quando se manifesta num ato externo.[1] Por isso, é natural que quem se arrepende de verdade sinta o impulso de chorar e fazer penitência. Exemplo clássico é São Pedro que, após negar seu Mestre, “chorou amargamente” (cf. Lc 22,62) a infidelidade cometida, vertendo pelos olhos as lágrimas que transbordavam de seu coração.
Nem toda contrição, porém, possui o mesmo valor. Existem diferentes graus, conforme o motivo que inspira o arrependimento.
Os graus de contrição
Em primeiro lugar, há a contrição natural. Ela é motivada unicamente por fatores humanos, tais como a vergonha, a doença, ou algum dano temporal. Caso típico deste gênero de contrição é o do ladrão que se arrepende do furto porque foi apanhado. Como não procede de uma graça, mas de um cálculo mundano, não possui nenhum mérito diante de Deus.
Além desta, existe a contrição sobrenatural, que, esta sim, é virtude. Ela sempre vem acompanhada de uma graça atual, e tem como objeto o próprio Deus ou algum dos dogmas da Fé.
Dizemos que a contrição sobrenatural é imperfeita quando a causa do arrependimento se fixa primordialmente nas desgraças eternas que haveremos de padecer caso não nos arrependamos. Tal disposição seria um temor servil e interesseiro, que não pode alcançar por si a plenitude do arrependimento, outorgada apenas pelo amor.
No entanto, cabe lembrar que a absolvição sacramental não exige necessariamente uma contrição perfeita por parte do penitente. Ou seja, a “atrição” – o arrependimento de ter ofendido a Deus por temor da culpa – é suficiente para a recepção do Sacramento da Penitência. A contrição por medo do inferno basta ao penitente que se confessa.
Se há uma contrição imperfeita, é claro que existe também uma perfeita, oriunda de um amor puro a Deus, seja pelo fato de Ele ser Bom em si mesmo, seja pelos contínuos favores que nos presta.
Efeitos da contrição perfeita
O principal efeito da contrição perfeita é o perdão dos pecados, que se opera antes mesmo da Confissão Sacramental. Como explica o Pe. J. de Driesch: “Este efeito é produzido pela contrição perfeita não só em perigo de morte, mas sempre e quando a excitamos no coração; de modo que o pecador, ao mesmo tempo que lhe são remitidas as penas do inferno, recobra os méritos passados e, de inimigo de Deus, se faz seu filho e herdeiro do Céu”.[2] Sem dúvida, não há exemplo mais eloquente desta contrição perfeita quanto o de Santa Maria Madalena, da qual disse o Redentor: “seus numerosos pecados lhe foram perdoados, porque tem demonstrado muito amor” (Lc 7,47).
Sendo, portanto, a contrição perfeita um ato tão meritório diante de Deus, pode-se concluir sem hesitação que ela restitui até mesmo o estado de graça e a inabitação da Santíssima Trindade, caso a pessoa os tenha perdido pelo pecado mortal.
No entanto, vale ainda ressaltar um ponto do Catecismo a respeito da contrição perfeita: “Uma tal contrição perdoa as faltas veniais; obtém igualmente o perdão dos pecados mortais, se incluir o propósito firme de recorrer, logo que possível, à confissão sacramental” (CEC 1452).
A Confissão é o meio ordinário instituído por Nosso Senhor para o perdão dos pecados, e traz consigo graças particulares, as quais fortalecerão o pecador em sua porfia diária. Não se pode, pois, prescindir do Sacramento da Confissão, ou, ao menos, da resolução sincera de recorrer a ele, para se obter uma contrição perfeita.
Como alcançar a contrição perfeita?
Qualquer um pode alcançar a contrição perfeita, contanto que a deseje veementemente, já que a verdadeira contrição não está no sentimento, mas sim na vontade. Segundo o Pe. Driesch, “tudo se reduz a termos o devido motivo de arrependimento, ou seja, que nos arrependamos por amarmos a Deus sobre todas as coisas e, por seu amor, detestemos os nossos pecados. Nisto, e não na duração ou na intensidade da dor reside a contrição perfeita”.[3]
Ela não é difícil de ser alcançada. Afinal de contas, durante os séculos que precederam a instituição do Sacramento da Reconciliação, a contrição perfeita foi o único meio pelo qual os homens tiveram para alcançar o perdão de seus pecados e entrarem no Céu. E, por isso, “se é verdade que Deus não quer a morte do pecador, parece natural que não tenha exigido para a contrição perfeita um ato demasiadamente difícil, mas antes que esteja ao alcance de todos”.[4]
Assim sendo, se queremos alcançar esta contrição perfeita, detenhamo-nos alguns instantes pensando na Paixão do Salvador e em tudo quanto Ele sofreu por nós; na inefável bondade de sua Mãe Santíssima, que constantemente nos ampara com suas graças; nos mais singelos favores que Deus nos concede, e logo veremos quão grande é a dileção d’Aquele que nos ama com um “amor eterno” (cf. Jr 31,3).
Tomemos como propósito de vida fazer sempre um ato de contrição após termos cometido uma falta, sobretudo quando for grave. Isso garantirá que as portas do Paraíso estejam continuamente abertas para nós, mesmo se formos apanhados pela morte repentina.
Por Valter Gonçalves
[1] S. Th. I-II, q. 20, a. 4, co.
[2] DRIESCH, J. de. A contrição perfeita: uma chave de ouro do céu. 2. ed. São Caetano do Sul: Santa Cruz, 2022, p. 25.
[3] Ibid., p. 21.
[4] Ibid., p. 22.






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