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Cluny: “milícia” de arautos do Senhor

Levando a cabo a reforma da ordem beneditina, o impulso cluniacense iniciado no séc. X se estenderia por toda a Europa nas décadas sucessivas. Cluny se tornaria abadia-mãe de inúmeros mosteiros reformados que viveriam sujeitos ao superior da abadia borgonhesa.

Redação (22/06/2022 10:02, Gaudium Press) O viajante que hoje, afastando-se um pouco da estrada que liga Paris a Lyon, for visitar a Borgonha, não poderá deixar de entristecer-se se tiver o sentido da fidelidade. É verdade que algumas recordações do esplendor passado ainda permanecem de pé, como o palácio do papa Gelásio, as igrejas de São Marcelo e de Notre-Dame, o palácio abacial e muitas casas românicas com o seu encanto velhusco. Falta, porém, o essencial: a gigantesca igreja que, séculos a fio, ergueu até ao céu a glória de Cluny[1] nas flechas dos seus sete campanários.

Um ato de vandalismo inigualado mandou demolir, na França de 1798 a 1812, esta obra-prima da arte românica. O mosteiro já não existe; dos seus jardins e construções, que cobriam um retângulo de 450 por 350 metros, restam apenas alguns edifícios secundários. Dos sete campanários, somente um se mantém de pé, o do cruzamento meridional do grande transepto, chamado “da água benta”; ladeado pela torre quadrada do Relógio, alteia-se tão nobre, tão impressionante com os seus trinta metros de altura, com a dupla fileira de arcadas da sua base octogonal, que quase basta por si só para evocar a antiga grandeza. Foi uma grandeza que resultou de tantos trabalhos e de uma permanência tão firme na fidelidade, que sem sombra de dúvida é legítimo admirarmos na história desta construção uma intenção providencial.

Por dois séculos, chefes que foram santos

Quando Guilherme o Piedoso, duque da Aquitânia, doou em 910 uma terra do seu feudo de Mâcon a São Bernon, abade de Baune, para que nela se instalasse com doze companheiros, não pensava certamente estar fazendo mais do que outros senhores feudais do seu tempo que, por amor de Deus e para a salvação da sua alma, faziam semelhantes fundações. Mas a sorte da nova abadia foi ter à sua frente, quase continuamente durante dois séculos, e cada um durante longo tempo, chefes que foram santos: Santo Odon (926-942), São Maïeul (954-994), São Odilon (994-1049) e São Hugo (1049- 1 109), todos de forma diferente, mas com um mesmo coração, devotados à grande idéia da reforma monástica – isto é, muito simplesmente, monges totalmente fiéis aos seus votos.

Virtudes aliadas à rigorosa disciplina

A vida em Cluny foi a vida beneditina total, a regra vivida em todas as suas exigências, mas também em toda a sua inteligente e humana simplicidade.

O emprego do tempo estava minuciosamente regulado; as horas de oração e de trabalho eram estritamente determinadas, mas o trabalho manual ia perdendo importância em benefício do Ofício litúrgico. A alimentação consistia em legumes, algum derivado de farinha, um pouco de queijo e de peixe, mas nunca carne; havia vinho todos os dias. O silêncio era absoluto, e os monges tinham de comunicar-se uns com os outros por meio de sinais. A regra da castidade era observada com um rigor que o mundo cristão da época estava longe de conhecer.

Um pormenor mostrava – se assim o quisermos – o avanço dos monges de Cluny em relação aos do seu tempo: a extraordinária limpeza que se exigia dos noviços, razão pela qual Santo Odon mandara instalar lavabos e toalheiros no convento. Por último, a caridade ocupava também um posto de honra: todos os dias muitos pobres e viajantes se sentavam à mesa dos monges, e havia constantemente dezoito velhos que eram sustentados pelo convento e a quem se lavavam os pés diariamente. Assim se constitui uma verdadeira milícia cristã, dotada de um caráter absolutamente novo.

Força nova e implacável

Escolhidos na maior parte desde a infância, entre os filhos dos camponeses que frequentavam a escola do mosteiro, submetidos à humildade e à obediência, habituados a desprezar o mundo, estes monges da tradição clunicense puderam ser comparados no seu tempo a “um imenso exército de soldados do Senhor, hierarquizado, que possuía na pessoa do abade de Cluny um chefe único e poderoso”, um exército cujo espírito de grupo era levado pela fé a uma intensidade extraordinária: individualmente, o monge de Cluny é nada, mas, coletivamente, tem a consciência de ser o arauto do Senhor. “Cluny é a nova força, pura e implacável, destinada a destruir os quadros apodrecidos da sociedade cristã e fazer reinar por toda a parte a virtude e o temor de Deus, apesar de todos os bispos simoníacos e devassos”.[2]

Extraído, com adaptações, de: DANIEL-ROPS, Henri. História da Igreja de Cristo. A Igreja dos Tempos Bárbaros. São Paulo: Quadrante, 1991, p.591-593.


[1] Abadia situada no leste da França, fundada no século X por São Bernon. Levando a cabo a reforma da ordem beneditina, o impulso cluniacense se estenderia por toda a Europa nas décadas sucessivas. Cluny se tornaria abadia-mãe de inúmeros mosteiros reformados, que viveriam sujeitos ao superior da abadia borgonhesa. Em 1100, aproximadamente, haveria 10.000 monges vivendo em 1.450 casas dependentes de Cluny na França, Grã-Bretanha, Espanha, Itália e Alemanha.

[2] POGNON, E. L ‘an mille. Paris, 1947.

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