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Cisma do Oriente

A Igreja Católica, fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, difundiu-se inicialmente por todo o Oriente, graças às pregações dos Apóstolos que derramaram seu sangue por ela.

Redação (22/09/2022 09:55, Gaudium Press) Os Padres da Igreja do Oriente escreveram excelentes obras que glorificaram a Esposa de Cristo. Entre eles, brilhou de modo especial São João Crisóstomo, Patriarca de Constantinopla – atual Istambul–, capital de Bizâncio, localizada entre os Mares de Mármara e Negro, um dos panoramas mais belos do mundo comparável à Baía de Guanabara.

Mas nessa Constantinopla, em meados do século XI, eclodiu um fato terrível: o cisma do Oriente, que dividiu a Igreja de Deus.

Afirma conhecido ditado que nemo summum fit repenter – nada de sumo se faz de repente. Assim, esse acontecimento teve diversos antecedentes, que sintetizamos a seguir.

Cesaropapismo, arianismo, Fócio

O Imperador Constantino, que no ano 327 transferiu a capital do Império de Roma para Constantinopla, defendia a nefanda doutrina do cesaropapismo segundo a qual César, ou seja, o Estado deve ter o governo supremo da Igreja.

Nessa época, surgiu a heresia do arianismo que negava a Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo; ela se espalhou pelo mundo e obteve importantes sequazes no Oriente.

Afirma Dr. Plinio Corrêa de Oliveira:

“Em geral os imperadores de Bizâncio davam apoio aos arianos. A razão disto estava em que esses potentados queriam mandar na Igreja, e os bispos arianos se prestavam a isso, enquanto na Igreja Católica não podiam mandar, porque segundo a Doutrina Católica a Igreja é uma sociedade perfeita e soberana, ou seja, na sua esfera própria – que é a espiritual; e a temporal, em matéria de Fé e Moral – ninguém manda nela.”[1]

No século VIII, a seita iconoclasta – que ordenava a destruição das imagens religiosas – foi propugnada por imperadores do Oriente.

Algum tempo depois, Fócio, tendo apoiado a vida imoral do Imperador de Bizâncio, tornou-se Patriarca de Constantinopla. Defendeu uma heresia a respeito da Santíssima Trindade e revoltou-se abertamente contra o papado. Foi excomungado por São Nicolau I, em 880.

Miguel Cerulário

Em Constantinopla, tão apodrecida espiritualmente, foi desferido, em 1054, um terrível golpe: o cisma do Oriente cujo principal propugnador chamava-se Miguel Cerulário.

Recebeu esse sobrenome porque, embora procedesse de família senatorial, era guardião dos círios que os fiéis compravam para serem abençoados e levados às igrejas.

Pretendendo tomar o trono de Bizâncio, Cerulário liderou uma conspiração contra o imperador, mas foi derrotado e condenado à deportação com seu irmão, o qual se suicidou na prisão. Conseguiu ser libertado, fez-se monge e tornou-se conselheiro de um novo imperador.

Em 1043, morreu o Patriarca de Constantinopla, e o imperador designou Cerulário para ocupar a sede vacante; foi, então, ordenado sacerdote e assumiu o cargo sem aprovação do Papa.

Cerulário, retomando os erros de Fócio, revoltou-se contra o Pontífice e passou a defender, entre outros erros, a abolição do celibato sacerdotal. Vemos, assim, como ele foi movido pelo orgulho que se opõe à desigualdade, e pela sensualidade a qual rejeita a pureza.

O Papa São Leão IX, em 1054, enviou legados a Constantinopla a fim de manter conversações com Cerulário, mas este não quis recebê-los. Eles, então, se dirigiram à Basílica de Santa Sofia, que estava repleta; o chefe da embaixada papal, que era cardeal, explicou ao povo as atitudes de Cerulário e colocou sobre o altar-mor a bula de excomunhão contra ele. Ao se retirarem, os legados sacudiram a poeira dos seus calçados, bradando: “Que Deus veja e nos julgue!”

Depois, os legados publicaram um texto, excomungando quem recebesse a Comunhão das mãos de um clérigo defensor das heresias e erros propugnados pelo ímpio Cerulário.

Algumas semanas mais tarde, Cerulário se apresentou ao povo dizendo que era o “único representante da verdadeira religião de Cristo”[2].

Sempre arrastado pelo orgulho, ele quis dominar o próprio imperador, o qual o exilou para uma ilha distante do Mar de Mármara onde morreu, em 1058.

Rótulo falso

Assim eclodiu a denominada “Igreja ortodoxa”, que se espalhou pela Rússia e outros países orientais. A respeito desse título, escreveu Dr. Plinio:

“A denominação ‘ortodoxa’, com que se brindam a igreja russa e outros ramos orientais separados de Roma e pela qual são geralmente conhecidos, não tem razão alguma de ser: é um rótulo falso, tão perigosamente falso como um vidro de veneno sobre que estivesse escrito ‘Água de Rosas’. […]

“De fato, a palavra ‘ortodoxa’ quer dizer opinião certa, que está de posse da verdade. Mas os orientais separados estão errados, por isso mesmo que não aceitam a supremacia do Papa; e se estão errados, não podem ser ortodoxos.

“Ortodoxos, no verdadeiro sentido da palavra, somos nós que professamos a verdadeira Fé, que só é ensinada pela Santa Igreja Católica Apostólica Romana, a única legitima.”[3]

“Na realidade eles são heterodoxos, ou mais claramente, hereges. De fato, quem nega o dogma da infalibilidade pontifícia, outra coisa não é senão herege.”[4]

Igreja “ortodoxa” na Rússia comunista

Os bizantinos criaram grandes dificuldades aos Cruzados que eram movidos pelo sublime desejo de libertar a Terra Santa, dominada pelos maometanos. Durante a IV Cruzada, os católicos tomaram Constantinopla, em 1204, e estabeleceram um Império latino com o objetivo de unir os “ortodoxos” à verdadeira Igreja. Mas esse Império latino, perturbado por diversas desavenças, foi destruído pelo imperador de Bizânio Miguel Paleólogo, em 1261.

Em 1448, a igreja “ortodoxa” da Rússia separou-se daquela sediada em Constantinopla. Tendo os turcos conquistado essa capital, em 1453, a da Rússia alcançou a primazia.

“O cisma do Oriente só teve duas causas. Uma, a soberba dos bizantinos que não podiam suportar que Roma, no Ocidente, orientasse a vida religiosa. A outra, os conchavos inomináveis com o maior inimigo do Cristianismo de então: o Islã. Múltiplas foram as consequências funestas do cisma, porém duas são principais: a queda do Império Bizantino em poder dos turcos e a instauração do comunismo na Rússia.”[5]

Quando o comunismo dominou a Rússia, em 1917, os “ortodoxos” foram perseguidos. Mas a partir da distensão promovida pelo ditador Stalin, em 1939, a igreja “ortodoxa” passou a colaborar “com o comunismo, levantando uma ‘cruzada’, fulminando ‘excomunhões’ contra os anticomunistas. […] Começou a ser um mero departamento de propaganda dos comunistas, dentro e fora da Rússia”.[6]

Por Paulo Francisco Martos

Noções de História da Igreja


[1] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Deus deseja a pompa dentro da Igreja. In Dr. Plinio. São Paulo. Ano XXIII, n. 262 (janeiro 2020), p. 24

[2] DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja dos tempos bárbaros. São Paulo: Quadrante. 1991, v. II, p. 521.

[3] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O Legionário, São Paulo 26-4-1942.

[4] Idem. O Legionário, 30-5-1943.

[5] Idem, ibidem.

[6] Idem, Folha de São Paulo, 3-10-1971.

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