Cardeal Müller: a liturgia da palavra não pode ser separada da Eucaristia
O cardeal acusa os bispos alemães de contradizerem o Concílio Vaticano II e também o Concílio de Trento. O Comitê Central dos Católicos Alemães e a Comunidade das Mulheres Católicas da Alemanha não aceitaram a negativa do Vaticano.

Foto: Brujulacotidiana.com
Redação (25/06/2026 08:58, Gaudium Press) O Cardeal Gerhard Ludwig Müller, prefeito emérito do Dicastério para a Doutrina da Fé, publicou uma nota firme contra a proposta da Conferência Episcopal Alemã de permitir que leigos preguem a homilia durante a Santa Missa, mesmo em casos excepcionais. A manifestação do cardeal alemão vem após o Vaticano ter rejeitado oficialmente o pedido, em 17 de junho, por meio do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.
Em carta enviada ao presidente da Conferência Episcopal Alemã, Dom Heiner Wilmer, o Vaticano reafirmou que a homilia é parte integrante da liturgia e está intrinsecamente ligada ao ministério ordenado. Portanto, não pode ser delegada a leigos, nem mesmo de forma excepcional.
A posição de Müller: unidade entre Palavra e Eucaristia
Em sua nota, o Cardeal Müller lembra que o Concílio Vaticano II ensina que a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística “estão tão estreitamente unidas entre si, que constituem um único ato de culto, ou seja, representam a unidade da adoração ao Deus trino, que, em Jesus Cristo, a Pessoa Divina do Verbo, se fez carne. Por isso, Cristo está presente na Igreja na proclamação da Palavra e na celebração dos santos Sacramentos”. Para ele, separar a pregação da celebração eucarística, entregando a primeira a leigos e reservando a segunda ao sacerdote, representa uma ruptura inaceitável na unidade do Mistério.
Müller argumenta que “o sinal sacramental ou a ação sacramental consistem em palavras audíveis e gestos visíveis”. A potestade sacerdotal não se limita apenas à consagração do pão e do vinho na Carne e no Sangue de Cristo, sacramentalmente presente, mas ao sacramento da Eucaristia em sua totalidade, incluindo a proclamação da Palavra.
“É verdade que se podem realizar devoções, catequeses e celebrações da Palavra como ofícios próprios, sob a direção de um leigo designado pelo bispo. Mas não é lícito separar a parte da liturgia da Palavra da parte eucarística da Santa Missa, fazendo com que a primeira, com a pregação, seja dirigida por um leigo e a segunda seja celebrada por um sacerdote ordenado”, acrescentou.
Ele recorda que, desde os primórdios da Igreja — como atesta São Justino Mártir no século II —, o presidente da assembleia (o bispo ou sacerdote) é quem prega após a leitura do Evangelho e prossegue com a Oração Eucarística.
O cardeal também faz referência ao Concílio de Trento, que afirma que os sacerdotes ordenados são instituídos por Cristo como ministros tanto da Palavra quanto dos sacramentos. Segundo ele, permitir leigos pregarem na Missa seria um funcionalismo que reduz o sacerdócio ministerial a uma mera função delegável, aproximando-se de uma visão protestante do ministério.
Müller alerta que tentar separar as funções sacerdotais de forma arbitrária nega a natureza sacramental do sacerdócio, configurado pela ordenação à imagem de Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote. Ele critica duramente aqueles que invocam o Vaticano II para justificar reformas, mas, na prática, contrariam o Concílio ao ignorar a unidade entre Palavra e Sacramento.
“É interessante que justamente aqueles que tão de bom grado invocam o Concílio Vaticano II o contradigam na questão da pregação dos leigos na Santa Missa, e não apenas pretendam retroceder além do Concílio de Trento, mas precisamente até os abusos anteriores à Reforma, contra os quais Lutero não apenas protestou, mas que lhe serviram de motivo para acusar a Igreja de ter apostatado do verdadeiro Evangelho — certamente segundo sua própria interpretação — e dar-lhe as costas”.
O Caminho Sinodal Alemão
O pedido dos bispos alemães tem raízes no Caminho Sinodal (Synodaler Weg), processo reformista iniciado em 2019 que gerou grande controvérsia na Igreja. Entre suas resoluções estava a autorização para leigos qualificados (com formação teológica) pregarem na Missa, prática já comum em algumas dioceses alemãs, mas sem aprovação formal de Roma.
O Comitê Central dos Católicos Alemães (ZdK), principal organismo leigo do país, não aceitou a negativa do Vaticano como definitiva. Sua presidente, Irme Stetter-Karp, esclareceu que o ZdK não participou diretamente da elaboração do pedido, mas lembrou que o documento “Anúncio do Evangelho por leigos na palavra e no sacramento” foi aprovado no Caminho Sinodal com alta participação dos bispos.
Stetter-Karp conclamou o episcopado alemão a “reafirmar seus argumentos perante Roma” e a não ler a carta do Cardeal Arthur Roche como “um sinal de desânimo”, mantendo viva a aspiração por uma regulamentação especial para os leigos.
Já a Comunidade das Mulheres Católicas da Alemanha (kfd), uma das maiores organizações femininas do catolicismo alemão, viu na negativa “mais um sinal da falta de igualdade das mulheres na Igreja”. Sua diretora espiritual, Ruth Fehlker, lamentou a distância entre as orientações de Roma e a realidade das comunidades locais: “Enquanto as mulheres continuarem excluídas de serviços centrais, apesar de sua competência, vocação e compromisso, a Igreja seguirá perdendo credibilidade”. Ela questionou ainda: “A verdadeira pergunta é por que os responsáveis em Roma seguem ignorando os carismas e as vocações de mulheres e homens”.
O movimento Wir sind Kirche (“Somos Igreja”) classificou a decisão romana como “uma decisão de princípios afastada da realidade”. A organização advertiu que, diante do envelhecimento acelerado do clero alemão e da grave escassez de vocações, a aplicação rigorosa dessa norma só servirá para “desgastar ainda mais os poucos sacerdotes em atividade” e fará com que muitas paróquias e comunidades “se esvaziem”.
O Cardeal Müller, vê nesse movimento uma tendência de “protestantização” da Igreja Católica na Alemanha: “os eternos contestadores alemães não só deveriam repensar, de uma vez por todas, sua relação com o ministério petrino do Papa, como também se familiarizar com os fundamentos da teologia católica e deixar de empurrar a Igreja na Alemanha contra uma parede com suas ideologias carregadas de ressentimento e suas pretensões de poder”.





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