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Cardeal Fernández admite falta de interesse por novo documento do Vaticano sobre transmissão da fé

Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé afirma que progressistas e conservadores não demonstraram entusiasmo pela iniciativa e recorre à Secretaria de Estado para incentivar sua aplicação nas dioceses.

Foto: Vatican News

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Redação (28/10/2026 15:22, Gaudium Press) O Cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, reconheceu que o seu mais recente documento sobre a transmissão da fé não despertou o interesse esperado entre os diferentes setores da Igreja Católica. Em entrevistas à imprensa espanhola, o purpurado afirmou que tanto bispos progressistas quanto setores conservadores parecem pouco interessados nas propostas apresentadas pelo Vaticano.

As declarações foram repercutidas nesta terça-feira (27) pelo jornalista Michael Haynes, correspondente vaticano do The Catholic Herald, cinco dias após a publicação do documento Venite ad me – Considerações sobre a transmissão da fé numa mudança de época, divulgado em 22 de outubro. O texto, elaborado a partir de contribuições de bispos diocesanos e conferências episcopais, responde a uma solicitação do Papa Francisco para promover uma reflexão sobre os desafios contemporâneos da evangelização.

Progressistas e conservadores estariam igualmente desinteressados

Em entrevista ao portal espanhol Religión Confidencial, Fernández criticou as prioridades pastorais de diferentes setores eclesiais. Segundo ele, nos países onde predominam bispos progressistas, falta preocupação em promover um encontro profundo com Cristo, pois eles estariam mais concentrados nas mudanças estruturais da Igreja e no diálogo com a sociedade. Já nos meios tradicionais e conservadores, é dedicada maior atenção às questões relacionadas à transmissão da moral sexual.

Na avaliação do cardeal, ambas as tendências relegam a segundo plano o objetivo central da evangelização: proporcionar aos fiéis uma experiência transformadora de encontro pessoal com Jesus Cristo. A proposta de despertar nos católicos uma relação viva com Cristo, fundada na amizade e na renovação espiritual, parece excessivamente romântica ou distante das preocupações concretas desses grupos.

Nem mesmo os apelos de Francisco teriam transformado as dioceses

O prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé reconheceu também que os reiterados apelos do Papa Francisco por uma renovação missionária não produziram as mudanças esperadas.

Segundo Fernández, a insistência do pontífice argentino na centralidade do querigma — o anúncio fundamental da morte e ressurreição de Jesus Cristo — não modificou substancialmente os planos pastorais das dioceses e dos movimentos eclesiais.

O cardeal citou ainda a encíclica Dilexit nos, publicada por Francisco em 2024 e dedicada ao amor humano e divino do Coração de Jesus, como exemplo de um documento que teria recebido pouca atenção prática nas estruturas diocesanas.

Na interpretação de Fernández, a Igreja corre o risco de concentrar suas energias em debates secundários, perdendo de vista o núcleo da mensagem cristã que deveria orientar todas as demais questões.

Documento propõe cinco caminhos para a evangelização

O novo texto do Vaticano destaca cinco dimensões consideradas essenciais para a transmissão da fé: a vida comunitária, a liturgia, o testemunho cristão, a arte e a beleza, e a defesa dos valores católicos ao longo da existência humana.

O documento não pretende estabelecer um programa pastoral obrigatório ou oferecer soluções definitivas, mas reunir perspectivas e estimular a reflexão nas Igrejas locais. Entretanto, essa abordagem tornou-se também um dos principais alvos das críticas.

Em sua análise publicada no The Catholic Herald, Michael Haynes observa que, embora o documento identifique a crise na transmissão da fé, oferece poucas orientações concretas para enfrentá-la.

Segundo o jornalista, o dicastério solicitou sugestões às dioceses, reuniu suas respostas e devolveu às mesmas estruturas eclesiais um conjunto de recomendações gerais, sem definir uma estratégia suficientemente clara para superar as dificuldades identificadas.

A crítica levanta uma questão importante: até que ponto a multiplicação de documentos e consultas eclesiais consegue produzir resultados concretos sem ser acompanhada por decisões pastorais, metas e iniciativas de evangelização efetivamente aplicadas?

Moral sexual volta ao centro da controvérsia

As declarações de Fernández também reacenderam discussões sobre sua abordagem das questões morais.

Em entrevista ao portal espanhol Religión Digital, o cardeal foi questionado sobre uma passagem do novo documento segundo a qual nenhuma lei ou autoridade humana ou religiosa pode declarar alguém indigno do amor de Deus ou do amor dos demais.

O veículo perguntou quais seriam as consequências pastorais dessa afirmação para homossexuais, divorciados em nova união e pessoas afastadas da Igreja por se sentirem rejeitadas.

Na resposta, Fernández recorreu ao exemplo histórico da escravidão, argumentando que a compreensão das consequências concretas da dignidade humana se desenvolveu gradualmente na história da Igreja. Ele manifestou a esperança de que, com a assistência do Espírito Santo, a Igreja consiga compreender e aplicar cada vez melhor as implicações do reconhecimento da dignidade infinita de cada pessoa.

A comparação, entretanto, exige uma distinção teológica importante. O reconhecimento da dignidade inalienável de toda pessoa humana constitui um princípio permanente da doutrina católica, mas não significa, por si só, a revisão de todos os juízos morais sobre comportamentos e situações particulares.

Fernández, diretamente envolvido em documentos controversos como Fiducia supplicans, volta a pôr em relevo a relação entre acolhimento pastoral e a fidelidade ao ensinamento moral.

Secretaria de Estado é chamada a intervir

Diante da perspectiva de uma recepção limitada do documento, Fernández revelou ter solicitado a colaboração da Secretaria de Estado do Vaticano para incentivar as conferências episcopais a desenvolver iniciativas concretas com base nas orientações apresentadas.

Envolver a estrutura diplomática e de coordenação central da Santa Sé na promoção de um texto de natureza essencialmente doutrinal e pastoral evidencia a preocupação do prefeito com o risco de que o documento permaneça restrito ao âmbito das publicações oficiais, sem repercussões significativas na vida das dioceses.

Uma crise que ultrapassa as divisões ideológicas

As declarações do cardeal expõem um problema que ultrapassa as tradicionais disputas entre progressistas e conservadores: a dificuldade de transmitir a fé católica em sociedades cada vez mais secularizadas.

A evangelização não pode ser reduzida exclusivamente a reformas administrativas, debates sobre estruturas eclesiais ou controvérsias morais; tampouco deve opor o anúncio de Cristo à transmissão da doutrina moral. Na tradição católica, a experiência pessoal do encontro com Jesus não constitui uma alternativa à verdade doutrinal ou às exigências da vida cristã, mas seu fundamento.

A questão central, portanto, talvez não seja escolher entre anunciar o amor de Cristo e transmitir os ensinamentos da Igreja, mas compreender como essas duas dimensões podem permanecer inseparáveis na prática pastoral.

O reconhecimento público de Fernández de que o documento Venite ad me despertou pouco entusiasmo nos diferentes setores eclesiais revela, sobretudo, os limites de uma estratégia de evangelização baseada predominantemente em orientações gerais.

Resta saber se o envolvimento da Secretaria de Estado será suficiente para transformar as reflexões de Venite ad me em iniciativas concretas ou se o novo documento terminará por confirmar uma das dificuldades que ele próprio procura enfrentar: a distância entre os pronunciamentos da Santa Sé e sua aplicação efetiva na vida das comunidades católicas.

Por Rafael Ribeiro

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