Cardeal Burke sugere acabar com a sinodalidade e criar um dicastério para liturgia tradicional
Temas como sinodalidade, aplicação de Traditionis Custodes e relação entre renovação pastoral e continuidade doutrinal continuarão figurando entre os principais desafios do atual pontificado.

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Redação (16/07/2026 20:16, Gaudium Press) As declarações do Cardeal Raymond Leo Burke, concedidas ao jornalista Edward Pentin para o site The College of Cardinals Report, representam uma das manifestações mais contundentes de um membro do Colégio Cardinalício sobre os rumos atuais da Igreja. Embora Burke já seja conhecido por suas posições em defesa da tradição litúrgica e da continuidade doutrinal, esta entrevista ganha relevância por abordar temas que permanecem no centro das discussões eclesiais sob o pontificado de Leão XIV.
O ponto mais sensível da entrevista é o pedido de interrupção temporária do processo de sinodalidade, a fim de que ele seja submetido a um estudo teológico e histórico mais aprofundado. Burke argumenta que a própria definição de “sinodalidade” ainda carece de suficiente clareza e de um sólido enraizamento na tradição da Igreja. Trata-se de uma crítica que ultrapassa aspectos meramente administrativos e toca diretamente a compreensão da natureza da Igreja e do exercício da autoridade eclesial.
Outro aspecto significativo é sua avaliação do chamado Grupo de Estudo 9 do Sínodo. Burke demonstra preocupação com a forma como o documento trata questões relacionadas à moral sexual e critica referências ao apostolado Courage, destinado ao acompanhamento espiritual de pessoas com atração pelo mesmo sexo que desejam viver a castidade conforme o ensinamento da Igreja. Segundo o cardeal, documentos dessa natureza podem gerar interpretações de mudanças doutrinais onde, oficialmente, elas não foram formuladas.
Ao mesmo tempo, Burke faz questão de advertir contra interpretações que atribuam ao Papa Leão XIV a intenção de alterar a doutrina moral da Igreja apenas pelo fato de determinadas questões ainda não terem sido objeto de pronunciamentos específicos. Essa observação revela uma preocupação em distinguir o silêncio prudencial do Romano Pontífice de eventuais mudanças efetivas no magistério.
No campo litúrgico, Burke reafirma sua conhecida defesa da Missa segundo os livros litúrgicos anteriores à reforma pós-conciliar. Ao solicitar uma revisão da aplicação de Traditionis Custodes, ele sustenta que a forma tradicional do rito romano continua sendo um patrimônio espiritual para inúmeros fiéis e propõe inclusive a criação de um dicastério próprio na Cúria Romana dedicado ao acompanhamento dessas comunidades. A proposta, embora de difícil concretização, demonstra sua intenção de oferecer uma solução institucional estável para uma questão que permanece fonte de tensões em diversas dioceses.
Talvez a afirmação de maior alcance teológico seja sua rejeição à ideia de “mudanças de paradigma” na vida da Igreja. Para Burke, a missão evangelizadora exige diálogo com o mundo contemporâneo, mas sem romper a continuidade da tradição recebida dos Apóstolos. Essa perspectiva reforça uma hermenêutica da continuidade, frequentemente associada ao magistério de Bento XVI.
As declarações dificilmente representam um programa de governo ou uma posição oficial da Santa Sé. Elas expressam, antes, a visão de um cardeal que ainda exerce influência significativa junto a setores ligados à tradição litúrgica e doutrinal da Igreja. Mesmo assim, a entrevista evidencia que temas como a sinodalidade, a aplicação de Traditionis Custodes e a relação entre renovação pastoral e continuidade doutrinal continuarão figurando entre os principais desafios do atual pontificado.
Mais do que oferecer respostas definitivas, Burke recoloca em evidência debates que permanecem abertos e cuja evolução dependerá, em última instância, do discernimento do Papa e do desenvolvimento da reflexão teológica e pastoral da Igreja nos próximos anos.
Por Rafael Ribeiro – Gaudium Press





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