Bob Dylan volta ao Vaticano e revela uma inesperada aproximação entre o rock e o papado
Quase três décadas depois de cantar diante de São João Paulo II, o vencedor do Nobel de Literatura encontra Leão XIV, que já havia citado uma de suas composições contra as armas nucleares. A audiência integra uma série de encontros surpreendentes do Pontífice com personalidades da música e do cinema.
Foto: Vatican News/ Vatican Media
Redação (06/11/2026 09:30, Gaudium Press) O que poderia aproximar um dos maiores representantes da contracultura norte-americana do chefe da Igreja Católica? A resposta passa pela poesia, pela busca espiritual e por uma preocupação comum com a paz. Nesta quarta-feira, 4 de novembro, o Papa Leão XIV recebeu no Palácio Apostólico o cantor e compositor Bob Dylan, de 85 anos, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2016.
Durante o breve encontro, Dylan, vestido com um moletom preto com capuz, conversou com o Pontífice e recebeu dele um terço. Em retribuição, presenteou-o com um exemplar de sua autobiografia, Chronicles: Volume One. O músico está em Roma para uma apresentação nesta quinta-feira, 5 de novembro.
A audiência foi acompanhada pelo jesuíta Antonio Spadaro, subsecretário do Dicastério para a Cultura e a Educação, e por Andrea Monda, diretor do jornal vaticano L’Osservatore Romano. Spadaro descreveu o momento como um encontro de caráter histórico, marcado pela sensação de que qualquer coisa poderia acontecer durante a passagem pelos corredores do Palácio Apostólico.
Uma relação que começou antes do encontro
A aproximação entre Dylan e Leão XIV não aconteceu por acaso. Em julho deste ano, o Pontífice mencionou uma composição do músico no prefácio do livro Desarmada e desarmante. A paz é um dom, publicado pela Livraria Editora Vaticana.
A referência foi Go Away You Bomb, composição de 1963 na qual Dylan protesta contra as armas nucleares, em plena Guerra Fria. O texto permaneceu praticamente desconhecido por décadas, até a descoberta de seu manuscrito em 2013.
Ao recuperar esses versos, Leão XIV estabeleceu uma ligação entre as inquietações de uma geração ameaçada pela destruição nuclear e os desafios do mundo contemporâneo.
A escolha revela uma característica interessante do Pontífice: sua disposição para encontrar na cultura popular elementos capazes de dialogar com a doutrina social da Igreja, independentemente da religião de seus autores.
Quando João Paulo II respondeu a Bob Dylan
O encontro desta quarta-feira não foi o primeiro de Dylan com um Papa. Em 27 de setembro de 1997, o músico participou do XXIII Congresso Eucarístico Nacional da Itália, realizado em Bolonha, onde se apresentou diante de São João Paulo II e de milhares de jovens.
Na ocasião, interpretou algumas de suas canções mais conhecidas, incluindo Knockin’ on Heaven’s Door. Depois da apresentação, retirou o chapéu de caubói e subiu ao palco para cumprimentar o Pontífice polonês.
O momento mais significativo, porém, foi a resposta de João Paulo II a uma das perguntas de Blowin’ in the Wind. Na canção, Dylan questiona quantas estradas um homem precisa percorrer antes de ser reconhecido como homem. João Paulo II retomou a pergunta e ofereceu uma resposta cristológica: existe um único caminho definitivo para o homem, Jesus Cristo. O contraste era eloquente. De um lado, um artista cuja obra frequentemente expressava as dúvidas, inquietações e protestos de seu tempo. De outro, um Papa que procurava responder a essas inquietações por meio da fé cristã.
Quase trinta anos depois, Leão XIV retoma esse diálogo por outra perspectiva. Enquanto João Paulo II respondeu à pergunta existencial de Dylan, o atual Pontífice encontrou na em seus versos uma expressão de sua preocupação com a paz e a necessidade de rejeitar a lógica da destruição nuclear.
Embora situados em contextos distintos, os dois episódios revelam uma preocupação comum: aproximar a mensagem cristã das grandes inquietações de cada geração.
Até o momento, os encontros documentados de Bob Dylan com Pontífices são os de João Paulo II, em 1997, e Leão XIV, em 2026. Não há registros confiáveis de audiências pessoais com Bento XVI ou Francisco.
Dylan: Um músico marcado pela busca de Deus
A dimensão religiosa da trajetória de Bob Dylan ajuda a compreender o interesse despertado por seus encontros com os Pontífices.
Nascido Robert Allen Zimmerman, em uma família judaica de Minnesota, Dylan passou por uma intensa experiência de aproximação com o Cristianismo no final da década de 1970.
Essa fase se refletiu em alguns álbuns como Slow Train Coming (1979), Saved (1980) e Shot of Love (1981), nos quais referências bíblicas, temas de conversão e a influência da música gospel ganharam destaque.
Embora sua trajetória espiritual posterior tenha sido menos definida publicamente, a Bíblia, a oração, a culpa, a redenção e a esperança continuaram presentes em diferentes momentos de sua obra.
Seria precipitado interpretar sua visita ao Vaticano como um sinal de conversão ao Catolicismo. O encontro, entretanto, evidencia que as questões religiosas nunca estiveram completamente ausentes do universo artístico do compositor.
Foto: Vatican News/ Vatican Media
De Al Pacino a Patti Smith: os encontros inusitados de Leão XIV
A audiência com Dylan se insere em uma sequência de encontros pouco convencionais protagonizados por Leão XIV desde sua eleição, em maio de 2025.
Em junho daquele ano, o ator Al Pacino, conhecido por interpretar Michael Corleone na trilogia O Poderoso Chefão, esteve no Vaticano acompanhado de integrantes de uma produção cinematográfica sobre a família Maserati. A visita foi divulgada pelos participantes, embora não tenha recebido confirmação formal da Sala de Imprensa da Santa Sé.
Em novembro de 2025, foi a vez de Robert De Niro. O ator norte-americano cumprimentou o Pontífice durante uma audiência privada e recebeu um terço, gesto repetido agora com Bob Dylan. Poucos dias depois, Leão XIV recebeu um grupo de profissionais do cinema que incluía Cate Blanchett, Monica Bellucci e Spike Lee. O diretor de Malcolm X presenteou o Papa com uma camisa do New York Knicks, equipe de basquete norte-americana. Na ocasião, o Papa destacou a capacidade do cinema de transmitir esperança e abordar os grandes questionamentos humanos.
Em julho de 2026, outro encontro chamou a atenção: a audiência privada concedida à cantora e poeta Patti Smith, uma das principais figuras do movimento punk. Conhecida por sua atitude contestadora e por referências religiosas provocativas em suas composições, Smith já havia desenvolvido uma relação de admiração pelo Papa Francisco. Diante de Leão XIV, demonstrou emoção, enquanto os dois conversaram sobre música, lembranças e esperanças. Assim como a audiência de Dylan, esse encontro contou com a presença do Pe. Antonio Spadaro.
No mês seguinte, o ator Matthew McConaughey, acompanhado de sua esposa, a brasileira Camila Alves, também cumprimentou o Papa durante uma audiência geral no Vaticano.
Uma Igreja que procura dialogar com a cultura contemporânea
Esses encontros não significam necessariamente que Leão XIV compartilhe as opiniões ou os posicionamentos públicos de todos os artistas recebidos. Eles podem, entretanto, ser compreendidos dentro de uma tradição mais ampla da Igreja, particularmente desenvolvida a partir do Concílio Vaticano II, de promover o diálogo com o mundo da cultura.
São João Paulo II fez do diálogo uma dimensão importante de seu pontificado, aproximando-se de artistas, intelectuais e representantes de diferentes tradições culturais. Bento XVI valorizou especialmente a relação entre fé, razão e beleza, enquanto Francisco procurou construir pontes com personalidades de diferentes convicções.
No caso de Leão XIV, chama a atenção a presença de figuras associadas à contracultura, ao cinema de Hollywood e à música popular norte-americana.
Existe ainda uma particularidade: o primeiro Papa nascido nos Estados Unidos compartilha com muitos desses artistas não apenas o idioma, mas também referências culturais e experiências de uma sociedade marcada por profundas transformações políticas, sociais e religiosas.
Isso não transforma automaticamente cada audiência em um acontecimento pastoral de grande alcance, mas demonstra que o Pontífice reconhece o valor do contato pessoal com protagonistas da cultura contemporânea.
O encontro desta quarta-feira representa mais do que uma fotografia curiosa entre duas personalidades mundialmente conhecidas. É também uma ocasião para refletir sobre como a Igreja pode encontrar, mesmo em expressões culturais aparentemente distantes de sua linguagem tradicional, oportunidades para falar de paz, dignidade humana e transcendência.
E talvez esteja justamente aí o aspecto mais interessante da relação entre Bob Dylan e os Papas: enquanto o músico continua formulando perguntas sobre a condição humana, a Igreja procura apresentar suas respostas, sem deixar de escutar as inquietações que deram origem a essas perguntas.
Por Rafael Ribeiro




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