Bispo Robert Barron questiona documento do Vaticano: quando o diálogo deixa de evangelizar?
Como dialogar sinceramente com quem professa outra religião sem transformar o diálogo numa espécie de suspensão permanente da missão evangelizadora?
Redação (23/09/2026 10:56, Gaudium Press) Sessenta anos após a promulgação da Nostra aetate, a Igreja Católica continua a confrontar uma questão que o Concílio Vaticano II não resolveu e que, de certo modo, se tornou ainda mais urgente: como dialogar sinceramente com quem professa outra religião sem transformar o diálogo numa espécie de suspensão permanente da missão evangelizadora?
Foi justamente nesse ponto que o bispo americano Robert Barron, de Winona-Rochester, entrou numa discussão particularmente delicada. Ao comentar a recente nota vaticana Um Caminho de Esperança, publicada por três dicastérios da Santa Sé por ocasião dos 60 anos da Nostra aetate, Barron questionou, sobretudo, a maneira como a palavra “proselitismo” passou a ser empregada no discurso católico contemporâneo.
É importante observar, desde o início, que o documento vaticano está longe de defender o relativismo religioso. Pelo contrário, afirma que o diálogo inter-religioso não pode ser reduzido a um consenso genérico; recorda que ele está enraizado na missão evangelizadora da Igreja e sustenta que dialogar não significa renunciar à verdade. Também rejeita explicitamente a perspectiva de uma espécie de religião mundial na qual as diferenças entre as crenças terminariam dissolvidas.
O ponto controverso aparece quando a nota pede uma “transformação das mentalidades” e declara a necessidade de abandonar lógicas de defesa, hostilidade ou conquista. Nesse contexto, o texto considera inadequada uma relação com o outro baseada numa defesa antipática da própria posição e no proselitismo entendido como modalidade de encontro.
É precisamente aqui que Barron coloca o dedo na ferida.
O problema de uma palavra que significa coisas demais
Em entrevista ao programa The World Over, da EWTN, Barron afirmou que talvez tenha chegado o momento de simplesmente abandonar a palavra “proselitismo”, porque ela passou a carregar significados muito diferentes. O bispo recordou inclusive uma conversa com o Papa Francisco, na qual o Pontífice teria caracterizado o proselitismo como uma espécie de evangelização desagradável, intimidatória ou autoritária.
Se este for o sentido atribuído à palavra, dificilmente haverá controvérsia. A fé não pode ser imposta. Uma conversão obtida mediante pressão, manipulação ou constrangimento seria incompatível com a própria natureza do ato de fé.
Contudo, Barron assinala um problema pastoral mais profundo. Quando a condenação do proselitismo é reiterada sem a devida e cuidadosa delimitação do que a palavra efetivamente significa, corre-se o risco de que o católico comum comece a identificar qualquer tentativa de levar alguém à fé com uma atitude moralmente suspeita.
E aí surge uma questão decisiva: anunciar Jesus Cristo a alguém esperando que essa pessoa creia nele é proselitismo Se a resposta for afirmativa, torna-se difícil compreender boa parte da história do cristianismo.
Cristo não mandou apenas dialogar
O Cristianismo nasceu missionário. Os apóstolos não saíram de Jerusalém simplesmente para conhecer melhor as religiões dos povos do Mediterrâneo. Foram anunciar uma notícia que consideravam verdadeira e universal: Jesus Cristo morreu, ressuscitou e oferece a salvação.
São Paulo dialogou, escutou, conheceu culturas diferentes, citou autores pagãos e soube adaptar a sua linguagem aos interlocutores. Tudo isso, porém, realizou com o propósito de anunciar Cristo.
A Igreja atravessou os séculos com essa mesma convicção. Missionários aprenderam línguas, atravessaram oceanos, estudaram civilizações e, muitas vezes, defenderam os povos indígenas contra os abusos praticados pelos próprios cristãos europeus. Entretanto, jamais consideraram contraditório respeitar uma cultura e, ao mesmo tempo, desejar a conversão daqueles que encontravam.
O problema contemporâneo talvez esteja justamente na dificuldade de manter essas duas verdades simultaneamente.
É possível respeitar profundamente um muçulmano e desejar que ele conheça Cristo. É possível reconhecer elementos verdadeiros e santos no hinduísmo e continuar a crer que Jesus Cristo é o Salvador universal. É possível manter amizade sincera com um judeu sem tratar as diferenças religiosas como irrelevantes.
O diálogo católico não exige que se finja que aquilo que separa as religiões não importa.
O que a Nostra aetate realmente disse
A declaração promulgada por São Paulo VI em 28 de outubro de 1965 representou uma transformação profunda nas relações da Igreja com as religiões não cristãs, de modo particular com o judaísmo. Seu contexto histórico não pode ser ignorado. O documento amadureceu numa Europa ainda marcada pela memória da Shoah e pela necessidade de enfrentar séculos de antissemitismo.
A Nostra aetate afirmou que a Igreja Católica “nada rejeita do que nessas religiões existe de verdadeiro e santo”. Essa frase tornou-se uma das mais conhecidas do Concílio Vaticano II. Mas reconhecer a existência de elementos verdadeiros em outra religião não equivale a afirmar que todas as religiões sejam igualmente verdadeiras.
O próprio desenvolvimento posterior do Magistério procurou preservar essa distinção. O diálogo não substitui a identidade. A abertura ao outro não exige que o cristão coloque entre parênteses aquilo que professa no Credo.
A nova nota vaticana também procura proteger esse equilíbrio. Nela se afirma que a segurança da fé, longe de produzir fechamento, permite o testemunho e o diálogo. Acrescenta, ainda, que o encontro inter-religioso deve respeitar a liberdade de consciência, e que anunciar a verdade de maneira evangélica implica fazê-lo com estima, escuta e caridade.
Portanto, seria injusto apresentar Um Caminho de Esperança como um documento contrário à evangelização. A pergunta de Barron é mais sutil e talvez justamente por isso mais incômoda.
Quando evangelizar começa a parecer falta de educação
O problema não está apenas nos documentos. Está na cultura eclesial produzida em torno de determinadas palavras.
Durante décadas, o termo “proselitismo” adquiriu uma conotação cada vez mais negativa no vocabulário católico. Em determinadas circunstâncias, isso foi saudável. A Igreja precisava distinguir claramente evangelização de coerção religiosa, manipulação emocional, oportunismo e exploração da vulnerabilidade humana.
Existe, porém, o perigo de o pêndulo se deslocar para o extremo oposto.
Um católico pode começar a considerar perfeitamente normal conversar durante horas sobre espiritualidade com alguém de outra religião, mas sentir constrangimento diante da possibilidade de dizer: “Eu gostaria que você conhecesse Jesus Cristo”. Nesse momento, alguma coisa mudou. Não porque o diálogo tenha ido longe demais, mas porque talvez tenhamos esquecido para onde ele deveria poder conduzir.
Barron insiste em que os cristãos devem ser gentis, respeitosos e tolerantes. Mas acrescenta algo essencial: também anunciamos Jesus. Para ele, a Igreja não existe como uma sociedade de debates na qual diferentes opiniões religiosas são eternamente colocadas lado a lado. Existe uma verdade que os cristãos acreditam ter recebido e que devem comunicar com amor.
A distinção é fundamental. A verdade sem caridade pode transformar evangelização em agressão. Mas a caridade sem verdade corre o risco de reduzir a evangelização a mera convivência.
Francisco condenava o proselitismo, e evangelizava
Existe ainda uma aparente contradição que merece ser esclarecida. O Papa Francisco foi provavelmente um dos pontífices que mais condenaram o proselitismo nas últimas décadas. Ao mesmo tempo, dedicou seu primeiro grande documento programático, Evangelii gaudium, precisamente ao anúncio do Evangelho.
Para Francisco, portanto, evangelização e proselitismo não eram sinônimos. A diferença estava fundamentalmente no método e na liberdade. O cristão oferece aquilo que recebeu, testemunha aquilo que encontrou e propõe Cristo sem transformar o outro em objeto a ser conquistado. Essa distinção funciona teologicamente. Pastoralmente, porém, Barron parece advertir que a palavra se tornou tão elástica que já não ajuda necessariamente a compreender a diferença.
Quando qualquer desejo de conversão passa a receber o rótulo de proselitismo, não estamos mais combatendo apenas métodos inadequados de evangelização. Estamos colocando sob suspeita a própria finalidade missionária.
Uma Igreja que não deseja converter ninguém?
Existe uma pergunta que raramente é formulada explicitamente. O católico ainda deseja a conversão do outro? Não sua submissão, não sua humilhação, nem a destruição de sua cultura, mas sua conversão.
Durante séculos, santos rezaram pela conversão de povos e indivíduos. Missionários morreram desejando que aqueles que encontravam recebessem o Batismo. Pais rezaram pela conversão dos filhos. Esposas pela conversão dos maridos. Amigos pela conversão dos amigos.
Tudo isso pressupõe uma convicção que hoje pode soar desconfortável: se acredito realmente que encontrei algo verdadeiro e infinitamente precioso em Cristo, desejar que outra pessoa também o encontre não constitui necessariamente intolerância. Pode constituir precisamente uma forma de amor.
Naturalmente, esse desejo deve conviver com o respeito absoluto pela liberdade da outra pessoa. Ninguém pode ser coagido a acreditar. Entretanto, respeitar a liberdade de alguém não significa tornar-se indiferente àquilo em que essa pessoa acredita. Talvez seja essa a contribuição mais interessante da intervenção de Robert Barron.
A discussão não necessita colocar, de um lado, os defensores do Concílio e, do outro, aqueles que desejariam retornar a uma Igreja fechada ao diálogo. Essa oposição seria simplista e, neste caso, injusta tanto com Barron quanto com o próprio documento vaticano. A questão verdadeira é mais profunda.
Sessenta anos depois da Nostra aetate, aprendemos muito sobre como dialogar. Aprendemos a reconhecer o bem existente no outro, a rejeitar a coerção, a respeitar a consciência e a construir relações com pessoas de outras religiões. Tudo isso constitui uma conquista importante.
Todavia, o diálogo cristão não pode nascer do medo de anunciar aquilo em que acreditamos. Se o católico entra no diálogo convencido de que Cristo é “o caminho, a verdade e a vida”, ele poderá escutar o outro com serenidade precisamente porque não precisa temê-lo. Poderá reconhecer tudo aquilo que nele existe de verdadeiro sem abandonar aquilo que recebeu. E poderá falar de Cristo sem transformar o interlocutor numa conquista.
Talvez, portanto, Barron esteja propondo uma pergunta que ultrapassa em muito uma discussão semântica sobre a palavra “proselitismo”. Depois de sessenta anos aprendendo a dialogar com o mundo, a Igreja ainda sabe dizer ao mundo por que ele precisa de Jesus Cristo?
Por Rafael Ribeiro





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