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Bento XVI e a última hora

Talvez poucos papas, ao longo da conturbada e gloriosa trajetória da Igreja, viveram uma conjuntura histórica tão inusual e incompreensível quanto a atual.

Papa emerito

Redação (01/01/2023 09:10, Gaudium Press) As notícias sobre Bento XVI, naturalmente, têm se multiplicado. Tão logo confirmou-se seu passamento para a eternidade, os resumos biográficos de sua vida difundiram-se pela internet; as abordagens sobre sua pessoa tornaram-se alvo da totalidade das agências de notícias e os traços mais acentuados de sua personalidade foram matéria com a qual se encerra este marcante ano de 2022.

E não podia deixar de ser diferente: talvez poucos papas, ao longo da conturbada e gloriosa trajetória da Igreja, viveram uma conjuntura histórica tão inusual e – permitam-me a expressão – incompreensível quanto a atual.

Para confirmar isto, basta mencionar o seguinte: quando, desde São Pedro até nossos dias, houve um papa recém-falecido, cujas exéquias foram presididas por (outro) papa? Ou seja, a situação na qual vive a Igreja atualmente é, pelo menos, ímpar na História.

Curioso é que, no transcurso dos acontecimentos, há determinados anos que parecem marcar um istmo providencial. De um lado, porque muitas ocorrências de grande envergadura, a nível mundial, ficam inexplicáveis aos homens no momento em que estão se sucedendo – como é o caso de Bento XVI e de sua enigmática e misteriosa renúncia. De outro lado, porque uma série de outros fatos, ligados a essas importantes ocorrências, parecem ir se represando a ponto de quererem transbordar ou romper o muro de arrimo que as sustentam, dando-nos a impressão de que tudo virá à deriva.

Ora, é precisamente nesses momentos de maior incompreensão dos fatos, de inextricáveis soluções para tantos problemas dentro e fora da Igreja, que surgem os mais belos arcos-íris prenunciativos de ser Deus o guia e o condutor da História.

Recorde-se o leitor que, meses atrás, quando o mundo ouviu as primeiras notícias acerca do precário estado de saúde da saudosa Rainha Elizabeth II, em Buckinghan, traçou-se no firmamento este mesmo símbolo da aliança de Deus com os homens, apesar do plúmbeo céu de Londres.

Seria, pois, sem propósito correlacionar este fato a outro, de semelhante caráter transcendente, passado em Lourdes, no dia 28 último, ao descortinar-se sobre os céus da gruta de Massabielle um belo arco-íris, enquanto o Vaticano emitia a primeira nota sobre a preocupante situação de saúde de Bento XVI?

Tais “coincidências” nos levam a pensar que, neste mesmo ano de 2022, Deus chamou para si essas duas eminentes personagens que detinham uma missão importantíssima, a fim de estabelecer novo regime de graças, tanto na esfera espiritual quanto na temporal, com vistas a um futuro que se caracterizará pelo desenlace numa série de setores da sociedade, a começar pela mesma Igreja.

E se falamos em sinais, por que não vermos isso também através da Liturgia? Com efeito, se para nós, homens, Deus legou a Liturgia da Igreja como meio de revivermos os acontecimentos transcendentais que visam à obtenção da nossa salvação e, em larga medida, um antegozo das verdades sobrenaturais, precisamos prestar atenção em suas entrelinhas, interpretando-a à luz dos fatos presentes.

Destarte, a liturgia de hoje, ao citar as palavras do Apóstolo São João na primeira leitura da Missa, afirma: “Filhinhos, esta é a última hora” (1Jo 18,27). De fato, são as últimas horas de um ano; as últimas horas para a mudança dos panoramas mundiais; e, as últimas horas do trânsito dessa alma tão predileta de Deus, que foi Bento XVI.

Caro leitor, fato é que um homem da envergadura de missão e dons como Bento XVI só podia mesmo ser o desfecho de algo, mas de algo que excede em muito um simples ano civil; de algo que nossa fé afirma ser o desfecho de uma era conturbada para Igreja, da qual ele próprio foi um símbolo, em ter de passar anos recluso e em silêncio. Mas símbolo sobretudo dos longos e penosos anos durante os quais a sua luta interior foi gestando o prenúncio de uma nova era de graças para a Igreja, comprada – quem saberá? – pela fidelidade de que santos, neste imenso Corpo Místico de Cristo?!

Assim, virando o cabo deste 2022 e cruzando os umbrais de 2023, recorramos à Mãe de Deus, cuja solenidade celebramos hoje, para que Ela, do céu, qual Mãe de Misericórdia, acolha nos seus braços a alma de Bento XVI, varão tão eleito quanto misterioso, com o fito de que Igreja se veja investida de novos dons e novas graças, conforme Ela própria prometera em Fátima.

De fato, esta é última hora: está cruzado o istmo de 2022!

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